Fundação Joaquim Nabuco

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HH - A CENSURA E O RÁDIO NO PIAUÍ

Francisco Alcides do Nascimento
Professor da Universidade Federal do Piauí – UFPI. 
Integrante do Conselho Científico da Associação Brasileira de História Oral.

Estava com doze anos, mas, apesar da idade, não conseguia entender a razão para a quantidade de aviões sobrevoando a cidade onde morava. Ela recebia vôos diários, porém, naquele dia, os aviões eram diferentes e faziam percursos também diferentes, era o dia era 31 de março de 1964. Eu não entendia os temores de meu pai, mais especialmente seu medo de perder o emprego público. Quando tinha que tratar dos acontecimentos que estavam mexendo com a sua rotina cotidiana baixava a voz. O rádio, ele pouco ouvia no horário do meio-dia, uma vez que chegava sempre muito apressado e preocupado em voltar dali a pouco mais de uma hora. No turno da noite aí, sim, ele ouvia o programa de rádio, que se tinha transformado em “atividade” obrigatória para milhares de brasileiros desde os anos quarenta. 

Não obstante a idade, eu ainda não tinha começado o curso ginasial, fato que só ocorreria no ano seguinte, na escola que era destinada aos filhos dos segmentos mais pobres da sociedade, a Escola Industrial de Teresina. Geralmente, àquela época, os pais eram semi-analfabetos e muito pobres, não possuíam assinatura de jornal; e mesmo que tivessem acesso a esse meio de comunicação, dificilmente teriam condições de dimensionar o que estava ocorrendo no País e relacionar o acontecimento com o meu futuro e o futuro de dezenas de milhares de outros jovens da mesma idade espalhados pelo Brasil afora. Demoraria ainda alguns anos para compreender o que se havia passado naquele dia sombrio. 

O movimento das tropas que davam sustentação ao golpe desferido contra a experiência democrática vivida pela sociedade brasileira tinha começado naquele dia, mas se estenderia até ao dia 2 de abril, quando as notícias transmitidas através do rádio davam conta de que o presidente da República, o sr. João Goulart, tinha deixado o País rumo ao Uruguai e os militares se preparavam para assumir o comando do Estado brasileiro. Começava uma longa noite para as instituições democráticas, para os cidadãos que ousavam discordar daqueles que se tinham assenhoreado do poder político nacional.

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