S.O.S SÃO FRANCISCO

 

Jorge Coelho*

 

 

1 . Onde nasce o rio

 

O rio São Francisco, nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, no Chapadão da Zagaia, onde não há mais vegetação, praticamente uma planície varrida por fortes ventos, quase desértica.

Lá foi criado o Parque Nacional da Serra da Canastra, em 1972, para proteger a nascente do rio, no município de São Roque. Foi o navegador Américo Vespucci que primeiro conheceu-lhe a foz, em 4 de outubro de 1591, dia do Santo que lhe deu o nome. Em um pequeno filete d’água, escorre pelo Chapadão, tendo logo abaixo de sua nascente, uma ponte de apenas quatro metros de largura. Cerca de 20 km após, suas águas são engrossadas por águas de outras nascentes e despenca do Chapadão, formando a cachoeira do Casca Dantas, num salto de quase 100 metros de altura, numa beleza extasiante, visitada, em 1819, pelo naturalista francês, Auguste de Sain-Hilaire.

Daí por diante, segue serpenteando pelo Sertão afora e, depois de percorrer cerca de 2.660 km, passando pelas várzeas de Sergipe e Alagoas, penetra no Oceano Atlântico, como uma cunha d’água doce no mar salgado, numa demonstração de sua força, empurrando as águas do mar, num duelo entre dois gigantes da natureza.

A bacia do São Francisco, acalenta seus afluentes, alguns, também, fortes como o rio das Velhas e o Paracatu, em Minas Gerais, o Rio Grande e o Correntes, na Bahia e outros menores, como o Ipanema e o Moxotó, em Alagoas e Pernambuco. A sua grande bacia abrange, aproximadamente 632 km², duas vezes o tamanho do Estado do Maranhão.

Duarte Coelho, em 1545, transpôs a sua foz e instalou o primeiro povoado por trás das "rocheiras" de Penedo, onde se localiza hoje, a cidade do mesmo nome. Lá foi erguido o forte Maurício, em homenagem a Nassau. Em 1549, Tomé de Souza recebeu ordens de Dom João III para "providenciar a dominação das margens do rio Peraçu de São Francisco, com línguas da terra e pessoas de confiança". O valente Francisco Garcia D’Avila foi então encarregado de penetrar o São Francisco, já então, dono da metade do Estado da Bahia e todo o Sergipe. Penetrou o rio, escravizou índios e criou gado. Os fugitivos da cadeia e os ladrões de gado avançaram rio adentro, juntamente com os índios do litoral que dali foram rechaçados, como conta o padre Navarro, primeiro missionário a conquistar a região sãofranciscana.

Embora Vicente Licínio Cardoso tenha chamado em 1920, o São Francisco de "o rio sem história", logo depois foi denominado de "o rio da unidade" e, "rio da integração nacional. Muitos "coronéis" impiedosos se situaram às margens do rio, como Militão Antunes e seu ferrenho adversário Bernardo Guerreiro, Pilão Arcado, dentre outros portugueses.

Mas, coube ao bravo pernambucano Delmiro Gouveia, comerciante de couros, peles e algodão, instalar a primeira hidrelétrica no São Francisco, por volta de 1913, com a ajuda do engenheiro Lauro Borba. O espírito empreendedor de Delmiro Gouveia era de tal grandeza que criou o primeiro supermercado da América do Sul, hoje, quartel da polícia militar de Pernambuco, no Derbi.

