Fundação Joaquim Nabuco

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Seminário em Rede foca em discussão sobre educação, gênero e raça

No dia, 6 de março (segunda-feira), iniciou-se o projeto Seminário em Rede, acolhido no Museu do Homem do Nordeste, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). O evento pretende abordar, ao longo da segunda e da terça-feira (7), assuntos relacionados a questão racial, uma ponte com o Programa Institucional –  Programa Educação e Relações Étnico-Raciais, do programa de pós-graduação em ciências sociais da Fundação Joaquim Nabuco, com o objetivo principal de contribuir com a promoção da equidade nas relações étnico-raciais e de gênero na educação.

Etnicidade e religião

Às 9h, deu-se início a abertura do seminário, com a professora doutora Petronilha Gonçalves, da UFSCAR/São Paulo, que dissertou, principalmente, sobre as consequências do pensamento colonial de superioridade de raças, desumanizando as pessoas e produzindo racismo. A professora teve como base da sua fala a importância do ensino da história nas salas de aula e é da opinião de que o não-conhecimento da história "impede o entendimento de como funciona uma sociedade, permite que continue se cultivando preconceitos". Segundo a mesma, agora falando especificamente do significado da história para os povos negros, entender o que foi a escravidão é essencial para interpretar a realidade própria e dos outros, quais os seus papéis.

Após, deu-se continuidade ao evento com a mesa "Etnicidade, Pluralismo Religioso e Protestantismo", com a coordenação do Prof. Dr. Robson da Costa de Souza, coordenador do Seminário, e a participação do pastor Marco Davi, autor de livros como A religião mais negra do Brasil e A Bíblia e as cotas, e de Vanessa Barboza, professora, co-fundadora do coletivo Vozes de Maria e parte da Aliança de Negras e Negros Evangélicos do Brasil. Vanessa comentou sobre sua experiência como mulher negra dentro da Igreja evangélica, como se percebe como religiosa mesmo consciente de lutas como a de gênero e raça. Afirmou que as igrejas vinham como, antes de tudo, lugar de compartilhamento de histórias, dores e apreensões, mesmo que fosse, de todo modo, um lugar contraditório na afirmação étnico-racial.

O pastor Marco focou sua fala em uma postura mais crítica acerca da Igreja, afirmando pensar num pluralismo religioso quando pensava no protestantismo no Brasil. Agradece ao candomblé pela resistência africana que criou em território brasileiro (“Se não fosse o Candomblé, não teríamos tanta resistência”) e diz que, mesmo plural, o protestantismo sempre foi fechado a outras demonstrações de fé, mas que ele vê “um cisco de esperança nos grupos evangélicos negros, femininos e pobres”.

A parte da manhã do Seminário em Rede foi fechada com uma apresentação cultural, uma releitura do movimento dos Orixás do Candomblé, feita pelo professor de dança-afro primitivo tribal, Paulo Queiróz.

Etnicidade e gênero

Continuando o evento, na terça-feira (7), a programação do projeto Seminário em Rede Educação de Relações Étnico-Raciais, na parte da manhã, contou com o painel “Pesquisas do GEPERGES PPGECI E MPCS”, ministrado pela Profa. Dra. Lilian de Lira e com a presença de membros do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação, Raça, Gênero e Sexualidades (GEPERGES).

A mesa teve início com a fala do Prof. Dr. Robson de Souza, graduado em teologia e ciências sociais, que apresentou uma contribuição teórica elaborada a partir de sua pesquisa DCR-CNPq-Facepe, ainda em andamento no âmbito da Fundaj, cujo tema, “Religião, Gênero e Habilidades Sociais””, se desenvolve sobre uma análise comparativa de grupos religiosos. O professor afirma que seu estudo questiona, antes de tudo, o definir-se, já que “no momento que se esquematiza o que significa ser homem, ser mulher, se coloca uma relação de poder”. O pesquisador entende sua pesquisa como um avanço na categoria de gênero, passando por deslocamentos da esfera pública como ferramenta das lutas sociais, principalmente feministas, ao refletir tudo de uma perspectiva pós-estruturalista.

