Fundação Joaquim Nabuco

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ENTREVISTA COM O PROFESSOR VICENTE CELESTINO DE FRANÇA*

Concedida a Antônio Balduino, da Diretoria de Pesquisas Sociais/Fundação Joaquim Nabuco, em dezembro de 2008.

Antônio Balduino – Professor, inicialmente, gostaria que você falasse sobre sua trajetória profissional até chegar a abraçar a carreira docente.

Vicente Celestino de França – Tenho em torno de vinte anos de magistério e tive, desde jovem, a inclinação para o ensino. Trabalhei ainda como voluntário no antigo Mobral, onde comecei o meu trabalho e minha experiência, diria assim, marcante também: minha experiência religiosa como orientador de jovens, de grupo de jovens. Nesse processo me tornei orientador de jovens e depois fiz minha graduação. Durante a graduação entrei como professor. Fiz especialização em Políticas Educativas e mestrado em Educação com tema sobre a violência escolar.

Antônio Balduino – O que poderíamos entender por atos ou atitudes violentas? Como caracterizar o comportamento violento dentro do ambiente escolar? Como ele seria identificado? Tenho sentido, nas minhas conversas com professores, que há certa dificuldade em se distinguir, com clareza, um comportamento indisciplinado de um comportamento violento. O que diferencia um mero ato de indisciplina do comportamento violento?

Vicente Celestino de França – A violência é uma força. Michel Maffesoli, que é um dos teóricos que estudei, conceitua a violência como uma força presente em todo ato humano, e nem sempre ela tem uma conotação negativa, porém, a partir do contexto em que é empregada, é que ela começa a ter um caráter negativo. Então, violência, do latim virtus, é justamente força. Eu posso impor minha força ao mais fraco, ao menor. A relação e a convivência social estabelecem a diferença entre indisciplina como um comportamento inadequado do aluno ou ato de agressão de alguém sobre o outro. Neste caso, a violência como uma força, manifestada por um ato de poder ou um ato de agressão tem essa configuração: alguém que exerce o poder sobre o outro. A indisciplina já é o desvio de conduta de uma regra, que é diferente da utilização do ato de poder. Então aqui está a diferença, a partir do conceito: violência como um ato de poder e indisciplina como transgressão à uma regra. Existem regras em uma unidade escolar que o aluno pode transgredir, nisso ele está cometendo uma indisciplina. Agora, ele pode no uso da agressividade, cometer atos de violência contra os seus colegas; aí já é um ato em que ele impõe sua força.

Antônio Balduino - Daria para você exemplificar, a partir do cotidiano da escola, como diferenciar um ato violento de uma indisciplina?

Vicente Celestino de França – Sim. Só que um está associado ao outro, ou seja, a violência está associada à indisciplina, mas nem sempre a quebra de uma regra significa violência. Dando exemplos claros: existe a regra do respeito com os demais colegas. Então o aluno pode bater no outro e, com isso, até machucar o outro. Isso é um ato de indisciplina com o uso da violência. Eu posso simplesmente, também, chegar atrasado – que é um ato de indisciplina do aluno que não se configura, nesse momento, em um ato de violência. Em um, utilizo a força para exercer esse ato de violência e no outro apenas estou transgredindo uma regra sem, no entanto, cometer uma violência.

Antônio Balduino – Na sua visão, o que é que condiciona o surgimento do comportamento violento nas escolas? Algumas pesquisas têm colocado como ponto principal o ambiente em que a escola está inserida, seu contexto. Você concorda com esta afirmação?

Vicente Celestino de França – Não, claro que não. Porque os índices de violência independem da condição social da escola. Nós temos escolas em periferia, com alto grau de miserabilidade, em que o índice de violência é bem menor do que em uma escola de bairro de classe média alta, com todas as condições, e que apresenta alto índice de violência. Claro, o meio pode e interfere, evidentemente, neste processo, mas não como única força determinante em relação à escala de violência. A violência está presente tanto nas escolas de periferia, quanto nas escolas de classe alta, classe média alta.

Antônio Balduino – Vou refazer a pergunta: quando citei a questão das pesquisas, elas dizem que quando a escola  (não pelo fato dela estar inserida dentro de um ambiente externo de pobreza, de miséria) está inserida dentro de um ambiente externo violento, uma comunidade envolvida com tráfico de drogas, onde há muitas ocorrências de acontecimentos violentos...

