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O limiar entre nostalgia e mudança
Raul Lody · Antropólogo "... o meu problema do Norte é: como é que o Norte há de ser gente sem deixar de ser Norte. Ser gente significa viver, poder chegar a adulto, sempre curioso dos horizontes do futuro, mais do que passado, se bem que também estes o fascinem e lhe dêem exemplos e alentos, antigos e recentes, para uma felicidade possível. Ser Norte, sem deixar de ser gente, significa que esta terra e esta gente se conhece e se reconhece, suficientemente e com satisfação, numa dúzia de traços, de formas, de símbolos e de gestos habituais, que lhe alimentam a interação e a comunhão, sem lhe tolher as pernas e as asas para novas fronteiras. Isso se chama Ter uma identidade - quando falamos de grupos sociais: região, comunidade, nação..." A relação entre criador e criação - artesão e objeto - implica um conhecer que fundamentalmente está na técnica, aliada à função - que é o desempenho sócio-cultural do objeto, penetrando o há de útil e simbólico ao mesmo tempo. Tem ainda ele, objeto, a suficiência de traduzir em material e forma as marcas do meio ambiente, da região - sua ecologia. A imagem inicial e básica que orienta o que é artesanal nasce no plano do fazer, no dominar conhecimentos e tecnologias - tendo na ação de executar com as mãos o que é mais representativo do protótipo do ser artesão, do fazer artesanato, do caracterizar o objeto artesanal. É convencional situar o uso da ferramenta simples - ou objetos adaptados - nos trabalhos artesanais; no entanto, dependendo da técnica desenvolvida, o aparato instrumental poderá atingir elaborados conjuntos de objetos-ferramentas e engrenagens. O que importa é que o apoio das ferramentas assuma a condição de prolongamento e projeção do corpo do homem, multiplicando possibilidades nos atos de transformar e revelar nas intervenções que ele, homem, faz na natureza como indivíduo e tradutor da sua cultura. Assim, o objeto torna-se um testemunho não apenas do conhecimento técnico, mas principalmente , da visão do mundo, de sua revelação; homem e sociedade, dialogando na tentativa de dizer que ele é pelo que faz, significando para si e para seu grupo valores simbólicos de quem vivência o seu modelo cultural. Aí vê-se a total impossibilidade de estabelecer parâmetros ou comparações nas rotuladas e chamadas qualidade do artesanato, autenticidade, rusticidade, como componentes necessários ao estabelecimento de um conceito ou conceitos que situem visões externas de produções complexas que se expressam independentes de teorias e críticas. Nesse campo, nota-se também outra questão angustiante, que diz respeito à escolha entre modelagem (repetição de formas) ou criação, vista como novidade e ou revelação. Os compromissos com a manutenção de modelos ou com a incorporação de novos temas para construir objetos estão assentados além do domínio das técnicas ou das descobertas individuais. O modelo existe como marca da identidade desse momento, a que o grupo realizador pode querer dar continuidade, tendo porém, autonomia de transformar parcialmente o modelo ou até substitui-lo por outro. Observa-se, também nesse âmbito, uma fantasia do típico - quando a cultura é vista pelo outro -, perpetuando aspectos formais que se enquadrem no desejado e almejado conteúdo de tipicidade. Ainda nesse tema, alerta-se para as implicações do comércio, do turismo do Estado, da moda, da intervenção de intelectuais, dos descobridores de típicos, ora como artesãos, ora como objetos. As peculiaridades dos grupos de artesãos - artesãos isolados dos vínculos com o comércio, com a comunidade, com o auto-consumo - mostrarão níveis diversos do seguimentos ou distanciamento do modelo ou da criação, considerados também algo incorporado ao momento contemporâneo, espécie de ocupação do território da autoria. Existe ainda o outro lado, massificante, qu exige o cumprir modelos desvinculados das realidades locais. Tem-se aí apenas o labor, o trabalho. Falta o viço da identidade. O repetir modelo está na utilização de uma técnica para um produto aceito, e a criação, o que há dela, desponta na rebeldia desse modelo como forma transgressora da repetição. O artesanato, antes de tudo, é o testemunho insofismável do complexo homem-natureza. E é por meio da cultura material que o domínio da técnica e do tipo de objeto estarão dizendo o espaço da sua feitura, ora pelos aspectos físicos, ora pela própria ideologia da cultura. Saber do artesanato desvinculado da vida e principalmente da economia é saber de um artesanato meramente estético, coisa solta do que há de mais importante, que é a transformação da própria cultura. O homem muda. Muda no que faz, quando tudo gira m torno do necessário pelo uso do cotidiano, nos momentos das passagens, nos calendários particulares das comunidades, na festa, no trabalho, na religião, na brincadeira. O trabalho é outro grande potencial que marca o ser do artesanato - quer nos campos, nas cidades, indo das técnicas extrativistas mais primárias ao reaproveitamento da sucata, na reciclagem. Hoje, há crescente adesão dos chamados neo-artesãos, que por contigência do desemprego e da geração de grande mão-de-obra ociosa, tentam no trabalho artesanal uma forma alternativa de subsistência, ampliando, e muito, essa verdadeira economia subterrânea que ocupa milhares de pessoas. Esses chamados trabalhos alternativos ou formas alternativas de vida estão voltados para um fenômeno chamado de auto-exploração, que também está assentado em outro fenômeno de abrangência não menos complexa, que é o da oposição ao não artesanal, como observa Octavio Paz: "O retorno do artesanato é um sintoma da grande mudança da sensibilidade contemporânea... uma expressão nova de revolta contra a religião abstrata do progresso"
