Fundação Joaquim Nabuco

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Entrevista com o sociólogo e cientista político Simon Schwartzman

Por: Malu Didier

Foto: Gil Vicente/Fanzine/FundajFoto: Gil Vicente/Fanzine/Fundaj 


Simon Schwartzman é sociólogo, cientista político e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) no Rio de Janeiro. Tem mestrado em sociologia pela Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (FLACSO, Chile), e é doutor em ciências políticas pela Universidade da California, Berkeley. Nos últimos anos, tem dedicado suas pesquisas a temas de educação, ciência e tecnologia e políticas sociais. Foi professor de Ciência Política e diretor científico do Núcleo de Pesquisas sobre Ensino Superior da USP entre 1990 e 1994, e Presidente do IBGE entre 1994 e 1998. É membro da Academia Brasileira de Ciências, e no último dia 25 de julho foi convidado pela Fundação Joaquim Nabuco e apresentar seu trabalho no Seminário de Tropicologia.


O que fez o senhor querer pesquisar sobre a educação no Brasil?

Acho que o tema da educação é muito importante, pois, em última análise, nunca vamos resolver os problemas do país se não tivermos uma população educada, e isso passa por um bom sistema escolar. Eu comecei na área da pesquisa científica, depois Ciência e Tecnologia, para depois pesquisar a educação superior. Hoje tenho trabalhado mais com a educação média e básica, então são temas centrais; sem eles o resto não anda.

 

As pesquisas atuais feitas no âmbito acadêmico são suficientes para diagnosticar alguma falha no sistema?

             
Acho que nosso problema não é falta de pesquisa, é falta de implementação de políticas adequadas. Hoje em dia já existe um conhecimento bastante aprofundado de quais são as questões e os problemas e em que direção precisamos caminhar. O que não se tem conseguido é que a sociedade se organize para fazer o que é necessário.


Sinteticamente falando, qual a relação entre educação e progresso social?

                
A educação contribui para o progresso social em vários aspectos. Podemos assinalar neste trabalho, primeiramente, que a educação forma melhor as pessoas, tem uma função humanística. Ela desenvolve a cultura, o conhecimento e a equidade na sociedade. A partir do momento que se dá mais oportunidades, diminuímos a desigualdade social. A educação também desenvolve o crescimento da economia, porque você forma pessoas competente com capacidade de trabalho que aumentam a produtividade.

 

O senhor diria que houve alguma mudança nessa estrutura desde que começou a pesquisar educação até os dias de hoje?


A educação brasileira vem se transformando, não só por conta das pesquisas, mas por um processo de maior participação, de aumento dos gastos públicos, de expansão, que são pontos fundamentais. Temos cada vez mais gente nas escolas estudando. Por outro lado, temos um problema muito sério, pois a qualidade da educação pública melhora pouco e os custos da educação estão aumentando; em alguns casos, até saindo de controle do que é possível. Hoje em dia temos um problema central, que são  demandas e expectativas crescentes, o custo crescente, mas a falha na educação em cumprir termos de qualidade e competência.

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     
Qual a importância de um debate como esse para entendermos o atual cenário acadêmico no país?

 
Eu vim apresentar a ideia geral desse documento feito pelo grupo de trabalho. Nunca apresentei isso no Brasil. É um grupo internacional, e nele discutimos muito entre nós, mas agora queremos saber se o que pensamos faz sentido quando trazemos para quem não participou das pesquisas. Procuramos responder essa questão com pessoas de várias partes do mundo; a partir daí a gente olha para educação em diferentes aspectos: como formadora de pessoas, como contribuinte para o desenvolvimento da economia e para igualdade social. Esses são os grandes temas e cada um deles traz questões sobre como se organiza equal a relação da educação com a sociedade de forma mais ampla.

 

Entrevista: Roque Laraia, antropólogo

Por Juliana Costa

Foto: Gil Vicente/Fanzine/FundajFoto: Gil Vicente/Fanzine/FundajMineiro, de Pouso Alegre ("Ninguém sabe quem foi o cansado viajante que, repousando sob um céu estrelado, emoldurado pelas sombras das escuras montanhas, resolveu denominar de alegre o seu modesto pouso"*), e bacharelado em História, o professor Roque Barros Laraia foi o 401º palestrante convidado ao Seminário de Tropicologia, da Fundação Joaquim Nabuco (confira a cobertura do evento). Em tom descontraído e dando boas vindas a uma plateia que se apertava por vaga na sala, concedeu uma entrevista.

Qual a sua história com a Antropologia?

Eu, na verdade, nem sabia muito bem o que era Antropologia quando entrei na universidade. Foi no curso de História que eu descobri a Antropologia. O mais interessante é que eu fiz História em Minas Gerais e meu professor de Antropologia era um médico dermatologista. Os estudantes diziam”como dermatologista é um bom antropólogo e como antropólogo é um bom dermatologista”. Eu fiquei meio intrigado, porque eu achava que o que ele falava não tinha muito a ver com a coisa. Comecei a procurar uma bibliografia em Antropologia e descobri o livro de Ralph Linton — naquela época, o único manual de Antropologia americano traduzido para o português. E já me entusiasmei. Mas eu não tinha nenhuma perspectiva de fazer Antropologia, eu achava que ia fazer História. Quando eu terminei o curso de História eu vi um anúncio do Museu Nacional, um curso de teoria de pesquisa e Antropologia social, intensivo de um ano. Era uma especialização, não era mestrado. Eu me candidatei e fui um dos seis alunos do curso. Quando a gente terminou o curso, o Museu Nacional resolveu contratar os três primeiros colocados do curso — eu, Roberto da Mata e Alcida Ramos.

