CAP.IV - A DEMONSTRAÇÃO DA HIPÓTESE .
É neste capítulo que se encontra o núcleo desta pesquisa.
Inicialmente, no Item 4.1 - A Operacionalização das Variáveis-,
descreveremos todas as variáveis do modelo quantitativo da pesquisa,
como foram construídas, o que representam e como se situam dentro
do objetivo da pesquisa que é a demonstração da hipótese
descrita no capítulo anterior.
Em seguida, no Item 4.2 - Elaboração e Aplicação
do Modelo Quantitativo da Pesquisa-, serão feitas a apresentação
e a aplicação do Modelo de Análise Bivariada (Item
4.2.1 - A Análise Bivariada), primeiro e fundamental momento
da demonstração da hipótese. Neste modelo, utilizando
os coeficientes de correlação (r de Pearson) às
variáveis da pesquisa, já pode-se verificar o delineamento
de três padrões distintos de associação entre
as bases sócio-econômicas dos Estados da Federação
e os partidos políticos, estes agregados nas categorias Conservadores,
Moderados e Progressistas.
Após a constatação destes padrões de associação,
são apresentadas as limitações estatísticas
de uma análise bivariada, propondo-se, para superar tais limitações,
a aplicação de uma análise de regressão múltipla
com o intuito de consolidar as descobertas obtidas com o primeiro modelo.
Tenta-se com o Modelo de Regressão Múltipla (Item
4.2.2 - A Análise da Regressão Múltipla) identificar
qual o percentual de explanação da variância da variável
dependente quando esta é regredida pelos indicadores sócio-econômicos.
Tem-se como meta testar a validade das descobertas obtidas com o Modelo
de Análise Bivariada, e, principalmente, dimensionar a abrangência
das associações existentes entre as bases sócio-econômicas
dos Estados e os partidos políticos.
Os resultados encontrados com a regressão múltipla são
bastante significativos e aprofundam ainda mais o que já foi demonstrado
na análise bivariada.
Assim, já tendo sido constatada a existência de padrões
distintos de associação entre as bases sócio-econômicas
e os partidos políticos, e também já havendo sido
identificado o grau de abrangência dessa influência, através
da regressão múltipla, prossegue a investigação
procurando identificar a importância relativa entre os indicadores
sociais na explanação da variância do sistema partidário
brasileiro no período da pesquisa. Para isto, é construído
um modelo causal, e, fazendo-se uso da Análise de Trajeto (Item
4.2.3 - A Análise de Trajeto), tentar-se-á aprofundar
ainda mais a compreensão sobre os aspectos da interrelação
entre as variáveis independentes (os indicadores sócio-econômicos)
e a forma como influenciam o SPB (79) 82/90).
Na realidade, quando se aplica o modelo de regressão múltipla, são apresentadas as variáveis independentes por ordem de influência sobre a variância da dependente. Esta ordem é mensurada através dos BETAS, que são os coeficientes de regressão múltipla. Entretanto, por estar-se lidando com uma pesquisa não experimental, esses BETAS sofrem distorções devido a correlações existentes entre os próprios indicadores sócio-econômicos, destituindo de confiabilidade qualquer afirmação que se faça sobre a importância relativa entre os indicadores sócio-econômicos na explanção da variância de Y.
Esta distorção é conseqüência do efeito
de multicolinearidade, principal obstáculo para as pesquisas não-
experimentais.
É com o intuito de superar este obstáculo que será
aplicado o modelo causal, fazendo-se uso de técnicas de Análise
de Trajeto (Path Analysis).
O pressuposto fundamental para se utilizar a análise causal é
o uso adequado da teoria aplicada na compreensão dos fenômenos
causais que compõem as variáveis e definem suas interrelações.
Isto porque o modelo causal parte de certos pressupostos teóricos,
segundo os quais o pesquisador é, forçosamente, obrigado
a definir uma estrutura causal que apresente a ordem ou a distribuição
das variáveis independentes do modelo da pesquisa. Estas variáveis,
classificadas como exógenas e endógenas, irão
compor o modelo causal da pesquisa.
Sobre as variáveis exógenas, o modelo não tem a
preocupação de fazer qualquer afirmação sobre
suas causas. Poder-se-ia dizer que estas definem o corte intencional dado
pelo pesquisador para delimitar o objeto da sua investigação.
Já as variáveis endógenas compõem o
modelo a ser investigado, e, seguindo a rationale da pesquisa, devem
ser situadas dentro do modelo como resultado das influências que
sofrem das variáveis que lhes antecedem na cadeia ou estrutura causal.
Por tratar-se de um terreno relativamente movediço, devido à
polêmica entre os pesquisadores sobre os conceitos de causalidade
e associação, bem como advertido em razão da tendência
a erros quando se utilizam modelos mais complexos, decidiu-se aplicar um
modelo causal com apenas três variáveis independentes, o qual,
para o objetivo desta pesquisa, demonstrou ser bastante útil.
4.1 - A OPERACIONALIZAÇÃO DAS VARIÁVEIS
O modelo quantitativo da pesquisa é basicamente composto de
duas macro-variáveis, a primeira representando a estrutura sócio-econômica
do país, esta composta pelos indicadores IDADE, RENDA, INSTRUÇÃO,
URBANIZAÇÃO e INDUSTRIALIZAÇÃO dos Estados
da Federação nos anos das eleições aqui analisadas
(1982,1986 e 1990). A segunda, composta pelos percentuais de votos válidos
obtidos, em cada Estado, pelos partidos políticos, representa o
Sistema Partidário Brasileiro de 1982 a 1990.
Sendo o objetivo da pesquisa investigar a existência de relações
entre a estrutura sócio-econômica e a orientação
ideológica do voto na sociedade brasileira, faz-se necessário
ampliar as argumentações em favor da hipótese de trabalho
a fim de que os conceitos aqui utilizados dêem suporte ao modelo
quantitativo e às variáveis que o compõem.
É exatamente na inserção do indivíduo no
espaço político, quer seja como mero eleitor, quer seja como
agente político, que ocorre uma das mais importantes decisões
na sua interação com o processo político-social. Desde
o aparente eleitor omisso, que se abstém de votar, passando pelo
tipo que vende o seu voto ou troca por bens materiais (o que ainda ocorre
com muita freqüência em grande parte da sociedade brasileira,
mais especificamente nos setores marginalizados da estrutura social), até
o mais aguerrido militante político, toda ação decorre
de uma avaliação fundamentada na ideologia daquele indivíduo,
a qual é predominantemente influenciada pela estrutura de classe
à qual ele pertence no momento, e é por esta fundamentação
que ele se move, avalia e volta a tomar decisões.
Desta forma, o ato de votar em um candidato do partido A ou B é
decorrente de uma decisão fundamentada na visão de mundo
ou concepção ideológica que o indivíduo formou
ao longo da sua existência com relação ao ambiente
que o cerca. Evidentemente que o processo da formação dessa
visão de mundo é a resultante das mais complexas e distintas
variáveis. Ocorre, entretanto, que dentre essas variáveis,
encontram-se as bases sócio-econômicas (aqui representadas
pelos indicadores sócio-econômicos), as quais consubstanciam
as reais condições sociais e econômicas em que este
indivíduo, bem como a classe social da qual ele faz parte, vivem,
produzem, constroem suas expectativas diante da vida e tomam decisões.
É essa realidade social em que ele está inserido que atua
como importante fator determinante na própria concepção
ideológica do eleitor, e que, no momento em que este é chamado
a decidir, através do voto, essa decisão carrega, em parte,
um peso determinado pelas condições sociais daquele indivíduo.