Tão polivisual é o artesanato, que nenhuma das faces dessa figura que interessa ao antropólogo, ao economista, ao assistente social, ao desenhista industrial, ao líder do sindicato, ao comerciante, entre outros, poderá merecer tratamento tão exclusivo. Daqueles trabalhos na área da cultura, não se isola o econômico, o político, o religioso, o social. Ou naqueles trabalhos na área da mão de obra, tem-se que respeitar a criação e o modelo da comunidade, pois o fazer não é isolado dos traços mais identificadores do grupo. O gesto, a ação, o ritual repetido do fazer, do cumprir as seqüências nos tratamentos dos materiais, das tecnologias, das ferramentas, na intenção da forma, da cor, da intimidade do construir um a um cada objeto, definem o território do artesanato. Tão amplo que compreende desde o utensílio da casa até a construção da própria casa. Há o encontro das soluções com suficiência para simbolizar indivíduos, comunidades; traduzir desejos e expressões estéticas; vincular produção ao uso individual, familiar, atingindo feiras, mercados, lojas, o consumo externo. Assim, a dimensão do artesanato é integrante do nosso patrimônio cultural numa visão plena, fora da hierarquia do que é tradicional e exclusivamente tido como patrimônio - testemunho exclusivo das elites econômicas e do poder, da história oficial. Tem-se que entender e educar patrimonialmente. Ver, por exemplo, no testemunho do utensílio de cozinha, uma significativa carga de conhecimento, de presença ética, de função aceita e incorporada pela comunidade; assim, também nos implementos da agricultura, da pesca, da transformação da mandioca, cana-de-açúcar, do milho, algodão, dos metais, nas construções, nos trajes, objetos religiosos, transportes, nas casas, nos móveis, brinquedos, nas jóias, nos penteado, nos alimentos, na pintura corporal, todos acompanhantes da histona social do homem, às vezes como simbolo de sua expressao. Pertence ao produtor e a seu grupo o seu patrimônio. Apropriar-se desse patrimônio é vê-lo fora da funçao, sem moral, sem ética, sem ocupação real, sem fazer parte do perfil da comunidade. Objetos, meramente objetos. Não há como hierarquizar os testemunhos materiais da cultura; as especialidades das diferentes realidades atestam suas diferentes produções. Incomparáveis, elas encontram seus mecanismos de vivificar a identidade seja pelo aprendizado, seja pelo uso e conhecimento do significado. "O valor do tear como peca patrimonial está, pois, na sua capacidade de testemunho, de elemento simbólico, de instrumento pedagógico. " Usar uma gamela de madeira arredondada para servir amalá para Xangô nao é apenas escolha de utensílio; é, antes de tudo, inclusão de uma forma, de um material, de uma peça que integra o aparato material do orixá, dialogando a gamela com outros objetos, e, assim, formando um texto simbólico e funcional. O torno e a mesa do ceramista estão incorporados às conquistas técnicas e do trabalho. Os quadros ou grades das filezeiras, as almofadas de bilros das rendeiras, os bastidores do rendendê integram o elenco dos instrumentos de trabalho das rendas de agulha e de bilros. Não apenas o objeto ou o conhecimento, mas também o ferramental do trabalho é tema de análise como valor patrimonial, situando-se no que chamamos de tecnologia patrimonial. Como também o que há de didático nas maneiras informais de transmitir as técnicas - não apenas as técnicas, mas todo o conjunto do patrimônio que garante a contmuidade do objeto e do complexo que integra o trabalho em si. O trabalho é dividido por sexo, por faixa etária, significando o que fazer e por quem fazer, marcando tarefas da hierarquia masculina ou feminina, objetos exclusivos de homens, objetos exclusivos de mulheres, passando nas organizações dos trabalhos traços significativos da sociedade, marcando papéis e funções na comunidade. Outro ponto decisivo na análise do artesanato é o referente à matéria-prima; são as questões da terra, da ecologia, da forma de relacionamento da cultura com a natureza. E a vida, é o trabalho de retirar do solo os alimentos, de marcar com rituais os plantios e as colheitas, nos rios, nos mares, na mineração, nos desmatamentos, no uso das encostas, da ocupação humana nos relevos, traçando seus comportamentos e dizendo, pelo trabalho, quem são, mantendo traços da identidade. O entendimento das materias-primas não está isolado na extracão ou no tratamento do material. Já no desempenho da técnica, cada matéria-prima diz a sua região, a sua natureza e marca a predileção do homem em utilizer o barro em vez da fibra de palmeira, do saber tratar melhor a madeira do que fiar algodão. Também o uso do lixo, da sucata, reaproveitando, reciclando materials que, descartáveis pare uns, serão neo-úteis para outros, estarão presentes em necessárias funções, pare o cotidiano de muitas comunidades, ou em momentos cíclicos, sempre funcionais, úteis e simbólicos. É assim que se quer caminhar entre nostalgia e mudança social numa relação inseparável, homem-produto; plural, pleno e dinâmico. Esta no homem o motivo das nossas questões: sua melhoria de vida, o respeito a sue identidade, norteando, assim, nossa conduta no campo da cultura, razão primeira, objeto das nossas preocupações. "... o meu problema no Norte é: como é que o Norte há de ser gente sem deixar de ser Norte. " Referências bibliográficas
FERREIRA, José Maria Cabral, Artesanato, Cultura e desenvolvimento |