O que foi que lhe chamou atenção para estudar Antropologia?

Eu acho que a diversidade cultural. O fato de você ter uma unidade biológica, você ter uma espécie humana como uma só — todos os homens são iguais —, mas uma enorme diversidade cultural. Tudo foi criado de uma maneira independente  por exemplo, o sistema de parentesco, que é uma área que eu estudo muito. Cada sociedade humana criou um sistema de parentesco que não tem nada a ver com sistema biológico, porque quando essas decisões foram tomadas ninguém sabia nada de biologia. Então você tem uma sociedade fortemente “paternial”, que foram as que eu estudei, com parentesco só pelo lado do homem, e sociedades fortemente “materniais”, com parentesco só pelo lado da mulher. Tem várias conjugações, várias possibilidades.

Inclusive o senhor é autor do livro "Cultura: um conceito antropológico". Qual é, afinal, a relação entre cultura e antropologia?

O conceito básico da Antropologia é cultura. A Antropologia começou formalmente como uma ciência acadêmica em 1871 na Inglaterra, quando [Edward] Tylor, que eu considero o primeiro antropólogo inglês, definiu o conceito de cultura. Cultura é tudo aquilo que o homem faz e que depende do local em que está. Tudo aquilo que o homem faz depende de aprendizado, é o que eu quero dizer. Até andar, que é um ato biológico, a criança aprende a andar imitando os pais. De tal forma que um antropólogo sabe. Eu, por exemplo, sei quando é americano, quando é brasileiro porque as pessoas andam de forma diferente. Hoje a Antropologia é uma coisa muito mais... na década de 60, era muito tênue. Hoje nós temos uma Associação que tem 2300 sócios e é a 3ª maior Associação do mundo.

Em entrevistas anteriores, o senhor sempre procura acessar o que chama de "grande público". No caso desse Seminário de hoje, a gente percebeu uma grande comoção nas nossas redes sociais quando o nome do senhor foi citado como palestrante. Como o senhor vê essa adesão do público a suas palestras? É importante?

Ah, é sim! Quando você tá numa palestra, de certa forma, você dialoga. Você se adequa, vai mudando dependendo do público.

O que o senhor espera de hoje? Quais os principais objetivos desse evento?

Eu vim falar sobre a história da Antropologia brasileira, mas eu não trago textos dizendo “a história é essa”, eu trago as possibilidades de ser a história da Antropologia, porque há muitas interpretações. Por isso que eu fiz um texto aberto, eu não estou definindo as coisas, estou colocando as posições diferentes, as diferentes pessoas que consideram a história isso, aquilo. Para discussão. Tem gente que acha que é “a Antropologia começou na Semana de Arte Moderna, em São Paulo”. Tem gente que acha “a Antropologia começou com os médicos, eles são os primeiros antropólogos”, acreditam numa Antropologia biológica. Tem vários discussões, por isso deixei o texto em aberto. Quando eu falo para alunos eu falo minha opinião, hoje eu tô colocando a possibilidade para debate. Eu coloco de propósito questões que são discutíveis.

 


* http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-71832014000200014

Entrevista: João Câmara Filho, artista

Por Juliana Costa

Imagem: Autorretrato do artistaImagem: Autorretrato do artista

João Câmara Filho é paraibano, do ano de 1944. Cursou artes plásticas na Escola de Belas Artes da UFPE e desde seus 16 anos não parou de pintar. Premiado nacional e internacionalmente, é admirado por críticos como Ferreira Gullar e Frederico Morais e já participou de dezenas de salões de arte, bienais e exposições individuais pelo país e no
exterior. Sua série temática mais conhecida, Cenas da Vida Brasileira, trata da vida política no Brasil nas décadas de 30 a 50.

No dia 28/03, vem à Fundação Joaquim Nabuco para o 398º Seminário de Tropicologia, no qual irá apresentar suas impressões sobre outro artista-amigo, Francisco Brennand. Às 9h, na sala Gilberto Freyre, da Fundaj – Casa Forte, pretende levantar considerações sobre a herança cultural do artista na sua palestra “Francisco Brennand – Locus Solus”.

Para nos possibilitar entender mais das motivações e pensamentos do paraibano (agora instalado em Olinda, Pernambuco), ele concedeu-nos uma entrevista, que se segue:

O senhor se considera um “multi-artista”. O que isso quer dizer?

Não sei se disse alguma vez ser multi-artista. Provavelmente quer se dizer com isso que alguém pinta, grava, faz arte em diversos meios. Eu pinto e gravo, faço alguma arte digital, escrevo...

Quem são suas principais inspirações?

É o fator humano que se particulariza em alguns modelos de escolha.

O que o senhor diria ser a principal característica dos seus trabalhos? O que lhe diferencia dos demais?

Sou, essencialmente, um pintor de figuras, coisas e animais. Isto me aproxima, mais do que diferencia, de outros artistas.

O que o senhor tenta passar com sua arte?

O desejo de estar no mundo, vivo como ele.

Algumas de suas obras têm cunho político. É uma preferência sua?

Pintar figuras exibe a condição política do que é representado. Mas, nunca fui eleito nem me candidatei à política.

O que lhe é mais satisfatório em todo o processo de desenvolvimento das suas obras?

O trabalho do pintor é em grande parte tarefa física. Fico feliz quando o trabalho de construção mental acompanha com fôlego esses passos.

O senhor pretende realizar mais trabalhos no futuro?

Estou na ativa, penso.

O que levou ao interesse de estudar e falar sobre Brennand? Você foi discípulo dele?

Quando comecei a pintar , Francisco Brennand era "o artista mais velho". O tempo nivelou nossas idades: agora somos velhos pintores e ainda amigos.