Para demostrar a hipótese central desta pesquisa, foi necessário
construir indicadores sócio-econômicos e eleitorais, os quais,
processados através de técnicas e métodos quantitativos,
viessem a possibilitar a identificação das associações
existentes entre as bases sócio-econômicas (identificadas
como as variáveis independentes do modelo), e o Sistema Partidário
Brasileiro 82/90, este representado como o resultado das decisões
da sociedade durante os diversos processos eleitorais ocorridos no período
da pesquisa, e agregados os votos por Estado da Federação,
dentro do espectro ideológico do sistema partidário composto
por três categorias de partido a saber: partidos progressistas, partidos
moderados e partidos conservadores.
A VARIÁVEL DEPENDENTE
A variável dependente da pesquisa, tal como enunciado anteriormente,
é o próprio Sistema Partidário Brasileiro, aqui representado
pela sua dinâmica eleitoral durante o período de 1982 a 1990.
Como, entretanto, devem ser construídos indicadores que possam representar
o próprio metabolismo do SPB 82/90 e sua dinâmica evolução?
Identifica-se que, através dos votos dirigido aos partidos, seria
a ótica mais adequada para se compreender essa evolução.
O momento da eleição representa o ponto culminante de todo
o processo de comunicação (seja esta decorrente de uma identificação
partidária ou não), entre a sociedade e os diversos partidos
que compõem o SPB.
É no momento de votar - e em nenhum outro - que o indivíduo
realiza o partido político. O voto representa o vetor criador do
partido, é o insumo vital para que este possa se reproduzir e exercer
suas funções no espaço político. Evidentemente
o momento do voto é conseqüência de outras fases que
vão desde a legalização do partido, a arregimentação
de militantes, passando pela definição do seu programa, às
atitudes dos filiados diante das grandes demandas da sociedade. Sem o voto,
porém, o partido perde substância e morre.
A comunicação que se estabelece entre partido e sociedade
é o ambiente que envolve e dá condições para
que se cristalize um processo de identificação partidária.
É, entretanto, no momento de votar que esta identificação
é materializada, retroalimentando o partido, positiva ou negativamente,
influindo no seu crescimento ou na sua extinção. É,
portanto, o ato de votar - e nenhum outro - que realiza a materialização
do partido político, sendo que, para este ato, atuam como fatores
determinantes as bases sócio-econômicas nas quais os indivíduos,
em sua estrutura de classes, estão imersos.
Desta forma, para representar o SPB(79)82/90, este materializado através
dos votos (das eleições de 1982,1986 e 1990) direcionados
aos diversos partidos políticos que o compõem, decidiu-se,
aqui, decompô-lo em três segmentos aos que se optou por definir
como Blocos Ideológicos-Eleitorais. São eles:
1º) Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador, composto
pelo percentual de votos válidos obtidos pelos partidos políticos
conservadores nas eleições a Deputados Federais e Deputados
Estaduais de 1982,1986 e 1990, agregados por Estado da Federação.
2º) Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado, composto pelo
percentual de votos válidos obtidos pelos partidos políticos
moderados nas eleições a Deputados Federais e Deputados Estaduais
de 1982, 1986 e 1990, agregados por Estado da Federação.
3º) Bloco Ideológico - Eleitoral Progressista, composto
pelo percentual de votos válidos obtidos pelos partidos políticos
progressistas nas eleições a Deputados Federais e Deputados
Estaduais de 1982, 1986 e 1990, agregados por Estado da Federação.
Na realidade, estes blocos, quando submetidos aos modelos da análise
bivariada, de regressão múltipla e análise de trajeto,
serão, de fato, três variáveis dependentes distintas,
as quais serão analisadas separadamente com o objetivo de identificar
a existência de diferentes padrões de associação
entre as bases sócio-econômicas e os partidos, comprovando
a hipótese da pesquisa.
Os indicadores sócio-econômicos, os quais medem o padrão
de desenvolvimento econômico e social de cada Estado da Federação,
serão considerados como as variáveis independentes do modelo
quantitativo da pesquisa.
Através da Análise Bivariada, verifica-se a existência
de uma associação entre as variáveis independentes
e dependentes, sendo possível, ainda, nesta análise, captar
o sentido(se positivo ou negativo), e a intensidade da correlação.
Com a Regressão Múltipla observa-se a abrangência
com que as variáveis independentes influenciam (ou explanam) a variável
dependente. Finalmente, com a Análise de Trajeto, se mede qual a
importância relativa entre as variáveis independentes quando
estas exercem alguma influência sobre a variável dependente.
Todo este processo de análise será executado, separadamente,
para cada Bloco Ideológico-Eleitoral. Serão os diferentes
resultados dessas análises que fundamentarão a demonstração
da hipótese da pesquisa, uma vez que tais resultados deverão
estar em sintonia com a rationale da pesquisa. Em outras palavras,
será a distinção dos resultados obtidos nas análises
dos Blocos Ideológicos-Eleitorais que irá demonstrar
a existência de diferentes padrões de associação
entre as bases sócio-econômicas e os partidos políticos.
Uma vez aplicado os modelos da análise bivariada, de regressão
múltipla e de trajeto para os três blocos ideológico-eleitorais
(conservadores, moderados e progressistas), nas eleições
de 1982, obtêm-se os três distintos padrões de
associação entre a população e os partidos,
mede-se o percentual de explanação da variância das
variáveis dependentes Y1(Bloco Conservador), Y2(Bloco Moderado)
e Y3(Bloco Progressista), e, ainda, através da análise
causal, mede-se a importância relativa entre as variáveis
independentes na explanação da variável dependente.
Se os resultados obtidos com a aplicação dos mesmos modelos
de análise bivariada, regressão múltipla e análise
de trajeto sobre as variáveis dependentes Y1, Y2 e Y3, em
1986 e 1990, resultarem na reprodução de padrões
de correlações e explanação da variância
obtidos em 1982, pode-se afirmar que existe uma comunicação
específica entre a sociedade e as três distintas categorias
de partidos políticos, sendo que essa comunicação
é sobredeterminada, em parte, pelas condições sócio-econômicas
em que vivem as populações nos Estados, e ainda mais, quando
ao longo de período de 1982 a 1990, esta apresenta uma continuidade
nos diferentes padrões de associação entre as bases
sócio-econômicas e os partidos políticos, tais resultados
podem ser interpretados como sinais que evidenciam traços consolidadores
do Sistema Partidário Brasileiro junto à sociedade.
AS VARIÁVEIS INDEPENDENTES
O objetivo destas variáveis é representar as condições
de evolução da estrutura sócio-econômica da
sociedade, esta considerada como um fator determinante do SPB.
Evidentemente que para maior rigor, seria necessário utilizar-se
um número bem mais elevado de indicadores sócio-econômicos
que influenciam na qualidade de vida do indivíduo. Mas, para que
isto fosse viável, seria preciso a utilização de softwares
mais poderosos e, conseqüentemente, computadores com grande capacidade
de processar modelos estatísticos mais sofisticados.
Assim, mesmo reconhecendo tais limitações, procurou-se,
aqui, com a utilização de uma "rationale" adequada,
escolher indicadores sócio-econômicos que fossem estatisticamente
significantes e que tivessem razoável poder de representação
da estrutura sócio-econômica.
O caminho apontado por pesquisas como a de Gláucio Soares (SOARES;1973)
representa já um norte a seguir. Variáveis como índice
de urbanização dos Estados, renda média da população
e outros, podem muito bem se adequar aos propósitos desta pesquisa.
Assim, com o objetivo de representar as bases sócio-econômicas
dos Estado da Federação, serão utilizados os cinco
indicadores descritos a seguir:
INSTRUÇÃO:Grau de Instrução da População
Residente nos Estados.
Esta variável é construída levando em consideração
o número de anos de estudos da população residente
nos Estados. Através de pesos específicos para cada categoria
de setores da população com mais ou menos anos de estudo,
foi construido o que se chamou de grau de instrução da população.