Vicente Celestino de França – Quero justamente aproveitar para desmistificar isso. Quando a gente entender que ... Vou dar um exemplo do que tem saído ultimamente na mídia: como entender a situação daqueles jovens americanos que, em escolas que não são de bairros tidos como violentos, de repente matam dez, vinte pessoas. Como compreender esse fenômeno? Então, nesse caso, o contexto externo da escola, evidentemente, não contribuiu. As Representações Sociais podem nos ajudar a compreender como a violência se manifesta aí, ou seja, o jovem, a criança, o adolescente, o adulto apreendem na sua convivência várias formas de violência: a violência familiar, a violência social, a violência dos filmes que ele assiste, a violência de tudo aquilo que ele vê, escuta, convive, presencia; e o aluno ao conviver neste contexto de violência, independentemente da realidade social na qual ele vive, vai fazer uma representação dessa violência. Um aluno – nesse ponto eu daria razão a perspectiva que você colocou – que convive em um lar onde tem um alto grau de violência doméstica poderá representar a violência com a qual ele convive; poderá ou não, isso não é uma regra fixa.

Antônio Balduino – Ainda dentro deste ponto, tem sido recorrente, na fala dos professores que tenho entrevistado, a afirmação de que o maior fator de condicionamento da violência escolar é a desestrutura familiar. Como você interpretaria esta visão?

Vicente Celestino de França – A pesquisa que fiz partiu do seguinte contexto: analisei a violência a partir de três olhares: o olhar dos pais, dos alunos e dos professores. Porque se você fizer uma análise só do olhar dos professores, você vai constatar que sua observação vai ficar incompleta; os professores tendem, via de regra, a não assumir parte da violência que eles mesmos produzem. É comum, em seus depoimentos, que as causas da violência escolar estejam sempre ligadas ao exterior: aos pais, a violência social. Nunca, ou muito raro, um professor diz: “Olha, a gente tem tido, na sala de aula, um comportamento conflituoso com os alunos e eu mesmo posso estabelecer essa violência com eles”. A visão dos professores aponta para a violência que vem de fora para dentro, e eles esquecem daquela violência que é produzida no interior da escola: a violência na relação professor-aluno que, também, pode ser uma relação violenta.

Antônio Balduino – Enquanto professor de uma escola pública, enquanto uma pessoa que está vivendo nesse meio, que tipos de violências identifica dentro da relação do professor-aluno?

Vicente Celestino de França – Na pesquisa que fiz, identifiquei algumas representações de violências no comportamento dos professores, entre elas podemos citar: o autoritarismo, quando não sabe se reconhecer, viver a autoridade sem autoritarismo - posso exercer minha autoridade sem precisar ser autoritário; observamos no dia-a-dia a violência verbal, o preconceito; às vezes tem professor que marca o aluno, que coloca estigma no aluno, apelido; professor que chama o aluno de burro, e não percebe que está ajudando a criar naquele aluno um complexo. O contexto escolar é um contexto de muito conflito: conflito de jovens, conflito de adolescentes, conflito de gerações, conflito daquilo que constitui o próprio adolescente, a própria criança, o conflito de culturas. Estamos vivendo uma cultura de agressão tão forte, uma cultura de violência e tudo isso vem desembocar na sala de aula; e o professor, que é uma pessoa humana, precisa ter compreensão desse ambiente de conflito. Ele deve ser um mediador de conflitos, e se ele não tiver condições de mediar esses conflitos, vai ser um produtor e reprodutor da violência cada vez mais presente na sala de aula, a partir de seus atos, de suas atitudes quando não refletidas, quando não pensadas e quando não admitida enquanto um ser que está num ambiente de muita agressividade.

 

Antônio Balduino – Quais são os tipos de manifestações violentas que predominam, ou tem predominado, dentro das escolas que você tem contato? E quais são suas principais vítimas?

Professor Vicente Celestino de França – A violência envolve todos os agentes da escola: diretores, secretários, professores, alunos etc... Todos nós somos, ao mesmo tempo, vítimas e produtores dessa violência. Precisamos compreender isso. Somos vítimas enquanto vivemos em um sistema, uma cultura de morte presente na nossa sociedade, uma cultura de agressividade – as pessoas não sabem resolver seus conflitos através do diálogo, isso é o “X” da questão. Trabalhar para reduzir a violência significa trabalhar para que as pessoas possam resolver seus conflitos por meio do diálogo, e não da violência.

