
Nos Maracatus do Recife
LEONARDO DANTAS SILVA
O Embaixador Alberto da Costa e Silva, que por muitos anos serviu na Embaixada do Brasil em Lisboa, entregou recentemente ao público ledor da língua portuguesa o seu mais recente livro: A Enxada e a Lança - A África antes dos portugueses (Rio, Nova Fronteira, 1992). Um verdadeiro tratado sobre o continente africano. Todas as suas etnias antes dos Descobrimentos, aparecem aos olhos do leitor interessado em tão fascinantes temas, hoje presentes em nosso mundo contemporâneo. Nas suas 768 páginas, o livro estuda cada uma das regiões com os seus respectivos costumes, lendas e tradições, bem como os vários povos que ali habitavam. De especial interesse para nós, que há tantos anos estudamos a Instituição dos Reis do Congo e sua presença nos maracatus do Recife, é a forte influência do culto da Calunga entre os ambundos de Angola, guardada como objeto sagrado e poderoso pelos cabeças de certas linhagens; in Estudos sobre a Escravidão Negra v.2. Recife, Editora Massangana, 1988.
CALUNGA DE ANGOLA
Como explica o erudito Alberto da Costa e Silva: "Segundo a lenda, o herói civilizador ambundo, Angola Inene, teria trazido de terras do nordeste ou, conforme outras versões, do mar, as lungas (ou malunga, que é plural em quimbundo da palavra). Esta última origem seria o resultado de interpolação européia, do traduzir equivocado de Calunga, 'as grandes águas', por oceano Atlântico, e contrasta com o papel agrário da escultura de madeira, ligada aos ritos de chamar a chuva e da fertilidade. As 'grandes águas' podem ter sido um dos afluentes do Zaire ou qualquer outro lago ou rio. Os europeus além disso, interpretaram Calunga como uma alta divindade e talvez tenham contagiado com este novo conceito as crenças ambundas. (...) A Calunga tornou-se assim, e desde há bastante tempo - a contar do fim do século XIII? -, fonte de poder político e de uma organização social fundada na terra, num sítio preciso, e não apenas na estrutura de parentesco. Muito embora tenha sido depois suplantada, em quase toda parte, por novos símbolos da centralização estatal, persistiu como emblema dominante no baixo Lui e ligada ao nome de numerosos ancestrais e fundadores de reinos, bem como aos títulos de vários sobas. Entre os cubas houve um Calunga; Calala Ilunga foi o herói civilizador dos lubas; os quiocos possuem um Calunga entre os seus maiores; os povos do sul do lago Maláuu dizem que Calunga lhes trouxe as novas instituições; a palavra aplica-se entre os lundas, ao senhor, ao chefe, ao rei, e, entre os congos, era, a um só tempo, o título mais comum dos quitomes, uma grande extensão de água e a vasta corrente mítica a separar as duas montanhas que formavam o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. A boneca, com o seu nome, atravesssou o Atlântico e sobrevive nos maracatus brasileiros". "Cada lunga vivia num determinado curso d'água. E era guardada por uma linhagem, cujo chefe conhecia o segredo da comunicação com as forças espirituais que a boneca continha. Essa linhagem sobrepunha-se às demais e seu cabeça possuía autoridade territorial sobre toda a área banhada pelo riacho ou pedaço de rio onde morava a lunga. Era ele quem alocava as terras a novas famílias que para ali quisessem mudar-se e, paulatinamente, senhor das chuvas e da fertilidade da terra, passou a receber tributos e a concentrar riqueza e poder. Estabeleceu-se também uma hierarquia entre os vários guardiães de calungas: o custódio da estatueta do rio principal era mais importante do que o dos riachos tributários, a graduação da autoridade fazendo-se conforme a hidrografia".
CALUNGA DO RECIFE
No Recife a Calunga, também chamada de boneca, se liga ao cortejo das nações africanas, do qual se originou o nosso maracatu a partir da primeira metade do século XIX, segundo esclarece a mesma fonte: "Mantendo-se em segredo, os vínculos entre grupos ambundos, num segredo auxiliado pela ignorância dos senhores de escravos, tinham os chefes vendidos [escravos] de mostrar a fonte do seu poder - e já agora também penhor de unidade do grupo ao Brasil - , a calunga".
Até os nossos dias a Calunga faz parte do ritual do maracatu, encarnando nos seus axés a força dos antepassados do grupo. Em sua honra são cantadas, ainda dentro da sede, as primeiras loas, quando a Calunga é retirada do altar pela dama-do-paço e passa às mãos da rainha, que a entrega à baiana mais próxima e assim se sucede, de mão em mão até retornar novamente às mãos da soberana. No Maracatu Elefante, pesquisando entre 1949-52 pelo musicólogo Guerra Peixe, três calungas se destacavam: Dona Emília, Dom Luis e Dona Leopoldina. Para a calunga "Dona Emília" eram dedicadas as maiores atenções. A ela era entoada a primeira toada, referida acima, na cerimônia também denominada de "a dança da boneca", "a ela também eram consagrados os cânticos mais fortes: é essa principal boneca levada à porta da igreja de Nossa Senhora do Rosário; com ela o Maracatu Elefante dança diante dos terreiros (de xangô) visitados. É nas canções oferecidas a Dona Emília que os músicos executam o ritmo de Luanda - o toque 'para salvar os mortos' ou eguns"; in Maracatus do Recife. "Dom Luís", segundo Guerra Peixe, representa "um rei africano", sendo por isso considerado como "Rei do Congo" pelos membros do grupo; numa clara referência aos primórdios do folguedo, coincidindo com a crença de que os poderes da Calunga estariam ligados aos seus ancestrais africanos, como bem enfoca esta loa:
A bandêra é brasilêra Nosso reis veio de Luanda Ôi, viva Dona Emília Princesa Pernambucana
Com a morte de Dona Santa (Maria Júlia do Nascimento), Rainha do Maracatu Elefante, em 1962, a original Nação do Elefante deixou de desfilar, e suas três calungas, juntamente com outros pertences, estão hoje recolhidos ao Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco, no Recife. Naquele ambiente convencional de museu, restam as lembranças daquela boneca que, empunhada pela dama-do-paço vinha às ruas do Recife mostrar a força da nação do Elefante ao som dessas loas:
Princesa Dona Emília Pra onde vai? - Vou passeá Eu vou para Luanda Vou quebrar saramuná. Eu vou, eu vou Eu vou para machá Eu vou para Luanda Eu vou para Luanda Vou quebrá saramuná
A boneca é de sê! É de seda e madeira A boneca e de sê! É de seda e madeira. A boneca e de sê! É de seda e madeira. |