
"A descrição fenomenológica da sociedade do açúcar foi feita por Gilberto Freyre utilizando o ensaio científico, a documentação histórica e a literatura, mas, ao mesmo tempo, havia visualismo forte que, na oportunidade do "Casa Grande & Senzala", se traduzia nas fotografias dos Wanderleys do Nordeste. Esse mundo visual, retido na memória do sociólogo, agora é expresso em retratos, paisagens, situações sociais e flagrantes de bailes e vida doméstica, como se grávido fixador tivesse necessidade de alicerçar o tema defendido com a imagem deslumbrada. Poder-se-á escrever um ensaio sobre a metafrívola proustiana, mas só Proust era capaz de elaborar sua imagística. A imagística do mundo de Pernambuco ficou soterrada debaixo da literatura interpretativa de Gilberto. Agora esse sótão visual de Gilberto é escancarado e as imagens irrompem tortas, ingênuas, mas autênticas. Penso numa reedição das obras de Gilberto ilustradas por esta imagística agora evaporada, depois de tanto tempo retida".
Francisco Luiz de Almeida Salles
Gilberto Freyre é um dos maiores escritores brasileiros de todos os
tempos. Sua obra tem expressão internacional. Possui e domina dois
instrumentos sem os quais não há escritor: estilo
inconfundível e visão original do mundo, dos seres, das coisas,
da condição humana. Com ambos, ele, ainda moço,
começou a revelar, em profundidade, um Brasil que praticamente
ninguém conhecia: aquele cuja alma subterrânea contém os
até então irrevelados arquétipos do original estilo
brasileiro de ser e de existir. E o vem revelando até hoje num
esforço de lucidez e de empatia criadora que mereceu, e merece, os
aplausos de grandes nomes do pensamento contemporâneo.
O fato de Gilberto ter-se dedicado à pintura em anos recentes não surpreende os que lhe conhecem a longa e fecunda obra literária. Pode-se dizer que, ao lado da poesia, a pintura é um dos valores mais marcantes do seu estilo literário. Sob certo aspecto, ele escreve pintando. Pintando num estilo que é a suma das cores, das formas e das massas dos trópicos brasileiros - principalmente do que há de vital e de sensual neles. Vale dizer: criando, na pintura, um Brasil que sobrevive aos acidentes didáticos de escolas e dos ismos conhecidos.
Osmar Pimentel
Para definir a pintura de Gilberto Freyre, teríamos que penetrar
no mundo interior que Gilberto enxergava com a alma. Uma arte para ser
interpretada e sentida por aqueles que, como o sociólogo de "Casa
Grande & Senzala", "Nordeste", "Sobrados e Mocambos",
compreendem: suas telas refletem reminiscências que instigam a sua
imaginação e afloram à sua lembrança. Se o mestre
de Apipucos considera proustiana a sua pintura, recorramos ao próprio
Proust: "les jours sont peut être égaux pour une horloge, mais
pas pour un homme".
Napoleão de Carvalho
Gilberto Freyre, autor de uma pintura magnífica
Quando Gilberto desenha um menino com chapéu de palha de abas largas, olhando para o Teatro Santa Isabel, me parece que deseja mostrar ser sua pintura uma expressão pura de sentimentos sem compromissos com regras e teorias de realidade visual em artes plásticas. No mistério das paisagens imaginárias e na magnífica interpretação da casa grande do Engenho Megahype - um Megahype cheio de saudades - Gilberto mostra em cores e formas sua grande sensibilidade e liberdade criadora já consagradas em toda sua obras de escritor.
Lula Cardoso Ayres
Gilberto Freyre, pintor
A aparição de Gilberto Freyre como pintor é e
não é uma surpresa. Não é surpresa para os que
conhecem o fato de ter ele começado a exprimir-se, quando menino,
não escrevendo - só aos 8 anos aprendeu a escrever: tinha horror
a livro e a escrita - porém desenhando e pintando. Ao tornar-se
escritor, não deixou de ser, latentemente, pintor. Sabemos que sua
expressão é pictórica: sensualmente pictórico,
até, o seu modo de escrever. Também é mais sugestivo do
descritivo. E ainda: é nada fotográfico e sim interpretativo e,
portanto, pessoal, personalíssimo. Como pintor ele segue o seu modo de
ser escritor: exprimi-se através de vários métodos e
não de um só. Não é folclórico nem
acadêmico.
Há sugestões de paisagens européias em alguns dos seus quadros, é verdade, mas os seus temas preferidos dizem respeito aos valores mais simbólicos da vida cultural nordestina, sobretudo de Pernambuco. As intenções interpretativas e de síntese do escritor se prolongam no pintor. Pintor essencialmente brasileiro e tropical. Distorcendo as figuras de maneira consciente, poderá ser considerado, por pessoas menos avisadas, um primitivo. Sendo anticonvencional, do mesmo modo poderá ser considerado inseguro e sem preciso domínio técnico. Tais coisas, porém, não devem ser confundidas com personalidade e originalidade. Alguns dos seus quadros, mesmo denotando, à primeira vista, alguma coisa de infantil e ingênuo, são reveladores de uma forma própria, particular, expressiva, brasileira, tropical, de interpretação plástica.
