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JOSÉ LINS DO REGO

 

POR GILBERTO FREYRE

José Lins e Gilberto Freyre
Fins da década de 30
Acervo ·Iconografia da FJN
A notícia da morte de José Lins do Rego chega-me aos ouvidos como o mais brutal dos absurdos. Nunca me pareceu que ele pudesse ser senão vida. De modo que não consigo imaginá-lo morto. Morto como qualquer outro homem. Morto do fígado e dos rins num quarto de hospital.

Sua vida transbordou de tal maneira na minha que desde que o conheci deixei de ser um só para ser quase dois. Nunca ninguém, sendo do meu sexo, mas não do meu sangue, me deu mais compreensão e mais afeto. Compreensão e afeto nos momentos mais difíceis para uma amizade no Brasil; país de muitas camaradagens fáceis, mas de raras amizades profundas.

Sempre que nos reuníamos sua voz era uma festa para mim. Sua voz, sua palavra, suas risadas, seus gestos - tudo nele era festa para mim. Sua presença era das que traziam bom ânimo aos amigos. A todos os seus amigos. A Cícero Dias, a Olívio Montenegro, a José Olympio, a Antiógenes Chaves, a Gastão Cruls, a José Américo, a Valdemar Cavalcanti, a Sílvio Rabelo, a Luís Jardim, a Odilon Ribeiro, a João Condé, a Tiago de Melo. Mas com relação a mim era mais do que isto: era uma presença que me completava.

Sei que influi e muito sobre ele; e ninguém o confessou mais insistentemente do que o próprio José Lins em palavras, em cartas íntimas, em artigos; o que se disser em contrário será vã ou inócua tolice. Mas sei também que fui influenciado por ele e que em sua compreensão e seu afeto eu dificilmente teria vencido a acídia que no meu regresso ao Brasil, da Europa e dos Estados Unidos, se apoderou durante algum tempo de mim. Pois nunca um nativo regressou à sua terra, mais repudiado de que eu pelos mandões dessa terra, mais hostilizado pelos seus literatos, mais negado pelos seus moços. José Lins do Rego foi com Aníbal Fernandes, Carlos Lyra Filho, Olívio Montenegro, José Tasso, Odilon Nestor, Pedro Paranhos, uma das raras exceções. Devo-lhe muito. Devo-lhe tanto que, sabendo-o morto, sinto-me como que ferido de morte. E com certeza, incompleto. Com ele morto, sou um vivo incompleto.

A perda que sua morte representa para o Brasil - esta é na verdade imensa. Ele era ainda um homem no viço do poder criador. Capaz, portanto, de nos dar outro Fogo Morto, escrito quando alguns supunham finda a sua obra extraordinária de evocação e de interpretação da vida das casas-grandes do Nordeste, nos dias de decadência dos velhos engenhos. Ou esgotado seu gênio, ainda no esplendor, de intérprete desse passado, por ele próprio vivido na meninice.

Suas memórias apenas em começo - Meus Verdes Anos - talvez se intensificassem, na evocação da sua mocidade no Recife e da sua idade madura no Rio de Janeiro, num depoimento de importância máxima, quer para a revelação da sua personalidade, quer para a clarificação de aspectos obscuros das relações desse autêntico homem de gênio com o meio. Seriam a "confissão" com relação à "ficção" a que se refere a propósito de Graciliano Ramos, o admirável crítico literário que é o paulista Antonio Candido.

Tenho do grande amigo, agora morto, muitas cartas que esclarecem alguns desses aspectos. Também respostas a umas perguntas que uma vez lhe dirigi sobre assuntos relacionados às suas idéias e às suas crenças de homem então próximo dos cinqüenta anos. É documentação que talvez revele um dia em estudo sobre o escritor brasileiro da minha época que mais intensamente admirei, contente de que ele fosse também o melhor, o mais íntimo, o mais fraterno dos meus amigos. O mais constante, o compreensivo, o mais leal dos meus companheiros de geração. Aquele a quem mais me abandonei e aquele de quem mais recebi. Aquele em que mais confiei e aquele que mais confiou em mim. Aquele em quem eu mais me senti e aquele que mais se sentiu em mim. Aquele que, vivo, era parte da minha vida e morto é o começo da minha morte. Mais do que isto: o começo da morte de toda uma geração. São vários os que começam a morrer com sua morte.

Diário de Pernambuco. 15 de setembro de 1957

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