A educação, seguindo a rationale da pesquisa, representa
a variável mais importante do modelo, pois é através
dela que o indivíduo constroi uma visão de mundo mais aperfeiçoada
e eficaz na sua interação com a realidade que o cerca. No
processo de comunicação entre sociedade e partidos políticos,
o grau de instrução da população é instrumento
fundamental para distinguir e decodificar o discurso de cada partido, podendo
julgá-lo com maior rigor, tornando mais eficaz a interação
sociedade e partidos políticos e influenciando no nível de
consciência e participação política da sociedade.
URBANIZAÇÃO: Índice de Urbanização
dos Estado da Federação.
Já utilizada por outros pequisadores, esta variável mede
o percentual da população que vive nas cidades em relação
ao total da população residente no Estado. Sabe-se que quanto
maior o grau de urbanização de uma sociedade, mais alto é
o seu nível de desenvolvimento sócio-econômico. Sociedades
modernas e desenvolvidas apresentam elevados índices de urbanização.
É no espaço urbano onde se concentram as indústrias,
comércio e serviços, e, conseqüentemente, onde se formam
classes sociais com maior poder de pressão de interferir no processo
político. O conflito entre a classe operária e o setor empresarial
gera acentuados embates entre ambos, demandando níveis elevados
de participação e organização política.
Assim, a princípio, esta é uma variável imprescindível
para representar as condições sócio-econômicas
dos Estados da Federação.
INDUSTRIALIZAÇÃO: Índice de Industrialização
Mesmo correndo o risco de obter elevada multicolinearidade com a variável
Índice de Urbanização, optou-se por incluí-la
no modelo, com o objetivo de melhor representar as condições
sócio-econômicas dos Estados.
Esta variável é operacionalizada calculando o percentual
da PEA - População Economicamente Ativa na indústria
e nos serviços, em relação ao total da população
dos Estados.
RENDA: Renda média dos Estados
A renda é, efetivamente, um indicador sócio-econômico
de grande importância para se classificar e identificar os níveis
de desenvolvimento sócio-econômico de uma sociedade. Representa
o resultado efetivo do processamento de toda a atividade produtiva daquela
sociedade.
Para este modelo, é considerada peça chave na formação
das classes sociais nos diversos Estados da Federação, medindo
as tendências dos níveis de qualidade de vida da população,
e é particularmente útil para demarcar as diferenças
regionais dos padrões de desenvolvimento das unidades da Federação.
IDADE: Idade média da população
Esta variável tem características abrangentes em relação
ao estágio de desenvolvimento sócio-econômico dos Estados
da Federação. A expectativa de vida dos indivíduos,
indicador bastante utilizado em pesquisas para determinar o grau de qualidade
de vida de uma sociedade, estaria indiretamente subsumido por ela. Em certo
aspecto, quanto mais elevada a idade média da população,
principalmente em países do Terceiro Mundo, maior a tendência
em se afirmar que as políticas públicas, como saúde,
assistência social, distribuição da renda, educação
etc., estão sendo operacionalizadas com maior efetividade e eficácia
do que em sociedades que possuem baixos níveis de idade média
em sua população.
É importante destacar que esta pesquisa tenta demonstrar a hipótese
central sob a ótica de uma macrovisão da sociedade brasileira.
Assim, os dados dos indicadores sócio-econômicos que compõem
as variáveis independentes são dados gerais da população
de cada Estado. Somente os dados eleitorais, pelo fato de que votaram apenas
os maiores de 18 anos (nas eleições de 1982 e 1986), e, principalmente,
porque são utilizados os votos direcionados a cada partido, excluídas
as abstenções, nulos e brancos, são representativos
de um segmento bem menor da população de cada Estado. Este
aspecto, entretanto, não invalida as conclusões da pesquisa,
uma vez que em toda sociedade, a participação no processo
político-eleitoral se dá sempre por um segmento bem menor
do que o total da população. Sobre este assunto, encontram-se,
mesmo em países desenvolvidos e com regimes democráticos
consolidados, em algumas eleições, níveis de abstenção
bastante elevados, em razão de que em grande parte desses países
o voto não é obrigatório.
O objetivo deste item foi apresentar de forma detalhada a operacionalização
das variáveis a serem utilizadas no modelo quantitativo da pesquisa,
o qual será aplicado no próximo item. (Item 4.2 - Elaboração
e Aplicação do Modelo Quantitativo da Pesquisa).
ITEM 4.2 - ELABORAÇÃO E APLICAÇÃO DO MODELO
QUANTITATIVO DA PESQUISA.
Item 4.2.1 - A Análise Bivariada.
O uso de "ferramentas" estatísticas nas ciências
sociais tem-se consolidado ao longo do tempo como um suporte importante
nas demonstrações das hipóteses das pesquisas.
Prioritariamente utilizados para processar e identificar relações
entre variáveis sociais representadas por amostragem aleatória,
uma vez que seria praticamente impossível entrevistar todos os membros
da população alvo de uma pesquisa, os modelos matemáticos
possuem "testes de significância" para comprovar se as
diferenças entre as amostras são reflexos de uma verdadeira
diferença populacional, e não resultados de um erro amostral.
Para o caso desta pesquisa, como se trabalhará com dados reais,
a observância dos testes de significância não será
preocupação. As variáveis construídas através
dos indicadores sócio-econômicos e dos votos representam o
universo total da população da pesquisa.
Será utilizado nesta análise o Coeficiente de Correlação
Linear de Pearson, o qual mede a intensidade e o sentido (positivo ou negativo)
da associação entre duas variáveis. Veja-se abaixo,
esclarecedor texto sobre o assunto:
A correlação pode ser classificada,
quanto ao sentido, em positiva ou negativa. Uma correlação
positiva indica que os respondentes que obtiveram escores altos
na variável X tendem a obter escores também altos
na variável Y. De forma recíproca, respondentes que obtêm
escores baixos em X tendem a obter escores também baixos
em Y (e, nesse caso a correlação também é
positiva)......Diz-se que há correlação negativa
quando, com relação aos mesmos respondentes, à
medida que se obtêm escores altos na variável X, há
a propensão de se obterem escores baixos na variável
Y. Reciprocamente, ocorrerá também correlação
negativa se, em correspondencia a valores baixos na variável
X, existir uma tendência a valores altos na variável
Y.(LEVIN;1987:p.277)
No caso desta pesquisa, os "respondentes" são os Estados
da Federação, uma vez que não se está tentando
associar "opinião" da população com o produto
final do processo eleitoral, que é a distribuição
do voto dado aos diversos partidos que compõem o Sistema Partidário
Brasileiro. Em vez disso, estaria-se procurando identificar associações
entre as bases sócio-econômicas da população
residente nos Estados com o padrão de orientação ideológica
do voto.
Identificados os diferentes níveis de desenvolvimento sócio-econômico
entre as unidades da Federação, observa-se, que se se utilizar
como unidade de análise os Estados da Federação, tais
indicadores "variam" de caso para caso. Assim, também,
se analisados de forma separada, observa-se que a distribuição
dos votos dados aos diversos Blocos Ideológicos-Eleitorais, por
Estado, mostrará diferentes padrões de distribuição
eleitoral, variando de Estado para Estado.
Sob o ponto de vista da estatística, a hipótese da pesquisa
prevê que as variáveis independentes (Indicadores Sócio-Econômicos)
exercem influência sobre as variáveis dependentes (Blocos
Ideológico-Eleitorais), sendo responsáveis pela explanação
de parte da variância destas últimas.
Desta forma, atribui-se a existência de uma associação
entre a distribuição dos votos obtidos pelos partidos em
cada Estado, sendo estes partidos classificados como conservadores, moderados
e progressistas, com os indicadores sócio-econômicos destes
Estados para o mesmo período.