 

2 . A morte do rio

O grande rio São Francisco, como dissemos, nasce num chapadão que significa um planalto de superfície regular que aparece nos Estados de Mato Grosso e Minas Gerais, em geral, a mais de 600 metros de altitude acima do nível do mar. A grande "serra" do chamado Espigão Mestre, que no passado se julgava a espinha dorsal do relêvo brasileiro, é, na verdade, um extenso chapadão, divisor de águas, entre as bacias do Tocantins e do São Francisco onde nascem vários de seus afluentes, onde predominam grandes áreas de solos estéreis. Ocorrem ali as "águas emendadas", ou seja, quando o divisor das águas é indeciso e permite a livre passagem das águas de uma bacia para outra, como é o caso do rio do Sono e Sapão, afluentes do rio Preto, por sua vez, afluente do São Francisco. Esses chapadões têm grande poder de absorção d’água, por terem estrutura arenosa, de grande profundidade. A mata é da maior importância para conservação dessas fontes, protegendo-as contra a evaporação, erosão e influindo na retenção da água superficial. Infelizmente, a flora desses chapadões está quase totalmente dizimada e milhares de quilômetros quadrados de suas superfícies ficam sujeitas à intensa insolação durante o ano.

Foi, sem dúvida, o engenheiro Geraldo Rocha quem primeiro chamou à atenção para a devastação acelerada das matas, pelas siderurgia, provocando "um deserto que invade o Rio". Dizia ele: "Em futuro próximo, as matas devastadas influirão para acentuar a diminuição do regime pluviométrico, secando os mananciais. As margens arenosas, desprotegidas, desmoronam com facilidade, e dentro em pouco, o grande rio da penetração dos pioneiros, será inacessível mesmo às canoas, estendendo-se numa zona desértica da Serra da Canastra ao Atlântico, cujas conseqüências políticas, determinarão o esfacelamento do Brasil. Dominar o São Francisco, é o mais angustiante problema nacional (grifo nosso). O grande rio se vingará... dando causa, talvez, ao nosso desaparecimento como Nação (grifo nosso).

Continuando suas observações, afirmava Geraldo Rocha: "Os transportes no São Francisco tornam-se cada vez mais precários vapores calando 60 centímetros, carregando menos de 60 toneladas, são forçados pelas Capitanias de Portos, a um absurdo rol de equipagem. E como o leito se torna cada vez mais seco, eles levam às vezes um mês para percorrer, em tiragem redonda, os mil e trezentos quilômetros que separam os dois pontos extremos do trecho "soidisan", ligados ao litoral por estrada de ferro...Mais cinqüenta anos de abandono, o São Francisco estará reduzido a um deserto, que se estenderá da Serra da Canastra até o Atlântico (grifo nosso).

Lembra Geraldo Rocha, que o engenheiro francês Emmanuel R. Liais, contratado pelo Governo do Império para estudar a Bacia do São Francisco, juntamente com os brasileiros Eduardo José de Morais e Ladislau de Souza Melo Neto, em 1864 estudaram, de início, o rio das Velhas, encontrando excelentes condições de navegabilidade. Hoje, (50 anos atrás) diz Geraldo Rocha, "a leitura desse relatório alarmará o observador que da janela do seu vagão de estrada de ferro, contempla o rio das Velhas em Sabará, quase seco, transponível às vezes, a pé enxuto, por um transeunte que queira se dá ao trabalho de saltar de pedra em pedra" (grifo nosso).

"Quem percorre atualmente (50 anos atrás) as regiões estudadas por Liais e Henrique Halfeld que estudou o São Francisco das nascentes até Pirapora e o rio das Velhas até Guaicuí,...não escapa de um sentimento de terror (grifo nosso)... "O Saldanha Marinho, a primeira embarcação a vapor que sulcou as águas do São Francisco, foi armado em Sabará, juntamente com o Presidente Dantas... mas, a profundidade do rio diminuía, a cada ano, exigindo baldeações, determinando naufrágios e encalhes, que tornavam periclitantes a vida das empresas". Todas empresas fracassaram e o transporte rodoviário passou a dominar, na região.

"O São Francisco, porém continuou a se esgotar e os vapores mineiros mal podiam viajar durante seis meses do ano...É um fenômeno alarmante que ninguém pode contestar" (grifo nosso).

Mais ou menos da mesma época de Geraldo Rocha, são as observações do grande Mestre do Semi-árido, José Guimarães Duque, que estudou a agricultura daquele Trópico de forma a não deixar dúvida como se agride a natureza com os métodos irracionais de desmatamentos para cultivo de lavouras anuais, inclusive, através da irrigação, provocando a erosão acelerada dos solos e assoreamento dos rios. Bilhões de toneladas de solos são arrastados anualmente, para o mar, através dos rios, deixando atrás um deserto que se define cada vez mais próximo, conforme preconizava, recentemente, Vasconcelos Sobrinho.