Segunda a falar, a Profa. Me. Waneska Viana, graduada em ciências sociais e com mestrado em educação, cultura e identidade, dissertou sobre sua pesquisa de mestrado, “Mulher negra presidiária, racismo e construção de ações emancipatórias”, na qual buscou entender as violações pelas quais as mulheres negras presidiárias passavam e o que lhes era comum. A professora aprofundou a pesquisa em questões de gênero e raça especificamente se tratando de ações afirmativas e as possíveis práticas ou ausência delas para a garantia do acesso aos Direitos Humanos, diante das vulnerabilidades de mulheres negras presidiárias. A pesquisadora teve como objetivo maior a possibilidade de trazer evidencias teóricas mais sólidas e historiográficas do sistema prisional, que, segundo a mesma, está indubitavelmente atrelado a questão de raça (“A maior parte dos presidiários possui baixa escolaridade, mestiços, negros, das regiões mais pobres das cidades, excluídos de políticas sociais”).

A mestranda Grasiela de Carvalho, graduada em direito e pós-graduada em gênero e políticas públicas, foi a terceira palestrante e trouxe para o debate seu projeto “Processos de (des)construção da masculinidade hegemônica na Região Metropolitana do Recife”, com a proposta de entender a masculinidade a partir do feminismo, com vivências contrárias ou subversivas ao modelo hegemônico de masculino. Em sua pesquisa, contou com quatro apoiadores recifenses, homens que se identificavam como pró-feministas (ou seja, apóiam a luta emancipatória das mulheres), e procurou entender a “crise do masculino” e a performance pró-feminista como caminho para a desconstrução da masculinidade hegemônica.

Última a se apresentar, a Profa. Me. Maria José dos Santos, colaboradora da Associação das Mulheres Quilombolas, começou a apresentação com um canto a sua orixá, Oxum. Em seguida, fez um breve relato da sua vida e o que lhe levou a sua pesquisa “Educação Quilombola no Quilombo das Onze Negras/PE”, que relata a trajetória de mulheres negras construindo cidadania, contribuindo no processo de construção quilombola — “quem faz acontecer as políticas públicas são as mulheres”, ressaltou a pesquisadora. Maria José também doou uma cópia do livro com o relato da sua pesquisa para a biblioteca da Fundação Joaquim Nabuco.

Ref(v)erencia ao Dia da Mulher

Ancestralidade e Produção do Conhecimento foi o tema abordado na parte da tarde. A mesa foi coordenada pelo Prof. Dr. Wanderson Flor do Nascimento (UNB/DF, vice-lider do GEPERGES Audre Lorde). O tema foi debatido pelo Prof. Dr. Emanoel Luis (UFRB/BA) que falou sobre valores comunitários, educação pela ancestralidade, comunidades de matriz africana e ética étnico racial.

Emanoel falou ainda de sua conversão ao candomblé, admiração e experiências dentro da religião, destacando uma figura importante durante sua vida, a Mãe Baratinha.

“Tenho orgulho de ter tido minha mãe de santo que era uma mulher maravilhosa, porque mulher é admirável, por ser criativa principalmente em momentos difíceis, de crise. Ela consegue dar jeito pra cada coisa. Não é a toa que possuem especificamente um dia só para elas, que é o dia Internacional da mulher”, contou.

Ao falar sobre ética o palestrante disse acreditar que ela é um princípio individual que parte para o coletivo e exemplificou, “Quando decidimos ser professor, estudamos, nos preparamos, queimamos as pestanas virando noites, essa é a parte individual. Depois disso entramos em sala para repassar ao educando tudo o que aprendemos, essa é a ética coletiva, estamos doando aquilo que adquirimos com o tempo, isso é ser ético, não guardamos para nós”.

O professor encerrou sua fala falando do seu orgulho por ser negro de raiz do candomblé e completou, “Sempre fomos fortes, embora no meio da escravidão, os negros dançavam, cantavam e comiam, e essa sempre foi a nossa salvação”.

Esta edição do Seminário em Rede contou ainda com a Conferência de encerramento do Prof. Dr. Livio Sansone (UFBA), sob a coordenação do Prof. Dr. Joanildo Burity (Fundaj).”

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