Considera-se assim, que os Estados possuem padrões distintos
de orientação ideológica do voto entre a população
e os partidos políticos, e que essa orientação ( entre
outros fatores que não estão incluídos nesta pesquisa)
é, em parte, sobredeterminada pelo padrão de desenvolvimento
sócio-econômico de cada Estado.
Assim, é de se esperar que, quando medida a correlação
entre as variáveis independentes ( no caso os indicadores sócio-econômicos),
e as três distintas variáveis dependentes (Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador, Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado e Bloco Ideológoco-Eleitoral
Progressista), os resultados obtidos sejam distintos em força e
direção. Esta diferença no valor da correlação
obtida com a associação entre as variáveis independentes
e as variáveis dependentes, calculadas isoladamente, traduz os diferentes
padrões de orientação ideológica do voto dado
pela população aos partidos políticos.
Abaixo a escala que mede a força do coeficiente de correlação
linear r de Pearson (LEVIN;1987:p.277,280).
-1,00 ....Correlação negativa perfeita
-0,95 ....Correlação negativa forte
-0,50 ....Correlação negativa moderada
-0,10 ....Correlação negativa fraca
0,00 ....Ausência de correlação
+0,10 ....Correlação positiva fraca
+0,50 ....Correlação positiva moderada
+0,95 ....Correlação positiva forte
+1,00 ....Correlação positiva perfeita
Como nas ciências sociais nunca se obtêm índices de
correlação perfeitos, cabendo ao pesquisador pré-estabelecer
seus critérios de intensidade com o objetivo de melhor adaptar a
compreensão das diferentes intensidades de correlação
obtidas em uma pesquisa, decidiu-se, aqui, adaptar a escala da correlação
para a que abaixo se descreve, valendo tanto para o sentido negativo como
para o positivo da correlação:
0,70 a 0,85 ...Correlação muito forte
0,50 a 0,69 ...Correlação forte
0,25 a 0,49 ...Correlação moderada
0,10 a 0,24 ...Correlação fraca
0,00 ...Ausência de Correlação.
A seguir serão aplicadas, separadamente, as variáveis
independentes do modelo aos três Blocos Ideológico-Eleitorais.
4.2.1.1- A Análise Bivariada do Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador.
Correlação entre a IDADE:Idade Média da População
residente nos Estados da Federação com o Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador.
No QUADRO 1, o primeiro aspecto que chama a atenção
é que em todos os anos da pesquisa (1982,1986 e 1990), a correlação
apresentada entre IDADE e o Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador é o sentido negativo da correlação.
Este sentido indica que quanto mais elevada é a idade média
da população residente nos Estados da Federação,
menor é a tendência de se direcionar os votos para o Bloco
Ideológico-Eleitoral Conservador.
QUADRO 1- Idade Média x Bloco Conservador
Considerando que IDADE é um indicador que mede a expectativa
de vida da população, sendo visivelmente observado que os
Estados mais desenvolvidos apresentam valores mais elevados de IDADE,
pode-se inferir que quanto mais desenvolvido é o Estado, menor
é a tendência da população a votar nos partidos
que compõem o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador do
SPB(79)82/90.
O gráfico do QUADRO 1 nos mostra, ainda, que a força
da correlação entre IDADE e o percentual de votos
válidos obtidos pelos partidos conservadores, durante o período
da pesquisa, é bastante forte, apresentando, em 1982, um r= -.657,
a mais forte correlação do período, caindo para r=-.523,
em 1986, e voltando a se fortalecer em 1990, com um r=-.604.
Tais variações podem ser interpretadas como influências
de diferentes fatores circunstanciais que caracterizam cada disputa eleitoral.
É importante observar, entretanto, que o fato da correlação
se manter negativa e forte, durante todo o período da pesquisa,
é uma evidência de que existe um padrão de orientação
ideológica do voto mais forte entre os Estados menos desenvolvidos
da Federação com os partidos conservadores, e, mais ainda,
que este padrão se reproduz ao longo do período, caracterizando
indícios de uma relação estrutural entre os partidos
e a população.
Correlação entre INSTRUÇÃO: Grau de Instrução
da população residente nos Estado da Federação
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador.
Na análise do QUADRO 2, o qual apresenta o resultado
da correlação obtida entre INSTRUÇÃO e
Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador, observa-se a reprodução
do mesmo sentido da correlação obtido com IDADE. Ou
seja, o sentido da correlação é negativo em 1982 e
assim se mantém até 1990. A intensidade da correlação
apresenta, entretanto, um perfil um pouco diferente do obtido com IDADE.
QUADRO 2. Grau Instrução x Bloco Conservador
Em 1982 o QUADRO 2 apresenta uma intensidade na correlação
classificada como "muito forte", com r=-.837, demonstrando
que, para aquele ano, os partidos que compunham o Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador foram fortemente associados com a população
residente nos Estados com mais baixos índices de alfabetização
do país. É importante destacar que as eleições
de 1982 representaram um marco no início da efetiva liberalização
do regime autoritário, o qual, apesar de continuar com um general
na Presidência, seguia sua política de distensão, dando
condições para que, pela primeira vez após o golpe
militar de 64, a população elegesse seus governantes. Tendo
sido tais eleições um verdadeiro plebiscito, onde a população
mais esclarecida e residente nos Estado mais desenvolvidos votou em peso
na oposição, elegendo os governadores dos dez Estados mais
desenvolvidos da Federação.
Acreditamos que este aspecto plebiscitário da eleição
de 1982, julgando o regime autoritário, tenha causado, com relação
à INSTRUÇÃO esta forte correlação
negativa, pois, dentre todos os indicadores, este é o que está
mais próximo do nível de participação e conscientização
política da população.
É interessante observar que a força da correlação
sofre um declínio, em 1986, para uma correlação "forte"
com r=-.503, caindo um pouco mais em 1990 para uma correlação
de intensidade "moderada" com r=-.442.
Esta tendência declinante pode significar que, apesar do sentido
da correlação se manter negativo durante todo o período
da pesquisa, a forte tendência da orientação ideológica
do voto nos partidos conservadores com os Estados menos instruídos
da Federação, apresentada em 1982, envolve um certo esvanescimento
em 1986 e 1990. Observa-se que, à medida que o processo de transição
para a democracia vai se consolidando, as eleições vão
perdendo o aspecto de questionamento ao regime autoritário, e as
demandas políticas da sociedade vão se diversificando em
um leque mais amplo de interesses e desejos. Em 1986, a população
já havia experimentado, em vários Estados, quatro anos de
administração dos governos de partidos de oposição
ao regime militar, e tido a capacidade de julgá-los, apagando-se
um pouco a áura que envolvia tais partidos como grandes aglutinadores
de todas as soluções para a sociedade brasileira.
Por outro lado, as forças políticas que, durante 20 anos,
haviam apoiado o regime autoritário, procuraram exercer seu novo
papel de oposição a esses governos estaduais, lutando para
ocupar espaços políticos significativos, movendo-se do espaço
autoritário para tentar sobreviver no emergente espaço democrático.
Não se pode afirmar que essa tendência declinante observada
na correlação entre INSTRUÇÃO e Bloco
Ideológico-Eleitoral Conservador venha a se manter, pois tais
transformações podem levar vários anos para se cristalizarem.
Apenas com a verificação do comportamento das eleições
subseqüentes é que se poderá confirmar tal declínio
na força da correlação ou sua estabilização
em algum patamar, que venha a traduzir uma estruturação do
padrão de orientação ideológica do voto com
o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador.
Correlação entre URBANIZAÇÃO: Índice
de Urbanização dos Estados da Federação com
o Bloco Ideológoco-Eleitoral Conservador.