Alguma obra de que você se arrepende ou exposição que você gostaria de ter feito diferente?

A biografia critica de um artista deveria descrever o que ele deixou de fazer. Ao invés, valoriza-se o que ele produziu. Vou esperar uma anti-biografia para avaliar os arrependimentos.

Especificamente sobre a palestra que o senhor irá ministrar na Fundaj, qual é a história por trás do título “Locus Solus”? O que significa? O que quer passar?

Locus Solus, lugar solitário, é uma novela fantasiosa do escritor Raymond Roussel em que ele descreve inventos prodigiosos e singulares. A oficina de Brennand é um desses locus solus subequatoriais em que a imaginação se exila. Nessa palestra, tenta-se uma aproximação dos espaços solitários de Martial Canterel, personagem de Raymond Roussel, e a fábrica singular de Francisco Brennand, ambos espaços originais e exilados do comum. O tema do exílio interno também perpassa essas considerações, levando em conta a herança cultural do artista, de clássico cânone europeu que transitará aos loci subequatoriais do regionalismo.

Entrevista: Luan Nascimento, grafiteiro e educador do muHNE

Por Juliana Costa

Artista por trás das paredes da nova sala de convivência da Fundação Joaquim Nabuco, que retratam, em grafite, o fundo do mar, Luan Nascimento é grafiteiro, graduado em história e monitor do Museu do Homem do Nordeste. Luan, entre uma correria e outra, da sua oficina a nova exposição do muHNE, concorda em sentar por alguns minutos para conceder essa entrevista. Explicando sobre a reforma pela qual a oficina está passando — oficina esta que também será palco de um de seus futuros projetos de grafite —, pega dois bancos e posiciona-os perto da mesa, colocando a lata de tinta que vinha carregando sobre ela, e, ainda segurando um pincel, recosta no banco para falar um pouco mais sobre sua arte. Não larga o pincel durante toda a conversa.

A seguir, a entrevista completa. Mais imagens do grafite de Luan na sala de convivência podem ser conferidas aqui.

De quem foi a ideia de grafitar a nova sala de convivência?

É o seguinte, o pessoal estava pensando e conversando que queriam uma sala de convivência, só que eles não sabiam mais ou menos como ia ser, se ia ter jogo, se não ia... Eles começaram a pensar no projeto e estavam pensando em pintar em três passos diferentes, três cores diferentes, que iam ser os ambientes. O do canto, onde tem uma prancha, vai ser a parte que tem a televisão. No meio, ia ser uma parte de leitura. No outro canto, uma parte de jogos. A princípio se pensou assim. Depois foram mudando, mudando, mudando, mas queriam alguém para pintar, aí falaram comigo e com Luiz [estagiário do Museu do Homem do Nordeste] sobre a proposta, a gente aceitou a ideia e dissemos “ah, vamos favor um projeto de alguma coisa que pudesse ser da sala de convivência, né?”. A gente pensou e maturou a ideia de ser um fundo do mar e começou a pegar elementos que se encaixassem naquela sala como uma sala realmente de descanso, uma sala de convivência para o pessoal no almoço. Então, a gente foi pegando elementos que pensávamos, estudou uma paleta de cores e construiu o desenho dessa forma, pensando em quais representações iríamos colocar: uma tartaruga, uns peixes... Foi mais uma ideia de ambientação, não foi muito um grafite com proposta de pensar questões políticas... Que é o que eu prefiro, né, mas enfim [risos]. A gente fez o projeto e já começou no sábado mesmo, foi muito rápido.

Desde quando você faz grafite?

Então, grafite faz uns quatro anos, desenho desde “pirralha” e, atualmente, tô estudando ilustração e vou começar a estudar mais pintura. Eu já faço, só que eu tô estudando mais agora, porque eu me formei, aí... 

E o que lhe levou ao grafite, foi isso de desenhar desde pequeno?

A ideia é a seguinte: desde “pirralha” eu viajo em apresentação imagética com cor, com personagem, que cria histórias. Então, apesar de fazer grafite, eu gosto muito de ilustração, animação, tudo que tem a ver com a ideia gráfica da construção do desenho, do cenário, de pensar realmente um trabalho. Eu viajo, eu acho massa. Tanto é que eu tenho alguns projetos de animação e algumas outras coisas que eu tô a fim de realizar em 2017, porque, justamente, eu acho que não só o grafite, não só a ilustração ou não só a história, não só as ciências sociais, completam a pessoa, a pessoa está sempre procurando outras ideias para estudar a partir do que você gosta e do que você está a fim. Eu gosto de grafite porque eu me divirto, primeiramente. Aliás, eu gosto do meu trabalho porque eu me divirto. No Museu [do Homem do Nordeste] eu me divirto. A primeira coisa que eu penso é nisso, se divertir trabalhando, fazer uma coisa que é massa, que eu realmente curto. Então, a ideia vem disso aí, de realmente curtir o que você faz. Agora, claro, tem alguns trabalhos que você pensa de forma mais política, outros nem tanto. Grafite e ilustração são meio que um hobby que eu levo a sério na perspectiva do futuro. Aliás, minha vida eu levo como um hobby [risos].

Você diria que seu grafite é mais político ou é mais você se expressando?

Atualmente, como eu tô trabalhando muito e estudando muito, eu tenho vários projetos que eu tô pré-produzindo em casa. Inclusive uma série que eu tô querendo expor próximo ano que discute a ideia da ação do tempo sobre as coisas, principalmente sobre imobiliário, carro... É uma série de pinturas que eu tô fazendo e eu quero que saia até a metade do ano. Muita pesquisa e tal, eu tô estudando isso. Eu tô acabando de fazer um curso de ilustração, vou começar pintura, mas eu já entendi um pouco, tô querendo entender melhor. Mas, principalmente, uma coisa que eu mais me identifico é uma coisa voltada ao trabalho mais pesado, digamos assim. 

