
ÁGUA
POTÁVEL NO SEMI-ÁRIDO: escassez anunciada
Cacimba
escavada no leito de um riacho seco
- A principal preocupação dos governantes no Semi-árido
nordestino deverá estar voltada para a contaminação das
fontes de água potável, principalmente pelos dejetos animais e
pela decomposição da matéria orgânica.
Água
é um bem natural escasso no Nordeste semi-árido brasileiro. Essa
assertiva está intrinsecamente relacionada, de um lado, à baixa
pluviosidade e irregularidade das chuvas da região e, de outro, à
sua estrutura geológica (escudo cristalino) que não permite
acumulações satisfatórias de água no subsolo -
estima-se um volume de apenas 80 Km³ de água no cristalino
nordestino - interferindo, inclusive, no caráter de temporariedade dos
rios. Quando explorada em estrutura cristalina, a água apresenta, na
maioria das vezes, salinidade elevada - com teores de cloreto acima de 1000
mg/l - característica, essa, que a torna imprestável ao consumo
humano (a Organização Mundial de Saúde recomenda 250 mg/l
de cloreto nas águas para o abastecimento das populações).
Ações
governamentais têm sido estabelecidas no sentido de priorizar o acesso do
sertanejo à água, através do uso de rios (perenizados e
perenes), barreiros, açudes (pequenos, médios e grandes),
cisternas, poços (amazonas e cacimbas) e poços tubulares. De
acordo com a qualidade química das águas, existe uma
variação, em escala crescente, nos teores de sais nessas fontes
hídricas, obedecendo a seguinte ordenação: cisternas <
açudes e barreiros < rios (perenizados e perenes) < poços
(amazonas e cacimbas) < poços tubulares. Os teores de sais nas
águas (composição química e nível de
concentração dos sais) estão intimamente relacionados com
o tipo de rocha e de solo com os quais elas têm contato.
A utilização de dessalinizadores tem sido uma prática
bastante difundida pelos governos estaduais, no sentido de melhorar a qualidade
das águas de subsolo, principalmente aquelas oriundas de poços
tubulares e amazonas, as quais, devido a alta salinidade, apresentam pouca
serventia para o consumo humano. Algumas questões, no entanto, precisam
ser levadas em consideração, quando o assunto diz respeito ao uso
das águas dessas fontes para fins de potabilidade.
As
cisternas rurais talvez sejam os reservatórios hídricos mais
importantes no Semi-árido, tendo em vista a sua capacidade de acumular
água de excelente qualidade - as águas das cisternas não
têm contato direto com outros ambientes que possam mineralizá-las
ou contaminá-las - bem como a função reguladora de
estoques para o consumo das famílias durante todo ano. Centros de
pesquisa, organizações não governamentais e governos
estaduais têm orientado o homem do campo no sentido de construir
cisternas com técnicas modernas e baratas e de proporcionar uma melhor
forma de manejo de suas águas. Estima-se que uma cisterna de 12000
litros seja suficiente para abastecer uma família de 5 pessoas durante
os meses sem chuvas no Semi-árido, considerando o consumo diário
de 10 litros por pessoa, durante 8 meses.
No
que diz respeito aos rios, dadas as suas características de
temporariedade no Semi-árido, o uso de suas águas fica restrito
às escavações de cacimbas em seus leitos, nos
períodos de seca, com limitações tanto nos aspectos da
concentração de sais e exaustão do lençol
freático, como da contaminação por microorganismos. No
tocante à perenização dos rios, através da
construção de represas sucessivas em seus leitos, um aspecto a
ser considerado diz respeito ao tipo de solo existente na bacia da represa, que
poderá vir a ser um elemento carreador de sais para o interior da mesma
e, a partir daí, a água utilizada refletir aquela que foi
represada. Planossolo Solódico e Solonetz Solodizado são tipos de
solos que trazem estas características.