QUADRO 3 - Urbanização x Bloco Conservador
No QUADRO 3, o qual representa a correlação entre
URBANIZAÇÃO com o percentual de votos obtidos pelos
partidos conservadores, observa-se a reprodução do mesmo
padrão de correlação obtido para IDADE. Em
1982, a variável URBANIZAÇÃO apresenta uma
correlação "muito forte", com r=-.767, caindo,
em 1986, para uma correlação "moderada", com r=-.388,
e voltando a subir para uma correlação "forte",
com r=-.632, em 1990.
A mesma explicação dada para o aspecto plebiscitário
de 1982 é válida para a variável independente em questão.
É nos grandes centros urbanos onde se concentram as maiores massas
de operários, e é, também, neles onde o conflito de
classe assume dimensões de uma luta mais organizada, instigando
o nível de questionamento ao regime militar. Entretanto, à
medida que se instaura o regime de transição para a democracia,
a dinâmica do processo político diversifica as demandas da
sociedade, quebrando gradadativamente a polarização entre
oposição democrática e governo autoritário,
o que permite uma atenuação, nos anos de 1986 e 1990, da
forte correlação obtida em 1982.
É importante destacar que em nenhum momento houve inversão,
no sentido negativo da correlação, durante todo o período.
Isto indica como evidente a existência de um padrão de orientação
ideológica do voto entre os Estados menos urbanizados da Federação
e os partidos conservadores.
Pode-se observar que as correlações apresentam uma certa
"flutuação", mostrando um valor
maior em 1982 (r=-.767), para cair em 1986 (r=-.388),
atingindo, neste ano, o menor valor do período e voltando a
subir em 1990 (r=-.632). Tal variação é decorrente
da dinâmica e complexa evolução da sociedade, devendo
ser levado em consideração o florescimento do SPB, além
de todas as circunstâncias específicas de cada eleição.
O que merece destaque é que, com toda as influências acima
citadas, o padrão de identificação permaneceu com
a associação negativa e forte na maior parte do período
analisado.
Correlação entre INDUSTRIALIZAÇÃO: Índice
de Industrialização dos Estados da Federação
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador.
No QUADRO 4, o padrão da correlação é
muito próximo do obtido por URBANIZAÇÃO. Isto
deve-se ao fato de existir uma forte relação entre URBANIZAÇÃO
e INDUSTRIALIZAÇÃO.
Observa-se, mais uma vez, a predominância absoluta da correlação
negativa entre os indicadores que medem o grau de desenvolvimento sócio-econômico
dos Estados e o percentual de votos válidos obtidos pelos partidos
que compõem o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador.
QUADRO 4 Industrialização x Bloco Conservador.
Correlação entre RENDA: Renda Média dos Estados
da Federação com o Bloco Ideológoco-Eleitoral Conservador.
A análise do QUADRO 5, o qual apresenta a correlação
entre RENDA com o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador,
apresenta o padrão de correlação, em todo o período,
muito próximo do obtido com a variável INSTRUÇÃO.
QUADRO 5 Renda Média x Bloco Conservador
RENDA apresenta a correlação mais forte de todas
as variáveis independentes, em 1982, com r=-.841 (correlação
muito forte), declinando em 1986 para r=-.501 (correlação
forte), e diminuindo mais ainda a força da correlação
em 1990, quando atinge um valor moderado: r=-.329.
A pesquisa sociológica demonstra que existem fortes associações
entre Educação e Renda. Talvez seja este aspecto que, para
o caso do Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador, explique
a reprodução, para todo o período, do padrão
de correlação entre RENDA e Bloco Conservador muito
próximo do obtido com INSTRUÇÃO.
Com o sentido da correlação negativo, apresentado por todos
os indicadores sócio-econômicos, durante o período
da pesquisa, pode-se afirmar que a associação existente entre
a população residente nos Estados mais desenvolvidos da Federação
e os partidos que compõem o Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador é uma associação negativa, ou seja
, quanto maior o nível de desenvolvimento social e econômico
dos Estados, menor é a tendência destes de orientar seus votos
para os partidos conservadores.
Sob o ponto de vista dos Estados menos desenvolvidos, pode-se afirmar que
existe um padrão de orientação ideológica dos
votos entre a população residente nos Estados menos desenvolvidos
e os partidos conservadores, e que esse padrão, apesar de apresentar
algumas flutuações ao longo do período da pesquisa,
mantém-se forte, demonstrando uma tendência para que, no processo
de consolidação estrutural dos partidos políticos
junto à sociedade, os partidos conservadores continuem fortemente
associados aos Estados menos desenvolvidos.
Quanto à evolução dos distintos indicadores, observa-se
que IDADE, URBANIZAÇÃO e INDUSTRIALIZAÇÃO
apresentam padrões de correlação muito próximos,
tendo sempre o ano de 1982 como aquele que apresenta a correlação
negativa mais forte, caindo, em 1986, para a correlação negativa
mais fraca de todo o período, e apresentando, em 1990, uma correlação
negativa intermediária.
RENDA e INSTRUÇÃO apresentam um padrão
de correlação diferenciado dos três primeiros citados.
Partem de correlações "muito fortes" no ano de
1982, caem em 1986 para correlações "fortes" e
apresentam em 1990 correlações "moderadas", demonstrando
uma clara tendência de esvanescimento no padrão da correlação.
Entretanto, pela existência de correlações negativas
em todo o período e em todos os indicadores, não se pode
afirmar que esta tendência declinante continuará. Apenas a
observação das próximas eleições poderá
confirmar a tendência declinante ou a estabilização
em um patamar moderado, o que poderia caracterizar, para o caso do declínio,
um realinhamento eleitoral.
4.2.1.2 - A Análise Bivariada do Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado.
Correlação entre IDADE: Idade Média da população
residente nos Estados da Federação e o Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado.
QUADRO 6 Idade Média x Bloco Moderado
O percentual dos votos válidos obtidos nos Estados pelos partidos
moderados constituem o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado. Pela
sua própria natureza, é de se esperar que as correlações
obtidas com os indicadores sócio-econômicos possuam intensidade
intermediária nas associações entre as bases sócio-econômicas
e a orientação ideológica do voto, se comparadas com
as assoçiações de caratér mais radical, obtidas
com os Blocos Ideológico-Eleitorais Conservadores e Progressistas.
No QUADRO 6, observa-se que houve uma mudança radical no
sentido da correlação, se comparada com o obtido com o Bloco
Ideológico-Eleitoral Conservador. De 1982 a 1990, todas as correlações
possuem o sentido positivo, indicando uma associação positiva
entre os Estados mais desenvolvidos da Federação e o Bloco
Ideológico-Eleitoral Moderado.
Entretanto, enquanto que, no Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador,
existem correlações de intensidade "muito forte"
e "forte", e poucas de intensidade "moderada", com
o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado, a força da
correlação varia entre "fraca" e "moderada",
ainda que todas sempre apresentem um sentido positivo. A predominância
de correlações de intensidade fraca e moderada coincide com
a expectativa de resposta dos partidos moderados, uma vez que o discurso
menos radicalizado de centro é capaz de comunicar e construir uma
associação espraiada pelos mais amplos setores da sociedade.
Registra-se, mesmo assim, a existência de uma associação
entre as bases sócio-econômicas e a orientação
ideológica do voto, entre fraca e moderada, e os Estados mais desenvolvidos
da Federação.
Quanto à análise da evolução do padrão
de correlação apresentado entre IDADE x Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado, observa-se um leve tendência de fortalecimento da força
da correlação ao longo do período da pesquisa. Partindo,
em 1982, de uma correlação "fraca", com r= +.161,
o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado obtém, em
1986, uma correlação ainda "fraca", porém,
ligeiramente mais forte do que a de 1982, com r= +.211, vindo a
evoluir em 1990 para uma correlação de intensidade "moderada",
com r= +.352.