E em quem você se inspira?

Ah, tem milhares de pessoas. Daqui do Brasil tem muita gente, eu curto muito Paulo Ito, de São Paulo; Rio de Janeiro tem uma rapaziada massa; a galera do MOF [Meeting of Favela], que é o maior evento de grafite comunitário do mundo; [Thiago] Tarm é um que também é massa lá do Rio... Sei lá, se for descer tem muita gente, também. Paraíba, Chico [Shiko], ilustração. Ceará, a galera do Acidum. Fora do Brasil também tem muita gente, tem uma galera da Europa mesmo que está em outra noção de grafite já. Tem um da Itália, NemO’s... Tem muita gente, sei lá! [risos]

Você assina com seu próprio nome ou você criou uma assinatura?

Na verdade, eu assino um LN só, não coloco meu nome todo, só as iniciais.

Onde você grafita normalmente? Rua, empresa, residência...

Eu já fiz muito grafite em escola, eu comecei mesmo, principalmente, em projetos em escolas. Eu e meu amigo íamos em escolas e fazíamos vários projetos, principalmente da prefeitura de Olinda, Paulista... A gente sempre fez vários trabalhos com menininhos. A escola chegava com o material e a gente sempre fazia vários projetos lá. Recife, algumas vezes... Eu pinto mais pro lado de Olinda, Paulista. Atualmente eu tô nesse processo, trabalhando muito, então não dá mais. 

Mas você pinta em Olinda, Paulista, nas ruas também ou só nas escolas?

Nas ruas. Já pintei muito em escola, mas hoje em dia eu não tenho tempo de parar e realmente fazer um projeto. Atualmente, eu já tenho outros projetos, eu quero começar a dar aula de ilustração também, relacionada ao que eu trabalho, que é acervo de museu. É outra ideia.

Como você descreve seu estilo e a evolução do seu trabalho? O que é que você tenta passar com sua arte?

Vai depender muito do ambiente, da situação, da forma de ver as coisas. A gente não está isolado no mundo, então acaba sendo tocado e retocado muitas vezes, em vários momentos. E isso influencia diretamente, muitas vezes você vê um trabalho e tem muita linguagem para o artista repassar. Vejo várias pessoas também que não são do grafite, mas têm várias dessas ideias, de o trabalho tocar. Muitas vezes você começa a entender melhor quando você está realmente discutindo, dialogando sobre várias outras questões. Por exemplo, a gente trabalha com exposição de arte contemporânea, tem muita informação dentro de uma exposição que a gente só vai conhecer realmente quando conhece a história. Os trabalhos muitas vezes têm muita história para contar, que é muito importante para você o entender. Pode não fazer parte do seu contexto, por isso você pode não entender. Vai depender muito desses contextos que a gente está. 

O que diferencia seu trabalho dos outros?

[risos] Você se entender no mundo é complicado... Atualmente, eu tô estudando muito uma estética que eu gosto mais. Não é a noção de grafite voltada para letra, bomb, mas sim voltada para a ideia de criar contextos, criar personagens, situações e narrativas através do teu trabalho. Atualmente, eu tô meio nessa transição, passando para isso. Por isso que eu tô pensando em trabalhar mais com painel: eu fiz um em Itapuama, há uns dois meses atrás. Passei dois dias internado na praia pintando em uma avenida abandonada. Esse trabalho foi mais uma coisa de brincadeira, de descontração. Fui eu e mais dois amigos, a gente criou três personagens praieiros, aqueles três macacos [aqui se refere aos Três Macacos Sábios, que cobrem, individualmente, a boca, os olhos e os ouvidos], só que todos eles estavam de camisa florida e com aqueles óculos 3D de praia. Eu tô muito nessa transição, pensando muito nessa ideia de criar contextos e de pensar em trabalhos de murais. Viajo em murais, acho massa. Inclusive é o que eu acompanho, hoje, no mundo e de referência também, todo dia eu vejo. Prefiro passar três dias pintando assim, conversar sobre o trabalho. Minha viagem é essa. 

Você acha que a vida como grafiteiro atrapalha a vida profissional e pessoal ou você consegue interligar tudo?

Eu trabalho com educação desde antes de começar na faculdade, em 2011: já dava aula, já fazia algumas coisas. A vida de educador veio primeiro do que a própria vida de começar a grafitar. Eu comecei a grafitar e pouco tempo depois eu entrei na faculdade. Eu acho que acompanhou essa transição da universidade, da experiência que se passa, assim como a mudança de pensamento que eu acho que meu curso me trouxe. Algumas temporadas eu realmente passei muito tempo sem pintar, mas estava produzindo ilustração, vendo roteiro de animação... Tem alguns trabalhos que eu vou fazendo junto com a galera também. E eu acho que eu sou muito assim: às vezes eu agarro o mundo com as pernas, mas eu sei que muitos trabalhos valem a pena ter contribuição.  Eu não consigo também ficar só parado, pensando no meu trabalho. Eu vou associando o que eu faço aos meus hobbies, ao que eu gosto de fazer, então eu acho que está tudo certo, tudo em um bolo só, no final das contas.

Muita gente diz que o grafite está sendo mais bem visto ultimamente, que antes tinha muito preconceito. Você concorda com essa opinião? 

