NUCLEO DE ESTUDOS FREYRIANOS
"Através do existencial é que se procuraria o essencial do homem" Gilberto Freyre.
O Núcleo de Estudos Freyrianos (NEF) nasceu em 1993, resultado de Convênio celebrado entre a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP), Universidade de Pernambuco (UPE), Fundação Joaquim Nabuco (FUNDAJ) e Fundação Gilberto Freyre (FGF).
Objetivo
Estudar, conhecer, analisar, interpretar e divulgar, através de uma ampla cooperação interdisciplinar, a obra do escritor Gilberto Freyre, suas fontes, seus desdobramentos e sua influência no pensamento brasileiro e estrangeiro.
Metas
Congregando esforços para a fundamentação de estudos interuniversitário e interdisciplinar da obra freyriana e sob a responsabilidade das partes convenentes, o NEF propõe-se a:
a) promover encontros, seminários, mesas redondas, conferências, palestras e outras atividades afins sobre temas diretamente vinculados à obra de Gilberto Freyre;
b) mobilizar e envolver nas suas atividades, professores, pesquisadores, técnicos e estudantes, do Brasil e do estrangeiro, buscando assegurar a participação da comunidade acadêmica nas atividades do NÚCLEO;
c) estimular e propiciar a realização de estudos e a elaboração de trabalhos, inclusive dissertações e teses acadêmicas sobre a obra freyriana;
d) patrocinar, em regime de co-edição, a publicação de obras consideradas relevantes para a compreensão crítica da obra de Gilberto Freyre;
e) divulgar as atividades do NÚCLEO em meio a Universidades, entidades culturais e científicas, nacionais e estrangeiras, com elas mantendo intercâmbio regular;
f) promover a execução de projetos de pesquisa que tenham como objetivo a investigação interpretativa da obra freyriana.
Composição e modelo operacional
O Núcleo de Estudos Freyrianos é composto de um Conselho Diretor - formado pelos representantes de cada instituição convenente, com respectivos suplentes - e de uma Secretaria Executiva cujo funcionamento ficará, a cada 2 (dois) anos, sob a responsabilidade de uma das instituições convenentes, em sistema de rodízio. Cabe à instituição receptora o fornecimento da infra-estrutura física e do apoio administrativo necessário ao funcionamento e ao cumprimento dos encargos do NEF. Observado o sistema de rodízio, o Presidente do Conselho Diretor será o representante da Instituição responsável pelo biênio.
As Reuniões ocorrem bimestralmente - fórum mínimo de 4 (quatro) de seus membros (50 % + um), com propostas submetidas à votação e subsequente decisão a partir da concordância da maioria dos membros presentes. Compete ao Presidente o voto de qualidade em caso de empate.
Arquivo/Documentação
A Fundação Gilberto Freyre (FGF) receberá, a cada sucessão administrativa - bienalmente -, a documentação relativa ao respectivo período, formando, assim, o arquivo do NEF.
Instituição responsável pelo biênio 1994/1996
A Fundação Joaquim Nabuco é atualmente a instituição administradora do NEF, sendo sua Secretária Executiva a antropóloga Fátima Quintas.
O seu enderêço atual é:
Fundação Joaquim Nabuco
Instituto de Pesquisas Sociais
Departamento de Antropologia
Rua Dois Irmãos, 92 - Apipucos
52071-440 Recife - Pernambuco
Telefone: (081) 4415900 Ramais 280/281
Fax.: (081) 4414201
E-mail: nef @ fundaj.gov.br
Conselho Diretor
O seu Conselho Diretor tem a seguinte composição:
Presidente da Fundação Joaquim Nabuco
Fernando de Mello Freyre
Reitor da Universidade Federal de Pernambuco
Mozart Neves Ramos
Reitor da Universidade Católica de Pernambuco
Pe. Theodoro Paulo Severino Peters
Reitor da Universidade Federal Rural de Pernambuco
Emídio Cantidio de Oliveira Filho
Reitor da Universidade de Pernambuco
Júlio Fernando Pessoa Correira
Presidente da Fundação Gilberto Freyre
Madalena de Mello Freyre
Representantes
Fundação Joaquim Nabuco
Sebastião Vila Nova - Titular
João Hélio Mendonça - Suplente
Universidade Federal de Pernambuco
Margarida de Oliveira Cantarelli - Titular
Marcus Joaquim Maciel de Carvalho - Suplente
Universidade Católica de Pernambuco
Edijéce Martins Ferreira - Titular
Constança Pereira Sá - Suplente
Universidade Federal Rural de Pernambuco
Paulo Donizetti Siepierski - Titular
Élcia de Torres Bandeira - Suplente
Universidade de Pernambuco
Antônio Gildo Paes Galindo - Titular
Antônio Rafael de Meneses - Suplente
Fundação Gilberto Freyre
Josué Souto Maior Mussalém - Titular
Luiz Antônio Barreto - Suplente
Secretária Executiva
Fátima Quintas
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Do modo de ser Cientista
Fátima Quintas
Secretária Executiva do NEF