A escola é um lugar de conflito de diversos níveis. Os pais deixaram isso bem claro nas entrevistas que fiz com eles: a escola é configurada como um lugar de conflito para eles; os professores também configuraram a escola como um lugar de conflitos; as crianças, nos seus depoimentos, nos seus desenhos, nos teatros e nas músicas denominaram a escola como um lugar de conflitos. Então, como lugar de conflitos, você vai encontrar várias manifestações de violência, desde aquela em nível pessoal, na agressão de uma pessoa contra a outra – em que vamos colocar a agressão física, a agressão verbal. Podemos colocar, também, as outras formas de agressão: a agressão contra o desenvolvimento psicológico do aluno. O aluno, muitas vezes, só de você taxá-lo de burro, de incompetente... é uma agressão contra o seu desenvolvimento intelectual. Há agressão também contra o desenvolvimento afetivo. Aí vamos ver a questão da desestruturação da família que faz com que muitos dos nossos alunos tenham desequilíbrios afetivos, e a gente vai ter que, aqui, lidar com essas questões afetivas; e não saber reconhecer isso é agredir esse desenvolvimento afetivo do aluno. Há agressão, podemos assim dizer, contra a própria situação social. O próprio sistema de educação agride quando não dá condições melhores para a Educação, principalmente nas escolas de periferia. Então o próprio sistema de educação é gerador de violência. Como esse sistema gera violência em nível estrutural, em tudo aquilo que se refere à qualidade da educação que está sendo oferecida às nossas crianças, principalmente nos bairros periféricos, teremos, também, a questão dos próprios professores: a questão dos salários. Tudo isso interfere. Além da própria questão social que podemos colocar no bojo dessas discussões como um elemento fundante para a desestrutura familiar.

Antônio Balduino – O que poderia ser feito para superar, efetivamente, essa situação de violência que envolve o ambiente escolar?

Vicente Celestino de França: A partir dessa pesquisa que fiz sobre representações sociais e violência escolar em escolas da periferia do Recife, nós criamos uma ONG chamada “Cultura de Paz”. Por meio desta ONG visitamos várias escolas de forma voluntária e temos realizado, com a comunidade escolar, oficinas de como construir a paz em ambientes de muita violência. A nossa proposta para tentar diminuir a violência na escola é fazer com que, em primeiro lugar, a escola compreenda o que é violência. Muitos gestores, muitos professores não sabem o que é violência. Hoje, professores daqui sabem distinguir um aluno que é traficante, de um aluno que pratica bullying, porque a gente estudou, sentou, fez um estudo com os professores, com os alunos, com os pais, discutimos a questão.

A escola não discute a violência; ela vive em um contexto de violência e não pára, não faz uma reflexão. Porque é a partir do momento em que tomamos consciência do que é a violência, como ela se manifesta através das representações das crianças, dos pais, dos professores, dos funcionários... eles mesmos representam a violência com a qual convivem no dia-a-dia. Essa violência é representada aqui, no palco da vida, onde eles estão convivendo, no espaço da escola. Para resolver, contudo, não existe, evidentemente, uma solução mágica. É um processo longo que passa, primeiro, pela conscientização – os professores precisam tomar consciência do que é a violência, de como ela se manifesta, e descobrirem juntos formas de lidar com essas manifestações. Então, os professores precisam descobrir que há formas de conviver e prevenir a violência. O primeiro passo é: conscientização. Só podemos conseguir essa conscientização se houver, por parte da escola, vontade de discutir, parar, estudar, conhecer a teoria da violência, conhecer suas formas de manifestação; isso é o que fazemos através da ONG. Realizamos oficinas com os professores; na oficina discutimos o que é violência, o que é bullying e, ao mesmo tempo, montamos um projeto na escola para que todos os professores, de forma interdisciplinar, possam fazer uma intervenção pontual. A violência só vai diminuir na escola se houver, por parte de todos os agentes escolares, o interesse para resolver essa questão. Havendo interesse, e, descobrindo a vontade de resolver o problema, partimos para a ação. Encontro com os pais, com os professores e com os alunos, refletindo com eles – não como uma palestra, mas como uma reflexão que tem que ser feita, constantemente, ao longo de todo o ano.