Com certeza, o mundo é outro. A gente está numa sociedade totalmente de informação. É o seguinte: existem grupos que definem o que é certo ou errado na sociedade, e o grafite veio de um movimento totalmente periférico, junto com o piche, e, naquele contexto, não era aceito. Só que a diferença do grafite para uma obra dentro de um museu é que você chega e faz. A efemeridade e o desapego à obra são coisas que nunca antes se chegou na arte. O desapego, principalmente com a ideia do grafite, é totalmente diferente do que se entende sobre obra de arte, preservação. Tanto faz estar aqui hoje como chegar alguém e pintar amanhã. Existe um respeito também: em lugar onde tem piche, tem grafite, o pessoal não pinta por cima. Existe esse respeito e essa ideia de "não, é o trabalho do cara". Normalmente as pessoas respeitam. Inclusive é engraçado, né? Eu tinha feito um trabalho perto da minha casa e quando eu passei tinham três caras pintando. Quando eles me viram disseram “eita, foi o cara que pediu” e eu disse “nada, esse aí já cumpriu o ciclo dele”. A ideia é essa. O trabalho tem seu ciclo, eu acho. É claro que as pessoas levam para outro patamar: Bansky é um cara que a galera está tirando pedaço de muro dele e levando para dentro do museu, levando para galeria, vendendo por um milhão... O cara fez um trabalho ali, o outro recortou a parede e levou. É “facinho”. A galera está em outras ideias. Só que o grafite tem essa ideia do “chegou, fez, quem passou viu, quem não passou não viu, vai ver depois”. Mesmo você não gostando, você sai da sua casa e dá de frente a um grafite, a um piche. 

O grafite também passa por outro momento, economicamente: as pessoas entenderam que podem ganhar dinheiro com ele. A economia tem tudo a ver com aceitabilidade ou não, as pessoas que dizem que aquilo ali é bacana ou não vão dizer que é bom porque estão ganhando dinheiro também. Hoje a gente tem bienal de grafite, do mundo todo. Tem uma cidade na Alemanha que as empresas de tinta se juntaram para promover um evento que vai rolar em 2018, e eles tão fazendo [grafite] em vários lugares da cidade, já tem mais de 24 prédios. Quando chegar em 2018, o pessoal ganha um ciclo turístico só de grafite, construído em outra noção já. Então, economicamente, leva a almejar outras coisas, por isso que a aceitabilidade também vem da ideia econômica, porque, realmente, as pessoas começaram a colocar [o grafite] em lugares que as belas artes estão também. 

Você tem alguma dica para quem está começando agora?

Tenho, com certeza: veja referências. Para qualquer pessoa, a primeira coisa que eu digo é: o mínimo que você tem de obrigação é conhecer todo mundo da sua área, porque aí você começa a se entender. Você conhecer realmente suas referências, pessoas que não são diretamente ligadas à sua área, mas que auxiliam no seu trabalho, eu acho que é uma obrigação. Fora isso é você se jogar. 

Artista por trás das paredes da nova sala de convivência da Fundação Joaquim Nabuco, que retratam, em grafite, o fundo do mar, Luan Nascimento é grafiteiro, graduado em história e monitor do Museu do Homem do Nordeste. Luan, entre uma correria e outra, da sua oficina a nova exposição do muHNE, concorda em sentar por alguns minutos para conceder essa entrevista. Explicando sobre a reforma pela qual a oficina está passando — oficina esta que também será palco de um de seus futuros projetos de grafite —, pega dois bancos e posiciona-os perto da mesa, colocando a lata de tinta que vinha carregando sobre ela, e, ainda segurando um pincel, recosta no banco para falar um pouco mais sobre sua arte. Não larga o pincel durante toda a conversa.

A seguir, a entrevista completa.

 

De quem foi a ideia de grafitar a nova sala de convivência?

É o seguinte, o pessoal estava pensando e conversando que queriam uma sala de convivência, só que eles não sabiam mais ou menos como ia ser, se ia ter jogo, se não ia... Eles começaram a pensar no projeto e estavam pensando em pintar em três passos diferentes, três cores diferentes, que iam ser os ambientes. O do canto, onde tem uma prancha, vai ser a parte que tem a televisão. No meio, ia ser uma parte de leitura. No outro canto, uma parte de jogos. A princípio se pensou assim. Depois foram mudando, mudando, mudando, mas queriam alguém para pintar, aí falaram comigo e com Luiz [estagiário do Museu do Homem do Nordeste] sobre a proposta, a gente aceitou a ideia e dissemos “ah, vamos favor um projeto de alguma coisa que pudesse ser da sala de convivência, né?”. A gente pensou e maturou a ideia de ser um fundo do mar e começou a pegar elementos que se encaixassem naquela sala como uma sala realmente de descanso, uma sala de convivência para o pessoal no almoço. Então, a gente foi pegando elementos que pensávamos, estudou uma paleta de cores e construiu o desenho dessa forma, pensando em quais representações iríamos colocar: uma tartaruga, uns peixes... Foi mais uma ideia de ambientação, não foi muito um grafite com proposta de pensar questões políticas... Que é o que eu prefiro, né, mas enfim [risos]. A gente fez o projeto e já começou no sábado mesmo, foi muito rápido.

Desde quando você faz grafite?

Então, grafite faz uns quatro anos, desenho desde “pirralha” e, atualmente, tô estudando ilustração e vou começar a estudar mais pintura. Eu já faço, só que eu tô estudando mais agora, porque eu me formei, aí...

E o que lhe levou ao grafite, foi isso de desenhar desde pequeno?