Isto estimula reflexões interessantes. Uma delas é a de que
o PMDB, partido fortemente hegemônico dentro do Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado, mesmo tendo sido o principal partido de oposição
ao regime autoritário, abrigando em seu bojo militantes de várias
tendências ideológicas, e representado o principal marco de
luta em favor do regime democrático, não conseguiu, em 1982,
apresentar um padrão de orientação ideológica
do voto forte com os Estados mais desenvolvidos da Federação.
Pode-se inferir que, quando ocorreu a reativação do multipartidarismo
em 1979, e com a volta dos exilados ao cenário político nacional,
no mesmo ano, os novos partidos de esquerda passaram a ocupar um espaço
dentro do espectro ideológico bem mais definido em sua identificação
com as populações residentes nos Estados mais desenvolvidos
do país.
Outro aspecto importante a considerar é que o PMDB (ex-MDB), tendo
atuado com características de frente partidária durante todo
o regime autoritário, tenha sua associação com a população
de posições menos radicalizadas do que ocorre com os Blocos
Ideológico-Eleitorais Conservador e Progressista. Isto
viria a possibilitar sua consolidação também em Estados
menos desenvolvidos, mesmo que o sentido positivo da correlação
indique uma leve predominância na identificação com
os Estados mais desenvolvidos.
O esclarecimento destas questões, entretanto, só poderá
ser feito aplicando o mesmo modelo desta pesquisa ao período precedente
a 1982. Neste período, apesar de ter funcionado o bipartidarismo
forçado, e de não ter havido eleições para
governadores, pode-se medir os padrões de associação
entre as bases sócio-econômicas e o Sistema Partidário
da época, resgatando o perfil dessas associações,
o que, com certeza, viria a contribuir para a compreensão da evolução
do SPB.
A tendência ascendente na intensidade da correlação
pode indicar uma gradativa penetração do Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado nos Estado mais desenvolvidos da Federação,
o que será testado nesta análise bivariada com os outros
indicadores sócio-econômicos.
O fato de que, ao longo de todo o período da pesquisa, o padrão
de correlação se mantenha sempre "fraco" e "moderado"
com sentido positivo, distinguindo-se do padrão do Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador, que foi "muito forte" e "forte" com
sentido negativo, demonstra a existência de padrões distintos
de orientação ideológica do voto entre a população
residente nos Estados e os partidos políticos que compõem
estes dois blocos.
Começa a delinear-se a comprovação da hipótese
da pesquisa, de que existe, no período analisado, um processo de
consolidação estrutural dos partidos políticos junto
à sociedade brasileira, e que, dentre diversos fatores, constata-se
a influência das bases sócio-econômicas da população,
medida através dos indicadores sócio-econômicos, na
construção da orientação ideológica
dos votos dados pela população aos partidos políticos.
Correlação entre INSTRUÇÃO: Grau de Instrução
da população residente nos Estados da Federação
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado.
É interessante observar no QUADRO 7 o sentido positivo
da correlação em todo o período. Entretanto, diferentemente
do ocorrido com IDADE x Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado,
a tendência da intensidade da correlação é
claramente declinante. É com INSTRUÇÃO, em
1982, que o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado atinge a
maior força da correlação do período, com r=
+.508. Esta correlação é a mais forte obtida por
este bloco entre todos os indicadores durante todo o período (como
será visto mais adiante).
QUADRO 7 Grau de Instrução x Bloco Moderado
Entretanto, observa-se que já em 1986 ocorre uma significativa
queda na intensidade da correlação, com r=+.197, sendo
acompanhada, em 1990, de nova atenuação na força da
correlação, caindo para um r= +.143. É necessário
lembrar que a aparente contradição observada entre a curva
ascendente das correlações obtidas com IDADE x
Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado contra a curva descendente
das correlações obtidas com INSTRUÇÃO é
resultado da limitação da análise bivariada.
Como esta análise é feita com a observância da influência
isolada de cada indicador sócio-econômico na variância
dos Blocos Ideológico-Eleitorais, só se pode ver parte da
real associação existente entre eles. Isto porque não
se está, aqui, por limitação da análise bivariada,
levando em consideração a influência que cada indicador
sócio-econômico exerce sobre o outro, afetando a influência
sobre a variável dependente.
Para se entender a tendência declinante da correlação
obtida com o INSTRUÇÃO, vale lembrar que o governo
da Nova República (primeiro governo civil após o regime militar),
o qual perdurou do fim do Governo do General Figueiredo (março de
1985) até março de 1990, teve a marca do PMDB (partido hegemônico
no Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado), e se caracterizou
pela dubiedade e hesitação em suas políticas públicas,
mostrando-se ineficaz em criar vetores de transformção na
estrutura sócio-econômica, reclamados pelos setores mais esclarecidos
da sociedade, durante todo o período autoritário.
Correlação entre URBANIZAÇÃO: Índice
de Urbanização dos Estados da Federação com
o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado.
Observa-se no QUADRO 8 a reprodução do sentido
e da intensidade da correlação obtidos com IDADE e
INSTRUÇÃO, que são características do
padrão das correlações do Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado. Ou seja , durante todo o período, o sentido da correlação
é positivo, tendo a intensidade variado entre força "moderada"
e "fraca".
QUADRO 8 Urbanização x Bloco Moderado
Este indicador (URBANIZAÇÃO), entretanto, apresenta
uma evolução da intensidade diferente do obtido com os dois
que o antecederam. Para o ano de 1982, é observada uma correlação
de intensidade moderada, com r= +.469, caindo drasticamente, em
1986, para um r= +.099, e voltando a subir, em 1990, para uma correlação
"moderada", com r= +.326.
Isto leva a crer que a orientação ideológica do voto
da população dos Estados mais urbanizados da Federação
com relação aos partidos moderados existe, sendo entretanto,
fraca e moderada em alguns momentos, o que impossibilita identificar alguma
tendência ascendente ou descendente, ao longo do período da
pesquisa, como ocorreu com IDADE e INSTRUÇÃO.
Ressalte-se, ainda, que, nas eleições de 1986, a sociedade
já experimentara quatro anos dos governos, nos 10 maiores Estados
do país, dos partidos de oposição ao regime autoritário,
sendo 9 do PMDB e 1 (Rio de Janeiro) do PDT, assumindo estes partidos a
desconfortável posição de ser governo, o que justifica
a queda das correlações de 1982 para 1986. Deve ser considerado
também o florescimento do sistema partidário, com a inserção
de outros partidos disputando os votos do eleitorado urbano.
Correlação entre INDUSTRIALIZAÇÃO: Índice
de Industrialização dos Estados da Federação
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado.
Pode ser observado, no QUADRO 9, que INDUSTRIALIZAÇÃO,
por ter forte associação com o URBANIZAÇÃO,
tende a reproduzir, não apenas os padrões de correlações
próprios do Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado, mas
também a flutuação ocorrida com URBANIZAÇÃO.
QUADRO 9 Industrialização x Bloco Moderado
De uma correlação moderada obtida em 1982 com r= +.338,
cai-se, em 1986, para uma correlação fraca, com r= +.177,
indicando-se uma leve tendência a se fortalecer em 1990, com r=
+.212.
Correlação entre RENDA: Renda Média da população
residente nos Estados da Federação com o Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado.
QUADRO 10 Renda Média x Bloco Moderado
Observa-se, no QUADRO 10, que este indicador, quando relacionado
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado, tende a reproduzir
o mesmo padrão de evolução obtido com INSTRUÇÃO,
o qual apresenta, em ambos os casos, uma forte tendência declinante
ao longo de todo o período.