Vejamos o que afirma o Mestre Guimarães Duque: "No percurso total de 3.161 km das suas nascentes na Serra da Canastra, em Minas, até a sua foz, o Rio São Francisco corta o Polígono das Secas numa extensão de 1.992 km, ou seja, desde Pirapora até Piranhas. A faixa seca, sem afluentes perenes, vai da Barra até a foz, na distância de 980 km. Esta grande área seca, que só lhe fornece água nas cheias de poucos dias por ano, é que causa a grande variação na descarga do rio: cerca de 12.000 m³/s, em janeiro/fevereiro, à 700/800 m³/s, em agosto/setembro, em Itaparica".

"Devido ao desnudamento a erosão é intensa; nas grandes cheias, a água carrega, através do "canyons" de Paulo Afonso, cerca de 6.000 toneladas de areia e terra por hora (grifo nosso), conforme informação do ilustre engenheiro Demerval Resende, da CHESF. Este poder erosivo na máxima vazão do rio significa um transporte de 140 gramas de material sólido por m³ d’água, podendo triplicar. O rio São Francisco, no percurso da faixa seca, pela superfície exposta, superior a 90.000 hectares de massa líquida (lâmina d’água), deve evaporar cada dia, mais de 6 milhões de m³ d’água" (grifo nosso).

Na década de 70, o engenheiro agrônomo Maurício Roberto, da EMATER de Minas Gerais, analisando o processo de assoreamento do São Francisco, prognosticou que no ano de 2.060, o rio estará totalmente assoreado e, portanto, seco.

A professora Maria Fernanda Santos Quintela, da Universidade do Rio de Janeiro, bióloga do Laboratório de Ecologia Aplicada, procedeu estudos sobre o assoreamento do São Francisco, através de sensoriamento remoto, verificando ser grande a erosão das margens do rio, com conseqüências dramáticas para a sua vazão e breve extinção.

Dr. José Theodomiro de Araújo, da CEEIVASF, lembra um boletim da SUDENE, no qual está, textualmente: "As imagens de satélites tem revelado o processo de assoreamento do leito das barragens do rio São Francisco. Esse fenômeno ameaça o potencial energético do rio, com o agravamento das matérias sólidas transportadas, que atuam como abrasivo sobre os equipamentos das usinas hidrelétricas, colocando em risco o seu funcionamento e diminuindo sua vida útil". Apesar destas denúncias oficiais, a CHESF nega até hoje, tais riscos, numa demonstração inequívoca da irresponsabilidade daquele órgão.

O deputado Manoel Novaes, em 1947, já discursava na Câmara, alertando para esta catástrofe que se abatia sobre o São Francisco. De nada adiantou e nenhuma providência foi tomada.

Por sua vez, o deputado Marcos Freire, de saudosa memória, por nós alertado, levou o drama do São Francisco à apreciação de seus pares, nas sessões de 6 a 9 de agosto de 1971, reconhecendo a gravidade do problema, também não foi ouvido e nada foi feito.

Em 1985, visitamos 19 projetos de irrigação no Vale do São Francisco, de sua foz até Pirapora, encontrando uma situação de calamidade. As Cooperativas queriam acionar a CHESF para soltar a água represada pela Companhia, a fim de evitar o colapso da irrigação. Àquela época, um magro filete d’água corria no centro do leito do rio e somente através de valetas escavadas das "casas de bombas" até alcançá-lo, às vezes com mais de 100 metros, permitia captar a água para irrigar durante poucas horas do dia e nem todos os dias era possível bombear água do rio São Francisco.