A ideia é a seguinte: desde “pirralha” eu viajo em apresentação imagética com cor, com personagem, que cria histórias. Então, apesar de fazer grafite, eu gosto muito de ilustração, animação, tudo que tem a ver com a ideia gráfica da construção do desenho, do cenário, de pensar realmente um trabalho. Eu viajo, eu acho massa. Tanto é que eu tenho alguns projetos de animação e algumas outras coisas que eu tô a fim de realizar em 2017, porque, justamente, eu acho que não só o grafite, não só a ilustração ou não só a história, não só as ciências sociais, completam a pessoa, a pessoa está sempre procurando outras ideias para estudar a partir do que você gosta e do que você está a fim. Eu gosto de grafite porque eu me divirto, primeiramente. Aliás, eu gosto do meu trabalho porque eu me divirto. No Museu [do Homem do Nordeste] eu me divirto. A primeira coisa que eu penso é nisso, se divertir trabalhando, fazer uma coisa que é massa, que eu realmente curto. Então, a ideia vem disso aí, de realmente curtir o que você faz. Agora, claro, tem alguns trabalhos que você pensa de forma mais política, outros nem tanto. Grafite e ilustração são meio que um hobby que eu levo a sério na perspectiva do futuro. Aliás, minha vida eu levo como um hobby [risos].

Você diria que seu grafite é mais político ou é mais você se expressando?

Atualmente, como eu tô trabalhando muito e estudando muito, eu tenho vários projetos que eu tô pré-produzindo em casa. Inclusive uma série que eu tô querendo expor próximo ano que discute a ideia da ação do tempo sobre as coisas, principalmente sobre imobiliário, carro... É uma série de pinturas que eu tô fazendo e eu quero que saia até a metade do ano. Muita pesquisa e tal, eu tô estudando isso. Eu tô acabando de fazer um curso de ilustração, vou começar pintura, mas eu já entendi um pouco, tô querendo entender melhor. Mas, principalmente, uma coisa que eu mais me identifico é uma coisa voltada ao trabalho mais pesado, digamos assim.

E em quem você se inspira?

Ah, tem milhares de pessoas. Daqui do Brasil tem muita gente, eu curto muito Paulo Ito, de São Paulo; Rio de Janeiro tem uma rapaziada massa; a galera do MOF [Meeting of Favela], que é o maior evento de grafite comunitário do mundo; [Thiago] Tarm é um que também é massa lá do Rio... Sei lá, se for descer tem muita gente, também. Paraíba, Chico [Shiko], ilustração. Ceará, a galera do Acidum. Fora do Brasil também tem muita gente, tem uma galera da Europa mesmo que está em outra noção de grafite já. Tem um da Itália, NemO’s... Tem muita gente, sei lá! [risos]

Você assina com seu próprio nome ou você criou uma assinatura?

Na verdade, eu assino um LN só, não coloco meu nome todo, só as iniciais.

Onde você grafita normalmente? Rua, empresa, residência...

Eu já fiz muito grafite em escola, eu comecei mesmo, principalmente, em projetos em escolas. Eu e meu amigo íamos em escolas e fazíamos vários projetos, principalmente da prefeitura de Olinda, Paulista... A gente sempre fez vários trabalhos com menininhos. A escola chegava com o material e a gente sempre fazia vários projetos lá. Recife, algumas vezes... Eu pinto mais pro lado de Olinda, Paulista. Atualmente eu tô nesse processo, trabalhando muito, então não dá mais.

Mas você pinta em Olinda, Paulista, nas ruas também ou só nas escolas?

Nas ruas. Já pintei muito em escola, mas hoje em dia eu não tenho tempo de parar e realmente fazer um projeto. Atualmente, eu já tenho outros projetos, eu quero começar a dar aula de ilustração também, relacionada ao que eu trabalho, que é acervo de museu. É outra ideia.

Como você descreve seu estilo e a evolução do seu trabalho? O que é que você tenta passar com sua arte?

Vai depender muito do ambiente, da situação, da forma de ver as coisas. A gente não está isolado no mundo, então acaba sendo tocado e retocado muitas vezes, em vários momentos. E isso influencia diretamente, muitas vezes você vê um trabalho e tem muita linguagem para o artista repassar. Vejo várias pessoas também que não são do grafite, mas têm várias dessas ideias, de o trabalho tocar. Muitas vezes você começa a entender melhor quando você está realmente discutindo, dialogando sobre várias outras questões. Por exemplo, a gente trabalha com exposição de arte contemporânea, tem muita informação dentro de uma exposição que a gente só vai conhecer realmente quando conhece a história. Os trabalhos muitas vezes têm muita história para contar, que é muito importante para você o entender. Pode não fazer parte do seu contexto, por isso você pode não entender. Vai depender muito desses contextos que a gente está.

O que diferencia seu trabalho dos outros?

[risos] Você se entender no mundo é complicado... Atualmente, eu tô estudando muito uma estética que eu gosto mais. Não é a noção de grafite voltada para letra, bomb, mas sim voltada para a ideia de criar contextos, criar personagens, situações e narrativas através do teu trabalho. Atualmente, eu tô meio nessa transição, passando para isso. Por isso que eu tô pensando em trabalhar mais com painel: eu fiz um em Itapuama, há uns dois meses atrás. Passei dois dias internado na praia pintando em uma avenida abandonada. Esse trabalho foi mais uma coisa de brincadeira, de descontração. Fui eu e mais dois amigos, a gente criou três personagens praieiros, aqueles três macacos [aqui se refere aos Três Macacos Sábios, que cobrem, individualmente, a boca, os olhos e os ouvidos], só que todos eles estavam de camisa florida e com aqueles óculos 3D de praia. Eu tô muito nessa transição, pensando muito nessa ideia de criar contextos e de pensar em trabalhos de murais. Viajo em murais, acho massa. Inclusive é o que eu acompanho, hoje, no mundo e de referência também, todo dia eu vejo. Prefiro passar três dias pintando assim, conversar sobre o trabalho. Minha viagem é essa.

