Textos sobre o

RECIFE

Leonardo Dantas Silva


Arrecifes no Porto do Recife
Acervo FJN
O Recife, assim seja
Nos anúncios e noticiários das chamadas FMs, nas falas dos locutores de rádios e televisões, nos textos dos nossos jornais, bem como, em outras mensagens inseridas na mídia, vislumbra-se em grande destaque: "Aqui em Recife", "Recife quer isso"; "Recife precisa daquilo", "Recife deseja mais ação"..... Nas entrevistas de políticos e administradores, bem como entre muitos que se dizem intelectuais, estão a repetir a mesma erronia, insistindo em usar o topônimo designativo da nossa cidade sem o artigo definido que, obrigatoriamente, o antecede: "Recife" em lugar de o Recife; "em Recife" ao invés de no Recife; " de Recife" e não do Recife.

Como bem demonstra o Prof. José Antônio Gonsalves de Mello, no seu livro Diario de Pernambuco - Economia e Sociedade no 2º Reinado (Editora Universitária, 1996), arrecife é a forma antiga do vocábulo Recife, ambos originários do árabe ár-raçif, que significa calçada, caminho pavimentado, linha de escolhos, dique, paredão, cais, molhe. Em sua forma arcaica, arracefe, o vocábulo já era utilizado em 1258, segundo registra o dicionarista José Pedro Machado, lembrando que, em 1507 aparece como arrecife, e, no século XVI, é consagrada a forma recife; in Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, 2ª ed., Lisboa, 1967.

A denominação da atual cidade do Recife resulta do acidente geográfico ao qual Bento Teixeira (c 1561-1600) chamou "a cinta de pedra, inculta e viva, onde quebra Netuno a fúria esquiva" (Prosopopéia). Sua designação é registrada pela vez primeira no Diario de Pero Lopes de Souza, que denomina o seu porto natural de "Barra dos Arrecifes"(1532), e no chamado Foral de Olinda (1537), no qual o primeiro donatário, Duarte Coelho Pereira, nomeia-o "Arrecife dos Navios". Também no mapa do cartógrafo João Teixeira Albernaz I, "Carta Leste do Brasil", no Livro que dá razão do Estado do Brasil (1618), encontrasse registrado "Lugar do Recife", menção certa aos primórdios da primitiva povoação, depois Vila de Santo Antônio do Recife (1709) e finalmente Cidade do Recife (1823).

Durante quatro séculos a exigência do artigo definido masculino, precedendo o topônimo designativo de nossa cidade, foi mansa e pacificamente aceita até pelos holandeses, que nela estabeleceram a sua capital entre 1630 e 1654. Nos documentos da época, e até em gravuras, como a que aparece no livro de Joannes de Laet (1630), o artigo definido masculino het, ou na sua forma abreviada 't , antecedia sempre o topônimo designativo de da capital do Brasil holandês: 'T Recife.

A regra geral ensina que todo topônimo originário de um acidente geográfico é antecedido pelo artigo definido. Adverte Gonsalves de Mello, no capítulo citado (p. 17 - 26), "por que se originou de um acidente geográfico - o recife ou o arrecife - a designação do Recife não prescinde do artigo definido masculino: O Recife, nunca "Recife" e não "em Recife", "de Recife" , "para Recife". E isto pela mesma razão porque ninguém diz "em Rio" , "de Bahia", "em Pará", "em Amazonas", "em Rio Grande do Sul", "em Paraíba", etc.

Como se não bastasse a lição, Gilberto Freyre corrobora a mesma regra no seu O Recife, sim! Recife, não!, "pequeno guia do Recife escrito para não-recifenses pelo recifense de Apipucos", onde esclarece: todo bom brasileiro de Pernambuco diz o Recife e não "Recife", como diz o Brasil e não "Brasil", o Rio e não "Rio". - O recifense, constata Gilberto Freyre, diz chegar ao Recife, vir para o Recife, sair do Recife, voar sobre o Recife. Quando é outro modo da pessoa se referir ao Recife, o recifense conclui: "é gente de fora".

No mesmo diapasão são as observações de Waldemar de Oliveira, in Luzes da Cidade (Recife 1990): "Isso de dizer 'em Recife' é ignorância de gente do Sul, que não sabe muito de tais coisas, só sendo de lamentar que recifenses autênticos dêem curso a essa bobagem, já numerosas vezes - e por vozes mais autorizadas que a minha - combatida, sem contradita possível. A erronia se vai alastrando, mas é dever meu contraditá-la. Porque eu sou - e com muita honra - do Recife".

As outras vozes mais autorizadas, a que se refere Waldemar de Oliveira, seria as do reverendo Jerônimo Gueiros, in "Cidade de Recife ou Cidade do Recife?", Revista Arquivos n.º 1, 1942; do jornalista Mário Melo, in "O nome da capital pernambucana", Revista da Academia de Letras v. 8. Rio 1944; além do ex-reitor e fundador da Universidade do Recife, Joaquim Amazonas, e do escritor Luiz Estevão, que sobre o tema dissertaram longamente em sessão do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano.

Quem despreza o artigo definido masculino antes do nome de nossa cidade, por certo nunca conheceu o, nem residiu no e muito menos é originário do Recife. Com muito orgulho, como diria o poeta Antônio Maria.

O Recife assim deseja.

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