 

Essa reflexão passa por uma mudança de atitude que deve começar, em primeiro lugar, pelo professor. É dele que vai partir, dele como ator e como aquele que vai provocar essa mudança; ele é quem vai ajudar essa mudança e será o agente privilegiado por intermédio do qual os alunos e os pais poderão mudar suas atitudes. Não mudamos a configuração da agressividade na escola do dia para a noite, mas algumas coisas a gente pôde melhorar.

 

O primeiro ponto para melhorar, por exemplo, é o estabelecimento de regras claras pela escola. Essas regras devem ser construídas com a participação dos alunos, dos pais, dos professores. Às vezes, uma pessoa faz as normas da escola e impõe essas normas. Muitas vezes, o aluno não participa da discussão dessas normas. Quando o aluno participa da construção do código de convivência da escola, ele mesmo vai se interessar que aquele código dê certo. É muito mais fácil o código de convivência de uma escola ser respeitado quando ele é feito pelos alunos, pelos professores, do que por um decreto do diretor, ao que todos devem obedecer, e, muitas vezes, não obedece.

 

Uma das formas justamente passa por uma gestão democrática de fato. Você observa que até a gestão democrática de uma escola interfere na violência, porque os alunos se sentem responsáveis por aquilo que eles mesmos constroem; quando eles não constroem nada não se sentem responsáveis. Além do mais, a imposição não contribui para a diminuição da violência, aliás, já é um ato de violência. Conscientização, treinamentos, oficinas, investimentos... Tem que investir. Fico admirado o quanto se investe na área de informática e o quanto se investe para a questão da violência na escola: quase nada. As escolas estão aí se acabando: crimes, morte de alunos... No ano passado, tivemos, aqui na escola, quatro alunos assassinados pelo tráfico de drogas. Dois grupos disputam a escola e exercem aqui tamanha violência: é o grupo do aliciamento para drogas e o grupo do aliciamento para a prostituição infanto-juvenil.

 

Uma situação difícil para a escola, não somente essa, mas para quase todas as escolas, é quando ela não tem uma estrutura, um psicólogo, um orientador educacional, às vezes, é o diretor sozinho que tem que se virar para ser tudo ao mesmo tempo e, muitas vezes, falta a ele competência, porque a escola necessita de uma equipe pedagógica completa, que possa ajudar a desenvolver melhor o seu papel, a sua função, e, quando não tem... Olha, quando eu disse a você que existe uma violência que é gerada pela própria estrutura do sistema de educação, eis o caso: a escola não tem um aparato, um grupo preparado para lidar com a questão dos conflitos e da violência na escola. Não há investimento para levar isso como uma questão séria. É uma questão muito séria que está aí na porta das escolas e o pessoal ainda está “patinando” sem saber como lidar com ela. Agora, por que está patinando? Porque, realmente, tais quais os professores, as pessoas ainda não conhecem o que é a violência e como ela se manifesta, porque se conhecessem investiriam mais, se conhecessem dariam atenção à violência e buscariam alternativas, porque alternativas têm. Não posso aqui lhe dar uma receita, dizer: “olhe, siga essa receita”. A receita é sentar, estudar, avaliar as formas de violência existentes em uma escola. Porque uma difere da outra, e ali construir, juntos, caminhos, saídas, que elas existem. Basta apenas que as pessoas tenham capacidade de se sentar, o desejo de aprender algo novo e buscar, não de forma mágica... Por isso que o projeto é feito na escola, para que o professor diga: “ah, aqui está tendo pichação, vamos fazer um trabalho com relação à pichação?”. Aí eles mesmos propõem o trabalho. “Não, os alunos estão tendo uma agressividade muito forte, agressividade verbal. Vamos fazer um trabalho com relação à agressividade verbal. Vamos fazer um trabalho em relação ao respeito das diferenças.”Quantos alunos que não tem respeito pela cor, pela opção sexual do outro?.São questões que vão gerando o conflito e não são trabalhadas. Mágica não existe, receita não existe, mas o que existe é a capacidade, a inteligência – nossos professores têm capacidade, nossos professores têm inteligência. Basta alguém que possa motivá-los a isso dando os instrumentais para descobrirem saídas à violência que estamos mergulhados. Daí a situação de tantos professores que deixaram, que estão abandonando a escola, porque não estão mais agüentando o alto grau de violência presente na escola.

Professor da Escola Municipal Vasco da Gama e da Escola Superior de Marketing. Mestre em Educação pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, ULUSÓFONA, Portugal. Fundador da ONG Cultura de Paz.

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