Nos
casos específicos dos barreiros e pequenos açudes, existem
algumas preocupações no sentido de se resolver o problema da
turbidez das águas que é muito comum nesses tipos de fontes
hídricas. A turbidez é uma característica resultante da
suspensão de partículas microscópicas de argila nas
águas. Normalmente, utiliza-se a filtragem para minimizar esse problema,
sem que se consiga, no entanto, a eficiência desejada. A
ineficiência dos filtros existentes no mercado, permite a passagem de um
grande teor de partículas de argila em suspensão na água
filtrada, resultando não apenas numa qualidade inferior dessa
água mas, principalmente, na obstrução do elemento
filtrante e na necessidade de se repor esse material. A experiência tem
mostrado que o homem do campo não costuma se preocupar com a
reposição de novos elementos filtrantes quando obstruídos,
passando o filtro a ser uma mera peça decorativa em sua residência.
Recentemente,
a utilização da 'Moringa' - vegetal cujas sementes
têm a capacidade de flocular e decantar as partículas de argilas
em suspensão na água, sem causar problemas à saúde
do homem - está sendo orientada, por organizações
não governamentais, no sentido de tornar a água de barreiros e
pequenos açudes a mais cristalina possível, melhorando,
sobremaneira, o aspecto de turbidez. No entanto, vale ressaltar que a
suspensão pura e simples da argila nas águas desses corpos de
água é inócua à saúde das pessoas que a
bebem, sendo necessária uma ação mais eficaz, por parte
dessas organizações e dos governos em geral, no sentido de
neutralizar os problemas causados pela fauna microbiana existente nas
águas dessas fontes - principalmente a bacteriana , de microalgas e
verminoses - contaminadas que são pelos dejetos animais, pela
decomposição da matéria orgânica animal e por outras
fontes de inóculo existentes no campo que, naturalmente, são
carreadas pelas águas das chuvas para o interior dos barreiros e
açudes, trazendo riscos à saúde da população
usuária. É importante ser evidenciado esse aspecto, no sentido de
se evitar situações lamentáveis como as que ocorreram no
ano de 1997, com um grupo de pessoas, no município de Caruaru (PE),
atendidas com tratamento de hemodiálise, em que o grande vilão
dos óbitos ocorridos no referido tratamento foi a presença - na
água proveniente do açude que abastece o município e
componente do processo de filtragem do sangue - de uma microalga que não
foi excluída pelo sistema de filtros dos equipamentos de
hemodiálise da clínica que as atendeu. Outro aspecto igualmente
importante a ser considerado nestes corpos de água diz respeito a sua
exaustão, devido à evaporação acentuada que existe
na região, somada ao uso continuado de suas águas. Estudos
têm demonstrado que 40% das águas de um pequeno açude ou
barreiro se perdem para a atmosfera pelo fenômeno da
evaporação que, na região, chega a atingir patamares da
ordem de 2000 mm anuais.
No
tocante ao uso das águas dos grandes açudes para fins de
abastecimento das populações, esta é uma prática
que deveria ter sido priorizada há mais tempo. Normalmente um grande
açude, por apresentar grande inércia - parâmetro que
condiciona a sua resposta aos fatores de variação de salinidade
de origem climática, ou seja, o efeito de diluição das
chuvas e o efeito de concentração da evaporação -
possui águas adequadas para fins de abastecimento. As 28 maiores
represas do Nordeste têm capacidade para acumular 12 bilhões e 750
milhões de m³ de água, mas apenas 30% desse volume
são utilizados em sistemas de abastecimento ou em
irrigação. A represa de Orós, no Estado do Ceará,
com um volume aproximado de 2 bilhões de m³ de água,
praticamente não é utilizada. A barragem do Patu, na cidade
sertaneja de Senador Pompeu, também no Estado do Ceará, que
poderia ser usada na agricultura por 60% da população dessa
cidade é usada por um número insignificante de produtores.
Existem, no entanto, indícios de modificação desse quadro.
