Fundação Joaquim Nabuco

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Fundaj: Filmes e Pipocas ou Cenas e Algo Mais

Por Anízio Andrade*

“Apaga-se a luz elétrica, fica a sala em trevas e na tela dos fundos aparece a projeção luminosa” (Jornal do Commercio/RJ – 21/6/1896).

A luz e a sombra, o Capibaribe a se banhar com a chuva fina que caía no Recife e as presenças do cineasta Fernando Spencer e do sempre eterno Capiba desenharam o cenário “mágico” para as tomadas iniciais de um continuado filme de amor à Sétima Arte, gravadas naquela noite de sábado, dia 28 de maio de 1988, na Fundaj do Derby.

Era a “Noite do Cinema,” na semana da inauguração do Cineteatro José Carlos Cavalcanti Borges (JCCB), destacada em texto de abertura da poetisa Dione Barreto como “A Curta Noite de Minutos Infindos.” Na tela grande, a mostra regional “Curta: Tamanho não é Documento.”

Curiosidades: 1. Um cineasta pernambucano, que participava da Mostra, brincou insinuando que o título sugeria exibições de filmes pornôs, em comentário veiculado na Coluna do jornalista Celso Marconi (Jornal do Commercio), no dia do evento. Ao término da sessão, o então presidente da fundaj, Fernando de Mello Freyre, deu de cara com o colunista e, em tom brincalhão, disse: “Celso, graças a você a Mostra foi um sucesso. Divulgue isso!”

2. Pouco antes do início da Mostra, programada para as 20h30, na entrada do prédio, o então diretor da Cinemateca da Fundaj, Fernando Spencer, um dos organizadores da programação, olhou para Capiba e disse: “Parece que não vem ninguém,” e  Capiba retrucou: “E  a gente não tá aqui?” Risos... Já sentados no JCCB, uma “tomada” de 15 minutos ...  cerca de 350 pessoas presentes.

Emoção e aplausos. Crítica favorável. Após a sessão inicial: Destaques nos jornais locais, mostras, exibições e lançamentos de filmes e vídeos, exposições, palestras, liderança nas programações anuais oferecidas pelas salas de cinema alternativo existentes no Recife e outros acontecimentos.

Antes da inauguração do Cineteatro JCCB, nas décadas de 1970 e 1980, a Fundaj já tinha um bom histórico de ações na difusão e preservação da Sétima Arte , com destaques para o apoio aos Festivais de Cinema Super-8 de Pernambuco (1977,1978 e 1979), realizados no Auditório Benício Dias; implantação da Filmoteca (1979); inauguração da Cinemateca (1980) e inúmeras outras programações de cinema. Em 1988, além do Cineteatro, outras salas da instituição, onde também aconteciam algumas exibições de filmes e vídeos (Sala Jota Soares, Auditório Benício Dias, Sala Roquette Pinto e Sala João Cardoso Ayres), foram registradas no Conselho Nacional de Cinema (Concine).

Entre 1989 e 1990, parceria com o Cineclube Jurando Vingar. Um convênio simples de exibições, sem exclusividade da pauta disponível mensalmente para as sessões e eventos de cinema no JCCB, administrado e coordenado totalmente pelo então Instituto de Assuntos Culturais da Fundaj, através da Diretoria do Espaço Cultural Mauro Mota/Coordenação e Curadoria de Cinema, a exemplo das várias outras parcerias existentes na época. A sede da entidade funcionava na Rua Samuel Pinto, nº 70/302 – Bairro da Boa Vista – Recife-PE, onde os seus integrantes se reuniam. Rendeu bons frutos.

Além do Jurando Vingar, a Fundaj manteve várias outras parcerias com instituições e entidades culturais, bem como contatos com cineastas e as principais distribuidoras de filmes, para alimentar a sua área de programações cinematográficas mensais.

A partir de 1991/1992, a área de cinema, que dividia nos anos iniciais o espaço com a de teatro, passou a ter a disponibilidade integral nas pautas do Cineteatro JCCB, decorrente da ascensão gradativa e continuada da área de cinema, da pequena procura dos grupos de artes cênicas locais e da consequente desativação da área de teatro daquele espaço.

Em 1995, exibição da Trilogia das Cores, do cineasta krzysztof Kieslowski, inédita no Recife, com Casa cheia, seguida de uma parada de dois anos nas programações do Cineteatro JCCB, para a aquisição, adequação e instalação de modernos equipamentos de projeção e som de cinema, inéditos no Recife.

Apesar disto, a área de cinema não parou totalmente. Algumas programações foram centradas na Sala João Cardoso Ayres, como a comemoração dos 100 Anos do Cinema Brasileiro, com palestras, mostra de filmes em Super-8, além de lançamentos e mostras de vídeos e outras.

No primeiro semestre de 1998, foram inaugurados os novos equipamentos de projeção e som, um marco referencial dos 10 anos da Sala JCCB, com a mostra de filmes brasileiros Cinema para Todos, confirmando, em parte, o prognóstico feito pelo jornalista José Carlos Targino, no Suplemento Cultural do DOU, do mês de novembro de 1989, numa referência ao setor de cinema do Cineteatro JCCB e ao Cinema do Parque: “O mau cinema no Recife: uma via-crúcis que promete acabar.”

Durante um dos intervalos da mostra de estreia dos equipamentos, começou uma nova fase da Sala José Carlos Cavalcanti Borges, com a exibição do filme Bent, de Sean Mathias, também em noite chuvosa, no dia 23/5/1988, já sob a coordenação do jornalista e cineasta Kléber Mendonça Filho, e a adoção da marca Cinema da Fundação.

Chuva, Luz, Câmera, Ação! Em 2013, após mais de três décadas e meia de dedicação à preservação e difusão da Sétima Arte, a Fundação Joaquim Nabuco investe novamente em equipamentos de cinema de última geração para o seu prestigiado Cinema da Fundação, que se encontra em fase de adequações, para receber o material no mesmo espaço que passou a sediar as programações fílmicas da Instituição, desde a inauguração do Cineteatro JCCB, em 1988: a Sala José Carlos Cavalcanti Borges – coincidentemente, no ano do seu Jubileu de Prata.

A Sala JCCB, no dia 28 de maio passado, completou 25 anos de dedicação à difusão da Sétima Arte e fez “Bodas de Prata”, fruto de uma perfeita e harmoniosa união com a comunidade local (público em geral, cineastas, cinéfilos, jornalistas, críticos de cinema, etc), com o “testemunho” único do velho Capibaribe.

Uma data ímpar, para ser destacada e incluída na memória institucional. Senão com exibições de Filmes, mas comendo Pipocas, relembrando os principais pioneiros da construção da história do cinema na Fundação Joaquim Nabuco: Rucker Vieira (fotógrafo e cineasta – in memoriam), Paulo Miguel (operador de cinema – in memoriam), Fernando Spencer (cineasta e ex-diretor da Cinemateca Fundaj), Hércules Gonçalves (operador de cinema) e vários outros “atores coadjuvantes” dessa longa “jornada cinematográfica” ou revivendo na cabeça Cenas marcantes e Algo Mais!

*Anízio Andrade é analista em C&T da Fundaj, lotado na Diretoria de Memória, Educação, Cultura e Arte/Massangana Multimídia Produções. Coordenador de Cinema do Cineteatro JCCB/Sala José Carlos Cavalcanti Borges, no período de maio de 1988 a maio de 1998.


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