Você acha que a vida como grafiteiro atrapalha a vida profissional e pessoal ou você consegue interligar tudo?

Eu trabalho com educação desde antes de começar na faculdade, em 2011: já dava aula, já fazia algumas coisas. A vida de educador veio primeiro do que a própria vida de começar a grafitar. Eu comecei a grafitar e pouco tempo depois eu entrei na faculdade. Eu acho que acompanhou essa transição da universidade, da experiência que se passa, assim como a mudança de pensamento que eu acho que meu curso me trouxe. Algumas temporadas eu realmente passei muito tempo sem pintar, mas estava produzindo ilustração, vendo roteiro de animação... Tem alguns trabalhos que eu vou fazendo junto com a galera também. E eu acho que eu sou muito assim: às vezes eu agarro o mundo com as pernas, mas eu sei que muitos trabalhos valem a pena ter contribuição.  Eu não consigo também ficar só parado, pensando no meu trabalho. Eu vou associando o que eu faço aos meus hobbies, ao que eu gosto de fazer, então eu acho que está tudo certo, tudo em um bolo só, no final das contas.

Muita gente diz que o grafite está sendo mais bem visto ultimamente, que antes tinha muito preconceito. Você concorda com essa opinião?

Com certeza, o mundo é outro. A gente está numa sociedade totalmente de informação. É o seguinte: existem grupos que definem o que é certo ou errado na sociedade, e o grafite veio de um movimento totalmente periférico, junto com o piche, e, naquele contexto, não era aceito. Só que a diferença do grafite para uma obra dentro de um museu é que você chega e faz. A efemeridade e o desapego à obra são coisas que nunca antes se chegou na arte. O desapego, principalmente com a ideia do grafite, é totalmente diferente do que se entende sobre obra de arte, preservação. Tanto faz estar aqui hoje como chegar alguém e pintar amanhã. Existe um respeito também: em lugar onde tem piche, tem grafite, o pessoal não pinta por cima. Existe esse respeito e essa ideia de "não, é o trabalho do cara". Normalmente as pessoas respeitam. Inclusive é engraçado, né? Eu tinha feito um trabalho perto da minha casa e quando eu passei tinham três caras pintando. Quando eles me viram disseram “eita, foi o cara que pediu” e eu disse “nada, esse aí já cumpriu o ciclo dele”. A ideia é essa. O trabalho tem seu ciclo, eu acho. É claro que as pessoas levam para outro patamar: Bansky é um cara que a galera está tirando pedaço de muro dele e levando para dentro do museu, levando para galeria, vendendo por um milhão... O cara fez um trabalho ali, o outro recortou a parede e levou. É “facinho”. A galera está em outras ideias. Só que o grafite tem essa ideia do “chegou, fez, quem passou viu, quem não passou não viu, vai ver depois”. Mesmo você não gostando, você sai da sua casa e dá de frente a um grafite, a um piche.

O grafite também passa por outro momento, economicamente: as pessoas entenderam que podem ganhar dinheiro com ele. A economia tem tudo a ver com aceitabilidade ou não, as pessoas que dizem que aquilo ali é bacana ou não vão dizer que é bom porque estão ganhando dinheiro também. Hoje a gente tem bienal de grafite, do mundo todo. Tem uma cidade na Alemanha que as empresas de tinta se juntaram para promover um evento que vai rolar em 2018, e eles tão fazendo [grafite] em vários lugares da cidade, já tem mais de 24 prédios. Quando chegar em 2018, o pessoal ganha um ciclo turístico só de grafite, construído em outra noção já. Então, economicamente, leva a almejar outras coisas, por isso que a aceitabilidade também vem da ideia econômica, porque, realmente, as pessoas começaram a colocar [o grafite] em lugares que as belas artes estão também.

Você tem alguma dica para quem está começando agora?

Tenho, com certeza: veja referências. Para qualquer pessoa, a primeira coisa que eu digo é: o mínimo que você tem de obrigação é conhecer todo mundo da sua área, porque aí você começa a se entender. Você conhecer realmente suas referências, pessoas que não são diretamente ligadas à sua área, mas que auxiliam no seu trabalho, eu acho que é uma obrigação. Fora isso é você se jogar. 

Entrevista: Thiago Martins de Melo, da exposição "Bárbara Balaclava"

Por Marcela Lins                 

As alegorias perversas e viscerais de Thiago Martins de Melo, artista maranhense radicado em São Paulo, aportaram na Fundação Joaquim Nabuco nos últimos meses de setembro e outubro. A obra “bárbara balaclava”, uma potente animação que apresenta uma espécie de compêndio da história do Brasil, anuncia a trajetória de uma personagem (seria uma heroína?) - uma narrativa que não obedece a qualquer tipo de rigor estético ou cronológico e que aponta uma opressão vindoura de tempos passados, mas que se repete e se faz presente no aqui e no hoje.

Veja abaixo a conversa do artista com a equipe do muHNE.

Suas pinturas, mesmo que estáticas, são muito narrativas. Posteriormente você começou a inserir TVs em seus trabalhos. Por que a opção de fazer uma obra estritamente em animação?

Meu trabalho é muito narrativo, sempre foi. Até os títulos eram muito grandes porque tinham uma narrativa muito clara. E eu comecei a ter interesse pelas imagens em movimento, como uma nova camada de narração. Como se fosse mais uma expansão dessa narrativa saindo desse contexto físico bidimensional pra outra situação. Então quando eu comecei a fazer isso, comecei a injetar TVs nas telas. Comecei a fazer várias animações, como dois monitores de TV em uma pintura grande... E aquilo começou a crescer tanto que várias das cenas desse filme foram usadas em pinturas. Começou um pouco assim, como experimento. Bárbara Balaclava começou como experimento e depois se tornou algo muito concreto.