A barragem Armando Ribeiro Gonçalves, no Rio Grande do Norte, que
acumula um volume de água maior do que a Baía de Guanabara,
só recentemente passou a ser utilizada em abastecimento, assim mesmo em
volume muito aquém de suas potencialidades. Outros exemplos podem ser
citados como a barragem do Castanhão, no Ceará, a de Jucazinho,
em Pernambuco, Coremas/Mãe D'água e Boqueirão, na
Paraíba, que incluíram, nos seus objetivos de uso, o fator
abastecimento.
Com
relação às águas tratadas em dessalinizadores,
é preciso que sejam observadas algumas questões. O
dessalinizador, em si, é um equipamento extremamente eficiente. O
processo de retirada dos sais das águas é feito por
intermédio de membranas (osmose reversa), o que dá ao equipamento
índices espantosos de eficiência, em que uma água
extremamente salinizada, ao ser tratada, passa a conter apenas traços de
sais na sua composição. Torna-se, praticamente, uma água
destilada. Este aspecto é muito importante pois poderá
influenciar, sobremaneira, no balanceamento de sais do organismo das pessoas.
Em
se tratando de balanceamento de sais, um dos aspectos importantes a ser
considerado, é a temperatura ambiente. Uma das características da
Região Semi-árida nordestina é a de ser quente, com a
média da temperatura anual atingindo a casa dos 26° C. Isto
significa dizer que a população rural transpira em demasia nas
atividades normais de campo. Ao transpirar, ela perde sais. A
reposição desses sais no organismo das pessoas normalmente
é feita através da alimentação do dia-a-dia
(sabe-se que a região apresenta índices elevados de
desnutrição) e da ingestão de líquidos (ressalte-se
que a população do Semi-árido é acostumada a
ingerir águas com teores salinos muito acima dos recomendados pela
Organização Mundial de Saúde). Ao passar, de uma hora para
outra, a ingerir água com baixos teores de sais, essa
população começará a entrar em um processo de
desmineralização, tendo em vista as fontes de
reposição desse elemento não apresentarem mais os teores
que vinham suprindo a população anteriormente. O resultado
é que um programa de fornecimento de 'água de primeiro
mundo' à população, com o uso de dessalinizadores (
slogan
amplamente divulgado pelos governos), poderá vir a ser acusado,
futuramente, como um vetor de desmineralização da
população. Para corrigir esse problema é preciso que se
pense numa forma de fazer um tratamento de águas misturando aquelas
isentas de sais, oriundas dos dessalinizadores, com uma pequena parte,
mineralizada, oriunda da fonte que está sendo tratada, garantindo,
assim, uma água com teores salinos adequados ao perfeito funcionamento
do organismo das pessoas. Sobre esse aspecto, informações obtidas
de pesquisadores da ORSTOM (entidade de pesquisa do governo francês),
participantes de missão científica no Chade - país de
clima desértico do norte da África - demonstraram a
preocupação dos técnicos franceses em balancear os teores
de sais das águas consumidas no local e oriundas de dessalinizadores,
através da dissolução, nessas águas, de comprimidos
de sais trazidos da França.
Ainda
com relação à questão dos dessalinizadores, outro
aspecto importante a ser mencionado é o destino que deverá ser
dado ao rejeito do material resultante do processo de
dessalinização das águas. Este material, extremamente rico
em sais, atualmente é depositado em lagoas de decantação
ou mesmo colocado ao ar livre sem maiores preocupações,
constituindo-se em um grave problema ambiental para ser solucionado pelos
pesquisadores. É provável que os caminhos a serem seguidos pela
pesquisa, digam respeito ao aproveitamento desses sais para fins
pecuários, visto ser a região semi-árida muito carente no
aspecto de mineralização dos animais, de piscicultura,
principalmente com Tilápias, que são espécies extremamente
resistentes a ambientes salinos e de cultivo irrigado com plantas
halófilas, a exemplo da
Atriplex,
que necessitam de águas com teores salinos elevados para se desenvolverem.