Isto nos leva à conclusão de que, com apenas 40.000 hectares em operação naquela época, os projetos estiveram a beira do colapso por falta d’água. Como irrigar mais 1.600.000 hectares fora da bacia? Talvez por meio de mágica dos mafiosos que querem enganar o povo sertanejo e ao Nordeste, de, modo geral, seja possível concretizar a farsa da irrigação.

Marcos Freire não acreditava que o rio São Francisco pudesse vir à secar, mas, duvidava de seu potencial hídrico para fornecer energia, irrigar e agora fornecer água para o consumo das populações ribeirinhas. Mas a história não pode ser apagada. Quem conhece sabe quantos rios já deixaram de correr em todo o Mundo e quantos estão ameaçados de secar. Basta que lembremos o Lago de Aral, para termos a dimensão do desastre ecológico que ocorrerá, muito em breve com o São Francisco, se permitimos o vandalismo da transposição de suas águas como querem os mafiosos do Ministério da Integração, em Brasília.

Estudos recentes constataram que cerca de 18 milhões de toneladas de deflúvios sólidos são depositados, anualmente, no lago de Sobradinho, cuja lâmina d’água é de apenas 8 metros de profundidade, deduzindo-se daí, o gravíssimo perigo e até catastrófico risco que ameaça o Nordeste, caso o Governo Federal continue com o descaso de não tomar urgentes medidas para impedir tal catástrofe. Somente o reflorestamento das margens do rio, a dragagem de seu leito e mesmo a construção de taludes em vários trechos de suas margens, pode amenizar o problema, pois, levará alguns anos para que o resultado dessas medidas se concretizem.

Em vez disso, o Governo Federal quer, a qualquer custo, implantar esse canal faraônico de Transposição das águas do São Francisco, num flagrante desrespeito à Constituição (artigo 224) e ao povo faminto do Sertão incorrendo, inclusive, em "CRIME DE LESA-PÁTRIA", por depredação do patrimônio público.

É necessário, portanto, que o povo exija dos políticos, das autoridades, principalmente dos governantes, seriedade e uma ação jurídica urgente, para que não seja consumada essa criminosa obra, que talvez nos leve a amargar, pelo resto da vida, o preço da irresponsabilidade daqueles que defendem seus próprios interesses, acima dos interesses da Nação, menosprezando o povo e a Pátria.

É PRECISO SALVAR O SÃO FRANCISCO DA MORTE, PARA NÃO MORRERMOS COM ELE.

 

Para saber mais, consultar:

1 . O RIO SÃO FRANCISCO - Fator precípuo da existência do Brasil - Geraldo Rocha - Companhia Editora Nacional 3ª edição - 1993.

2 . Solo a Água no Polígono das Secas - José Guimarães Duque - Mossoró - Fundação Guimarães Duque - RGN - 1980.

3 . S.O.S São Francisco - Associação - Salvador - Bahia (CEEIVASF).

4 . Associação P’RA BARCA ANDAR - Montes Claros - Minas Gerais.

5 . Transposição das Águas do São Francisco e Tocantins, para o Semi-árido Nordestino - (Avaliação Preliminar) - Ministério das Minas e Energia - Brasília - 1993.

6 . Oficina do São Francisco - Movimento Produção e Cultura - Recife - PE - 1991.

7 . Rio São Francisco: um depoimento - Mansueto de Lavor - Câmara dos Deputados - Brasília - 1983.

8 . TIERRA NUESTRA - Revista Latino Americana Al Servício, de Las Organizaciones Populares, número 3 - El Rio São Francisco: uma vena que se seca em el Brasil - Leo Gabriel.

9 . Rio São Francisco e Irrigação - Marcos Freire - Câmara Federal - Brasília - 1972.

10 . São Francisco - O rio da unidade - CODEVASF - Brasília, 1978.

11 . Agrônomo afirma que Transposição de águas não é alta prioridade - Jorge Coelho - Diário de Pernambuco - Novembro - 29 - 1983.

 

* Jorge Coelho - Engenheiro Agrônomo, Coordenador da ABRA (Associação Brasileira de Reforma Agrária - Pernambuco).

 

Texto publicado em junho de 1994.