O tempo, a vida, o homem, as grandes preocupações gilbertianas. Sua obra, múltipla em todos os aspectos, aponta a essência do eu, individualmente coletivizado. Arredio aos ismos e às ortodoxias que reduzem o pensamento, o antropólogo-sociólogo desmistifica o elitismo da ciência, ofertando-lhe um trato específico que a identifica com a realidade social através de metáforas, de simbologias, de analogias enfaticamente humanas. Não minimiza o que há de implícito nos fatos explícitos e manifestos, ao contrário, tece as estruturas fundamentais das relações disseca o cenário em totalidade, anatomiza os segmentos sociais, e tudo, com mãos de cientista e olhos de homem, sem esquecer do choro, do riso, da alegria, da tristeza. os sentimentos são detectados com o máximo de agudeza, na ânsia de identificar o fenômeno com sensibilidade, com espírito de pesquisador e ternura de criança. Penetra no cotidiano, no doméstico, no privado para conseguir esboçar o perfil de uma paisagem de difícil captação, aquela que fica por trás de palco a esconder na alcova os mistérios da convivência: os mexericos da cozinha, os bate-papos da sala de jantar, o disse-me-disse da sinhá enciumada, as fantasias trelosas da criança, o dengo do gato a acompanhar as pegadas apressadas do patriarca, a mão terna da preta-velha acariciando os cabelos da sinha predileta, os segredos revelados à mucama, os bilhetes da menina-moça para o namorado proibido, as intrigas amorosas das fidalgas famílias, os encontros sigilosos, o caramachão florido a alimentar devaneios carnais, os sonhos sonhados na rede tão eroticamente aliciante, os desejos reprimidos de um orgasmo silencioso, a explosão sexual do patriarca em corpo de mulata, a saudade da pele amorenada da amante ardorosa, o sexo bolinado para receber os prazeres da carne, as experiências prematuras com moleque bastardo a traduzir amizades, por vezes, duradouras , o vai-e-vem do massapê consumindo o corpo da labuta do eito, o dia-a-dia repetido de uma vida íntima acostumada ao rame-rame da rotina... Gilberto dedilha, com carinho, as mais variadas nuanças da casa de modo a destrinchar os esconderijos orteguianas que facultam à ciência caráter flexível do humano.
As raízes que compõem a nossa história, o quão difícil extraí-las principalmente quando se realça a busca do tempo perdido! Esse tempo, tão bem resgatado por Gilberto, ele, um proustiano do social, à procura do ontem, do hoje e do amanhã, sempre voltado para o ir e vir da própria caminhada. O tempo reverenciado enquanto fusão de emoções de gente como a gente, compondo os ontens de nossa ancestralidade. Mergulha no passado para recolher informações, acatar idéias e descortinar o outro na sua inteireza. Extraordinariamente plural, apreende na face alheia a essencialidade do fato, o subjacente, o não revelado. Para isto não teme incursionar por novas veredas, e o faz com a maestria de quem ousa criar, repensar, reconstituir os arcanos da memória coletiva na força dos instantes percorridos. Adota metodologias ecléticas e se imbui de uma concepção de vida provocativa, ancorada em horizontes promissores, ao abraçar o ato diversificado, as variações do mesmo fato, a inconstância do indivíduo angustiado, efêmero, passageiro. Com base numa elaboração heterodoxa, constroi-se como ser ambivalente sem prescindir do intimismo inquietante, aquele capaz de propiciar o jogo coerente das contradições. Em perfeito enfrentamento diante de seus "entornos", alcança o domínio do complexo e reavalia as técnicas até então adotadas. Deste complexo suga metodologias enriquecedoras a partir da cumplicidade de uma ação dialógica entre o ser e o estar. Ama o transitório e o permanente, a aventura e a rotina, a Casa Grande e a Senzala, os sobrados e os mucambos, a negação e a afirmação. É contraditório na arte de perseguir o ser múltiplo, os eus compostos, as interfaces humanas não escapando das oposições cotidanamente. Esta característica parece acompanhá-lo firmemente, instigando-o a conjugar os momentos dentro de uma percepção globalizante de tempo tríbio, isto é, uma simultaneidade de tempos que se interligam na elaboração das circunstâncias. Um tempo situado numa dimensão de interconexão de épocas e vidas. O tempo do hoje. O tempo do ontem. O tempo do amanhã.
Os contrários dão unidade a sua seiva geradora e possibilitam a abstração do fenômeno com o máximo de clareza: uma fotografia realista que exige a pluralidade metodológica e a interdisciplinaridade, consubstanciando, desta forma, a ciência em alicerces frondosos. Faz desta confrontação o lastro "germinal" do conhecimento, para daí instar indagações que porventura venham a contribuir no melhor entendimento do homem. A interdisciplinaridade é eleita como instrumento de análise na construção do real; seria de todo impossível adotar uma atitude holística em face dos encontros e desencontros dos atores sociais, distanciado de uma rica posição existencial. Gilberto sabe, antes de tudo, se solidarizar com as alvoradas até divisar o desenho do rosto do outro sem omitir os sentimentos que recobrem o humano. Ciência feita de suor, de emoções, de lágrimas, de alegrias e desejos.
Ao se tentar perscrutar a obra de Gilberto Freyre torna-se inadmissível dissociá-la de seus princípios básicos que a fazem tão visceralmente transparente, quase diáfana na sua visão de mundo. Atual, atualíssima, retrata a interpretação fidedigna quando se atrela a variáveis contextualizadas, a priorizar o subjacente da ação individual. De um vis-à-vis sistemático, com ênfase no evidente e no não evidente emana teóricas sem, contudo, perder de vista a unidade literária, estilística, plástica. Para Gilberto, escrever representa o confessionário de sua alma. Ninguém melhor do que ele entrelaça os fenômeno em contextos binários aparentemente conflitantes: distingue o indivíduo, a coletividade, a solidão, a multidão, o privado, o público, o anônimo, o conhecido. Distingue o outro para distinguir-se a si mesmo.