E minha ideia foi sempre fazer uma coisa meio tosca, uma técnica urgente. Muitas imagens, desenhos, pinturas. Você vê que a técnica muda o tempo inteiro. Vai de tinta a óleo a caneta, porque é uma urgência mesmo. É algo feito por puro desejo. Não foi uma técnica tradicional. Não existe uma grande proposta estética. Ele é meio provocador, não deixa teu olho se acostumar. O que tem de sofisticado é o som. Montar o som foi o mais difícil. Ele tem o papel de dar força à imagem, de dar profundidade. Torna o filme mais “palpável”.

É seu primeiro trabalho estritamente em vídeo?

É a primeira vez que isso se dá. Começou como algo que estava se construindo de uma necessidade minha de querer contar algumas histórias que já estavam ali. O que aconteceu é que aquilo se transformou numa metanarrativa.  Um mesmo personagem que seria ‘selvagem’, que estaria a margem desse universo neoliberal. Comunidades não vivem nessa economia, que não estão a par desse sistema econômico e que são consideradas ‘bárbaras’. Na verdade é uma maneira de se ver um mundo que não aceita esse tipo de civilidade exterior.

Quando a obra foi concluída? Como você enxerga seu trabalho nesta conjuntura em que vivemos?

Em fevereiro deste ano [2016]. É algo que acontece o tempo todo, desapropriação de terra, genocídio indígena...  Me inspirei, por exemplo, no caso da aldeia Cajueiro, Maranhão.

Para este trabalho?

Também. Fiz um trabalho com o povo Gamela [povos indígenas do Maranhão] e foi mais ou menos isso... Fiquei uns dias com eles e era isso: o pessoal passava de caminhonete dando tiro para o lado dos indígenas. Então esse tipo de situação que a gente tá passando agora mesmo, no filme, é muito comum. E tá cada vez pior, porque o congresso nacional agora está aparelhado para combater qualquer iniciativa mais à esquerda. Estão a serviço de um projeto conservador, liberal. É um momento muito perigoso.

E é um momento de tanta falta de leitura de mundo. As pessoas não interpretam mais nada. É mais fácil ser intransigente que tentar entender o outro. E isso interfere em tudo: na maneira com a gente tá escrevendo um texto, na maneira como a gente tá produzindo, nas relações humanas...

Eu sempre gostei dessa coisa da narrativa. Então eu acho até que o momento agora é propicio. Com essa desconstrução do país... um Brasil que voltou a negar a si mesmo, que almeja ser o que nunca foi. Levi Strauss dizia que o Brasil saiu da barbárie para a decadência sem passar pela civilização. Esses decadentes são bárbaros. Eles continuam com o mesmo método: de escravismo, de genocídio indígena, de xenofobia, de ódio ao trabalhados. Ódio ao que nós somos.

E quando eu digo ‘bárbara’ no título do trabalho não é pejorativo. Na verdade é assumir como o mundo ocidental pensa qualquer crítica, qualquer comunidade, qualquer meio de vida “fora”. Hoje, se você não tem um cartão de crédito, você é descartável.  Mas é aquela coisa que dizia o subcomandante Marcos, depois Galeano, “outros mundos são possíveis”, né?

O Zapatismo soa como uma referência...

Eu estou doido para ir lá. Ano passado teve o compARTE... Eu estava lá em Oaxaca quando estourou a coisa lá dos maestros, dos professores... O negócio tá bruto.

A coisa tá muito bruta. Essa onda do conservadorismo tá forte no mundo todo. Então esse filme acabou sendo feito por uma urgência mesmo. Sabe esse clichê que se diz que uma obra se faz só? Que a pintura é que toma o seu próprio caminho... É mais ou menos o que aconteceu.

Há muita violência e, ao mesmo tempo, muita sexualidade. Você vê alguma relação da tua obra com o trabalho de Georges Bataille?

Engraçado, você é a segunda pessoa a falar isso. É que Georges Bataille, em A História do Olho, tem uma coisa de se perder em um universo fantástico, cruel, perverso e muito simbólico. Essas imagens tem um poder tão forte que elas rompem com limite daquilo que a gente tá falando e acabam entrando no imaginário de muita gente. É mais ou menos como eu vejo esse filme. Muitas imagens que têm nesse filme tocam muita gente. Fazem as pessoas acessarem outras coisas.

E essa maneira de ver, da sexualidade como expressão mesmo... São imagens que são simbólicas, alegorias que se repetem. Maneiras de ler de modo inconsciente fórmulas ou entendimento que são acessados não por uma linguagem verbal, mas por uma linguagem visual.

E o uso do tarô?

O tarô foi Viviane, minha ex-esposa. Eu sempre fui fascinado pelo tarô. Muitas pinturas minhas têm elementos do tarô, como o rei de espadas, o mago... Eu acho que o tarô é um desses sistemas que o mundo tem de se ler uma trajetória. Ele prevê toda uma jornada espiritual, uma jornada humana existencial que tá aí, que é possível de ser acessada. E Viviane jogou um tarô desse filme...

E o tarô acaba funcionando como uma espécie de chave de leitura do filme. Uma pessoa pode pegar esse tarô e interpretar esse personagem por meio desse jogo. Começa com o mundo, vem a Anansi, a aranha que é dona da história do mundo contando a história da Amazônia. Então tem essa relação. Se você se perde na história, tem a carta de tarô pra te guiar.

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