Partindo, em 1982, de uma correlação positiva moderada, com
r = +.468 (próximo de "forte"), cai em 1986 para
uma correlação "fraca", com r= +.249, vindo
a apresentar, em 1990, uma ausência de correlação.
Deve ser destacado que este é o único caso, em todas as correlações
(incluindo os Blocos Conservadores e Progressistas, como será visto
adiante), onde se constata uma ausência de correlação.
Esta ausência de correlação pode ser interpretada,
a princípio, através do entendimento de que nas eleições
de 1990, o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado não teve a
RENDA (para o caso da análise bivariada), como indicador
capaz de exercer influência na construção da orientação
ideológica do voto da população residente nos diversos
Estados com relação aos partidos moderados, que compõem
o bloco em análise.
Entretanto, é mister ser bastante prudente ao afirmar que um indicador
sócio-econômico, como a renda, o qual representa uma dimensão
tão relevante da sociedade, tenha perdido totalmente qualquer capacidade
de associação explicativa com o percentual de votos válidos
obtidos pelos partidos moderados.
É mais adequado interpretar esta ausência de correlação
como um resultado da tendência declinante apresentada desde 1982.
Pode-se, inclusive, afirmar, que aqui, talvez (e isto só poderá
ser confirmado com a aplicação do mesmo modelo da pesquisa
no estudo das próximas eleições), esteja sendo identificado
um processo de realinhamento eleitoral, onde a ausência de correlação,
em 1990, em vez de invalidar o indicador RENDA venha a representar
um momento de inversão no sentido da correlação, passando
os partidos que compõem o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado
a estabelecer uma associação mais forte com os Estados
de renda mais baixa. O mesmo pode ser afirmado quanto aos Estados onde
INSTRUÇÃO apresenta os níveis mais baixos da
Federação, uma vez que este indicador, quando correlacionado
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado, apresenta também
uma acentuada tendência declinante ao longo do período da
pesquisa (vide QUADRO 7).
Observando-se os resultados obtidos em todas as correlações
do modelo bivariado do Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado, percebe-se
claramente a distinção no padrão de orientação
ideológica do voto, determinada pelas bases sócio-econômicas
da população residente nos Estados, entre os Blocos Ideológico-Eleitorais
Conservador e Moderado. Enquanto que o nível de desenvolvimento
sócio-econômico dos diversos Estados apresenta uma forte associação
negativa com o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador, podendo-se
inferir, que quanto mais desenvolvido é o Estado, menor é
a orientação ideológica dos votos dados pela população
residente aos partidos conservadores, o padrão de associação
apresentado no Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado é
positivo, com intensidade na correlação variando entre moderada
e fraca, concluindo-se que quanto mais desenvolvido é o Estado,
maior é a tendência a se construir uma orientação
ideológica do voto em direção aos partidos moderados.
Deve-se observar que esta tendência é de intensidade moderada
e fraca, ao longo do período pesquisado, tendo alguns indicadores
sócio-econômicos, inclusive, apresentado uma significativa
tendência declinante - como foi o caso de INSTRUÇÃO
e RENDA -, que pode ser traduzido (principalmente na RENDA,
onde houve ausência de correlação), como o prenúncio
de uma inversão no sentido da correlação. Esta inversão
pode caracterizar um realinhamento eleitoral sofrido pelo Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado.
A hipótese da pesquisa começa a delinear-se, pois está-se
constatando que as bases sócio-econômicas da população
são fatores determinantes (entre outros, que não são
objeto desta investigação), na construção do
padrão de orientação ideológica dos votos dados
aos partidos políticos.
Após aplicado o modelo de análise bivariada nos Blocos
Ideológico-Eleitorais Conservador e Moderado, foi possível
distinguir dois padrões específicos de identificação
ideológica.
Para que a hipótese seja efetivamente comprovada, será necessário
que o padrão de orientação ideológico do voto
obtido com o Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista apresente
resultados específicos, diferentes dos obtidos com os dois blocos
já analisados. Isto ocorrendo, comprova-se que existe na formação
do SPB 79(82)/90 uma clivagem das bases sócio-econômicas dos
Estados, determinando( dentre outros fatores, de caráter subjetivo,
que também influenciam na decisão do votar), a estruturação
dos partidos na sociedade.
É a análise do padrão de orientação
ideológica do voto entre a população residente nos
vários Estados da Federação com o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista que será apresentada no próximo item.
Item 4.2.1.3- A Análise Bivariada do Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista.
Correlação entre IDADE: Idade Média da População
residente nos Estados da Federação com o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista.
QUADRO 11 Média de Idade x Bloco Progressista
Analisando o QUADRO 11, observa-se de imediato o surgimento de
um terceiro e distinto padrão de correlação entre
as bases sócio-econômicas e a orientação ideológica
do voto, constituído de correlações positivas "muito
forte" e "forte", ao longo de todo o período da pesquisa.
O indicador IDADE, correlacionado com o percentual dos votos válidos
obtidos pelos partidos progressistas, apresenta, em 1982, uma correlação
"muito forte", com r= +.831; cai, em 1986, para uma correlação
de intensidade "forte", com r= +.645; vindo, em 1990,
a sofrer uma ligeira queda, porém, ainda se mantendo no patamar
de intensidade "forte", com r= +.532.
Pode-se concluir que quanto mais desenvolvido é o Estado, maior
é a tendência para que a orientação ideológica
do voto dado pela população convirja para os partidos políticos
progressitas, sendo que este padrão difere do obtido com o Bloco
Moderado pela intensidade das correlações predominantente
"forte" e "muito forte" .
Vale destacar a forte semelhaça, apenas que invertida no sentido
da correlação, com as forças das correlações
obtidas com o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador (vide
QUADRO 1). O ano de 1982, quando ocorreram as eleições
que marcaram a ruptura da centralização do poder político
do regime autoritário, através dos pleitos para governadores,
representando, ao mesmo tempo, um dos primeiros fatos políticos
fundamentadores do processo de transição para a democracia,
retrata o forte caratér antagônico existente entre o Bloco
Ideológico-Eleitoral Conservador, que deu sustentação
política ao regime autoritário, e o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista, composto por partidos oriundos do bloco mais reformista
do ex-MDB, exilados e anistiados políticos.
Em ambos os casos, é em 1982 que a correlação apresenta
uma intensidade "muito forte", sendo que para o Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador (r= -.657), o sentido é negativo, comprovando, que
quanto mais desenvolvido é o Estado, menor é a associação
de IDADE com os partidos conservadores, enquanto que, para o Bloco
Ideológico-Eleitoral Progressista (r= +.831), o sentido é
positivo, refletindo que quanto mais desenvolvido é o Estado da
Federação, maior é a tendência que a população
tem de associar fortemente o voto aos partidos que compõem este
bloco.
Essa situação começa a se alterar em 1986, caindo
o Bloco Ideológico Eleitoral Conservador para uma correlação
"forte" (r= -.523), e o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista para uma correlação com r= +.645,
vindo, em 1990, ambos os blocos a situarem-se em correlações
de intensidade "forte". Neste último ano, o Bloco Conservador
apresenta uma correlação de sentido negativo, com r= -.604,
enquanto que o Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista mostra
uma correlação de sentido positivo, com r= +.532.
A atenuação da força da correlação
ocorrida em 1986 e 1990 pode ser interpretada como conseqüência
da diversificação das demandas políticas apresentadas
pela sociedade, afastando-se gradativamente da luta exclusiva pelo fim
do regime autoritário e pela volta à democracia, diminuindo,
assim, a polarização ideológica entre "oposição
democrática" e forças políticas que apoiavam
o "governo autoritário".