Renato Carneiro Campos
Gilberto Freyre, tão pintor quanto escritor
Não fui surpreendido pela notícia de que Gilberto Freyre desenhava e pintava. Já tinha visto suas caricaturas e algumas ilustrações em livros. Não foi novidade. Novidade e surpresa foi a idéia de se fazer uma exposição dos seus trabalhos. Bendita idéia. Agora, por obrigação, deve-se colocar na lista de artistas plásticos de Pernambuco mais um nome, um nome já feito e consagrado como escritor: Gilberto Freyre ( ou simplesmente Gil, como assina nas pinturas). Quem comprou um desses pequenos quadros, apenas para agradar, aparecer, ou ter em sua parede uma curiosidade, errou na intenção e acertou sem querer num grande prêmio. Gil mostra pela primeira vez os seus trabalhos com a desinibição de um mestre em exposição retrospectiva. São trabalhos executados a partir da década de 20 até os dias de hoje. No princípio, nas caricaturas principalmente, percebe-se apenas o desejo do escritor que se utilizava do desenho para documentar, guardar melhor um fato, um local ou pessoa. Depois não. Depois surge realmente o artista, o artista que coloca o escritor de lado e passa a andar só. Independente.
Wellington Virgolino
Gilberto Freyre como jovem caricaturista de vinte anos
"Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos" Albert Camus / Ele mesmo se retratou diante dos figurões. Eram figurões de verdade, desse tipo que ninguém deixaria indiferente e ele, Gilberto Freyre, não estava de forma alguma alheio à importância daqueles com os quais se defrontava. No entanto julgou-os a todos, sem que jamais alguém pudesse perceber qual a sua real intenção em registrar aquele gratuito desfilar de personagens. Não se tratava propriamente de caricaturas, mas de um gênero peculiar de anotações, com um tríplice sentido: fixar o sociológico, a psicologia do personagem, dosados de um certo humor satírico. Serviram mais tarde como reminiscências de caráter pessoal do próprio Gilberto Freyre, mas o que conta, o que pesa mesmo, é o fabuloso retrato do artista quando jovem que ele parecia ter arquivado e que agora voltará a público com redobrado interesse. Hoje, passados cincoenta anos, diante desses retratos, podemos imaginar o quanto o jovem Gilberto Freyre já se conhecia e se auto-retratava com perfeição. Da mesma forma, e com seu característico vigor, Pablo Picasso em ligeiros traços, desenhava seus hirsutos auto-retratos no Paris de 1900, desgrenhado e magérrimo perambulando pelas ruas da grande cidade ainda hostil para ele ou imobilizado nos cafés boêmios, conservava aquele mesmo ar, entre espantado e severo, de quem adivinhava o papel que viria a desempenhar como personagem central da grande revolução da arte moderna. A magreza e a baixa estatura do pintor, sempre rodeado de outros artistas, pintores ou escritores mais avantajados no porte, tinha um sentido expressivo, muito particular para Picasso daquela época, e desse fato soube tirar o máximo de proveito, como Napoleão, igualmente pequeno, obrigava os altíssimos, orgulhosos e louros príncipes da casa dos Hohenzollern a se curvarem diante dele, não por reverência, mas apenas para ouví-lo melhor o que dava afinal o mesmo resultado. Neste seu pequeno museu de recordações, Gilberto Freyre está sempre vestido de preto em seus encontros com alguns dos mais famosos intelectuais da época: com Rabindranath Tagore, com Amy Lowell, com Vachel Lindsay, com Antonio Torres, com Oliveira Lima. Escolhidos a dedo, todos enormes, gordos, pesados e apolíneos. Todos coloridos de tez e de roupagens, quer nos seus ambientes suntuosos ou apenas em lugares fortuitos. Por que o jovem escritor brasileiro está sempre de preto e se figura mais magro de que possivelmente deveria ser? Não só magro, como encolhido, diminuido, embora atento, duma atenção quase sardônica. Mas estou falando apenas do corpo desse estranho personagem, sem esquecer de lembrar a cabeça, principalmente o perfil adunco desse nosso herói que sempre mereceu do desenhista Gilberto Freyre cuidados particulares. No rosto concentrava-se uma série de intenções: toda sabedoria, poder descritivo, narrativo, ou melhor, analítico do autor.
Francisco Brennand
Sentido psicológico da pintura de Gilberto Freyre
O melhor apresentador das pinturas e desenhos de Gilberto Freyre seria o próprio Gilberto Freyre. Vendo suas caricaturas de juventude e suas pinturas recentes, pensei o quanto é importante para alguém que rabisque ou pinte, como profissional ou amador, a matéria de memória. É a reminiscência, a fixação de uma imagem ou de um "glimpse" eidético que comanda o passo do lapis ou da cor nessas aventuras não rotineiras do autor. A memória, mesmo a memória do imediatamente presente, aquela da corrente da consciência, estrutura os andaimes destas construções algumas vezes taquigráficas, descontínuas como sua própria matéria prima - o Tempo. Não se trata de questionar aqui ou acolá as possibilidades de uma qualidade artística. Isto importa pouco. Importa mais o exercício que o autor impõe de que reajamos à sua própria matéria e experiência sensível, de que façamos, frente a sua pintura, a reflexão e o contraponto à sua sensibilidade. Escritores costumam desenhar de maneira confessional ( e é o confessionalismo um fator dominante da literatura do século XX). Poderemos pressentir numa e noutra pintura de Gilberto Freyre uma pedra de toque realista, às vezes documental, que a memória trata de transformar em pedra filosofal, em avatares sensíveis, pois o seu confessionalismo não quer ficar restrito ao ângulo e à ótica sociológica. Importa muito o dado interpretativo, metalógico, além-descritivo.
João Câmara