Fundação Gilberto Freyre

Acervos

ARTE REGIONAL

UMA COLEÇÃO ENTRE COLEÇÕES

A Coleção Arte Regional tem destaque entre as demais, por tratar de campo vivencial e simbólico eminentemente popular, onde motivos arcaicos e tradicionais se relacionam com o novo, o moderno e o contemporâneo. A produção artesanal e artística popular regional expressa primordialmente o homem, como ele se vê, vê os outros, sua família e sua comunidade. Interpreta diferentes tecnologias, o cotidiano, a festa, entre outros rituais sociais que atribuem ao homem representado e àquele que realiza o objeto características de indivíduo, de membro da sociedade, de portador de um traço cultural do "éthos" que aufere o homem e seu meio.

Cada peça testemunha um momento especial, revelando matérias-primas retiradas da natureza e aproveitamento de produtos reciclados, reinventados graças ao permanente processo criativo e adaptativo do fazer popular.

Na Casa-Museu não há hierarquia de coleções, cada conjunto importa como uma expressão de usos, significados e de história refletindo autores, localidades e, assim cada objeto é revelador e autenticador de funções e manifestações estéticas.

Seguindo a visão humanista e plural de Gilberto Freyre, há leituras próprias para cada coleção, dando sentido especial aos conjuntos, e como ocupam os diferentes ambientes da casa-museu. Dessa maneira, a arte regional integra-se às demais coleções e se faz expressiva, apoiando a compreensão dos artistas locais.

Entre os pioneirismos de Gilberto Freyre está o de valorar e divulgar a arte regional como forma atestadora e comunicadora do homem situado no Trópico.

A arte regional dialoga com as demais categorias artísticas, ganhando conotações próprias a partir do temário, tecnologias, materiais e principalmente referenciando o homem construtor, detentor do saber fazer, saber se revelar e revelar o seu grupo.

Segundo Octávio Paz, a arte é um heroísmo espiritual. É capaz de trazer cor, textura, forma, aplicabilidade para a casa, o templo, a dança, o teatro, a roupa, os adornos corporais, os instrumentos musicais, entre muitos outros campos de manifestação e uso que atendam a momentos específicos da vida e dos muitos rituais que distinguem indivíduos e padrões culturais.

Pelas matérias-primas podem-se ler os contextos ecológicos, e a doação da natureza é relativizada na concepção e representação na ação interventora e transformadora do homem.

A promoção da arte regional foi defendida e acordada por Gilberto Freyre no seu Manifesto Regionalista

"Querer museus com panelas de barro, facas de ponta, cachimbo de matutos, sandálias de sertanejos, miniaturas de almajarras, figuras de cerâmica, bonecas de pano, carros-de-boi, e não apenas com relíquias de heróis de guerras e mártires de revoluções gloriosas (...)"

FREYRE, Gilberto.

Recife, MEC/Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais,

1976. p.62.

A visão museológica de Gilberto Freyre - aberta aos temas da região e numa concepção de patrimônio cultural sem fronteiras - tonifica suas posições diante da convencionalmente rotulada arte popular; é uma visão atual e que valoriza humanisticamente os objetos gerados por expressão artística ou por necessidade produtiva de sobrevivência.

Cada objeto retém uma história própria, manifestando ideais estéticos de um modelo ou soluções individuais, em técnica e forma - desejos e impressão do autor na sua obra.

As leituras estéticas de Gilberto Freyre neste campo da produção material regional são de apreciador e de analista que vêem e incluem os signos sociais e culturas unidos ao ecológico.

RAUL LODY

COLEÇÃO ETNOGRÁFICA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA

As coleções africana e afro-brasileira do acervo da Fundação Gilberto Freyre, abrigada na sede desta Fundação no Solar de Santo Antônio do Apipucos, no Recife, Pernambuco, reúne objetos originais de valor e testemunho etnográfico de culturas africanas, especialmente aquelas incluídas no macrogrupo etinolingüístico Banto, além de algumas réplicas de peças já consideradas "clássicas" do imaginário afro-negro como por exemplo a Cabeça de Ifé estudada por Frobenius nos primeiros anos deste século.

A coleção é basicamente formada por esculturas em ébano ou "pau preto" e marfim acrescentando-se peças em outras qualidades de madeira e em bronze.

São miniaturas de cenas sociais cotidianas em aldeias, são biótipos africanos, objetos de adorno corporal, conjunto em que destaco a máscara "Bakunda" ou "Makunda" dos Lunda-Bachokme.


Esculturas em marfim - Cena social

A quase totalidade desta coleção é procedente das viagens realizadas por Gilberto Freyre ao continente africano, em especial a Angola, num período que compreende de agosto de 1951 a fevereiro de 1952.

Com a reunião destes objetivos Gilberto não se propôs formar um acervo etinográfico sobre os diferentes grupos culturais visitados. São subconjuntos de peças afins que ilustram alguns aspectos de tecnologias, formas de trabalho e de lazer e outras de fundo social, hierárquico e religioso, atestando alguns aspectos daquele macrogrupo Banto e alguns casos de culturas alocadas na África Ocidental.


Esculturas em ébano ou "pau preto"

Por afinidades funcionais e também formais incluem-se neste estudo alguns objetos afro-brasileiros. Exus em ferro batido; pencas e pulseiras de balangandãs em prata e outros materiais - todos da Bahia. Esses objetos continuam simbolicamente a manter matrizes africanas como permanência de uma visualidade africana e outra já à moda afro-brasileira que concentrou significados absorvidos, mantidos, revistos, reinventados no Brasil, em especial na região Nordeste.

Com estas coleções o público poderá ver e entender parcela da variada produção material dos muitos grupos culturais da África e peças afro-baianas, sendo para o Estado de Pernambuco e para a região um dos conjuntos mais siginificativos de origem africana, bem como as afro-brasileiras.

A seleção dos objetos que fazem estas Coleções somente reafirma o olhar sensível de Gilberto que trouxe para Apipucos lembranças das suas visitas à África, trazendo também para o país um acervo de valor inestimável pelo que significa do fazer e do representar do homem africano, por sua vez tão próximo e colono co-formador da civilização brasileira.

RAUL LODY