Observa-se, entretanto, que embora a correlação entre IDADE
x Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista tenha sofrido uma
atenuação ao longo do período da pesquisa, a força
da correlação em 1990 é ainda "forte", reafirmando
o padrão de correlação deste bloco (com as bases sócio-econômicas),
como o que se caracteriza por correlações positivas "fortes"
e "muito fortes", distinguindo-o do padrão obtido com
o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado.
Correlação entre INSTRUÇÃO: Grau de Instrução
da População residente nos Estados da Federação
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista.
Em 1982 a correlação apresenta seu valor mais elevado
do período, com r= +.677, caindo, em 1986, para um r=
+.632 e apresentando uma queda mais significativa em 1990, com r=
+.503.
QUADRO 12 Instrução x Bloco Progressista
Entretanto, em nenhum momento as correlações fogem do
que se classifica aqui de Padrão de Correlação Progressista,
caracterizado por correlações fortes e com sentido positivo.
Comparando com o Padrão de Correlações do Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador (vide QUADRO 6), não se verifica a assimetria
ocorrida na comparação entre os dois blocos com IDADE,
pois com o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador, em
1982, a correlação é de r= -.837, muito mais
elevada (apenas na força) que o r= +.677 obtido no mesmo
ano entre INSTRUÇÃO e o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista.
A leve tendência declinante apresentada no QUADRO 12, pela
sua pequena inclinação, pode ser interpretada como flutuações
em torno de um patamar onde as correlações continuam refletindo
uma associação entre INSTRUÇÃO e o Bloco
Ideológico-Eleitoral Progressista forte e positiva, ao longo
de todo o período da pesquisa.
Correlação entre URBANIZAÇÃO: Índice
de Urbanização dos Estados da Federação com
o Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista.
QUADRO 13 Urbanização x Bloco Progressista
No QUADRO 13, pela primeira vez na pesquisa, observa-se uma evolução
no padrão de associação praticamente constante durante
todo o período, caracterizando um patamar sólido e estruturado
entre a URBANIZAÇÃO dos Estados e os partidos progressistas.
As correlações obtidas - r= +.611 (1982), r= +.627
(1986) e r= +.597 (1990)-, todas com sentido positivo e intensidade
"forte", indicam que quanto mais urbanizado é o Estado,
maior é a tendência para que a orientação ideológica
do voto dado pela população convirja para os partidos progressistas.
Registra-se que, durante todo o período analisado, as correlações
apresentam sempre sentido e força absolutamente distintos dos níveis
obtidos com os Blocos Ideológicos -Eleitorais Conservador e
Moderado, consolidando ainda mais a hipótese da pesquisa.
Correlação entre INDUSTRIALIZAÇÃO: Índice
de Industrialização dos Estados da Federação
com o Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista.
Observamos no QUADRO 14, a exemplo do ocorrido na análise
bivariada dos outros blocos, a forte semelhança apresentada entre
INDUSTRIALIZAÇÃO e URBANIZAÇÃO. Isto
deve-se ao fato de que estes dois indicadores sócio-econômicos,
pelas suas próprias relações causais, estão
fortemente correlacionados.
QUADRO 14 Industrialização x Bloco Progressista
Reproduz-se, portanto, um padrão de evolução nas
correlações praticamente constante, refletindo a existência
de um patamar sólido e estruturado, no processo de associação
entre as bases sócio- econômicas e a orientação
ideológica do voto da população residente nos Estados,
medido através de INDUSTRIALIZAÇÃO, com os
partidos progressitas.
Este patamar que, em 1982, apresenta um r= +.649, em 1986 r=
+.624 e em 1990, r= +.551, é composto de valores absolutamente
distintos dos obtidos com os Blocos Ideológico-Eleitorais Conservador
e Moderado, caracterizando-se pelas correlações
"fortes" e com sentido positivo, próprio do Padrão
de Correlação Progressista.
Correlação entre RENDA: Renda Média da população
residente nos Estados da Federação com o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista.
QUADRO 15 Renda x Bloco Progressista
RENDA apresenta, se observamos o QUADRO 15, um padrão
de correlação, em 1982 e 1986, dentro do que se convencionou
chamar, aqui, de Padrão de Correlação Progressista,
o qual é caracterizado por correlações "muito
forte" e "forte". Entretanto, em 1990, a RENDA apresenta
uma correlação de intensidade moderada, com r= +.473 (é
verdade que próximo de r=+.500, que é o início
do padrão forte), sendo este o único caso em toda a análise
bivariada do Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista em que
a correlação não atingiu os níveis "forte"
e "muito forte".
Comparando-se a correlação de RENDA com os Blocos
Ideológico-Eleitorais Conservador (QUADRO 5) e Moderado (QUADRO
10), constata-se uma característica que é comum a todos
os blocos, qual seja a tendência declinante de RENDA, ao longo
do período, em todos os três Blocos Ideológico-Eleitorais.
O fato da curva declinante de RENDA no Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista ser menos acentuada que a curva dos outros dois blocos,
não nos dá a garantia de que, neste caso, esteja prenunciando-se
uma inversão. Pode tratar-se apenas flutuações circunstanciais,
que só os estudos sobre as próximas eleições
poderão confirmar ou não.
Entretanto, como já foi analisado, o Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado apresenta uma forte inclinação caracterizando
uma tendência à inversão do sentido da correlação
em 1990 (QUADRO 10, onde se apresentou ausência de correlação).
Quanto ao Bloco Conservador (QUADRO 5), apesar de RENDA apresentar,
ainda, uma correlação moderada r = -.329 e, portanto,
distante da ausência de correlação (r= 0), observa-se
que, pela inclinação da curva descendente, pode-se interpretar
uma tendência à inversão no sentido da correlação.
Entretanto, apenas os estudos sobre as próximas eleições
é que poderão confirmar ou não este realinhamento.
4.2.1.4- OS PADRÕES GERAIS DE CORRELAÇÃO.
Para melhor visualização dos resultados obtidos na análise
bivariada, decidiu-se agregar os gráficos de todas as correlações
obtidas com os três blocos ideológico-eleitorais com o total
dos indicadores sócio-econômicos durante todo o período
do estudo.
A demonstração da hipótese da pesquisa é claramente
definida com a análise do último bloco (progressista), o
qual apresentou um terceiro e bem definido padrão de correlação
entre as bases sócio-econômicas da população
residente nos Estados e a orientação ideológica do
voto, evidenciando a existência da influência das bases sócio-econômicas
na formação dos partidos.
Deste modo, formaram-se, ao longo do período analisado, três
padrões distintos de correlação, que passarão
a ser chamados de Padrões Gerais de Correlação,
os quais apresentam a associação existente entre a população
residente nos diversos Estados da Federação e os partidos
que compõem o Sistema Partidário Brasileiro 82/90, este integrado
por três categorias de partidos: Conservadores, Moderados e Progressistas.
O primeiro Padrão Geral de Correlação é
o Conservador. Sua principal característica é que
é o único a apresentar sempre, em todos os indicadores sócio-econômicos,
quando correlacionados com o percentual dos votos válidos obtidos
pelos partidos conservadores, durante todo o período da pesquisa,
as correlações com os sinais negativos, variando sua intensidade,
predominantemente, entre "muito forte" e "forte", com
raras correlações "moderadas".
O segundo é o Padrão Geral de Correlação
Moderado, que se distingue do Padrão Geral de Correlação
Conservador por apresentar correlações positivas, com
intensidade predominantemente variando entre "moderada" e "fraca"
, com alguns casos apresentando fortes tendências declinantes, prenunciando
um processo de realinhamento eleitoral.
O terceiro e último caso é o Padrão Geral de Correlação
Progressista, que se distingue dos outros dois pelas correlações
sempre positivas e com intensidade variando entre "muito forte"
e "forte". Apresenta, ainda, correlações em alguns
indicadores, praticamente estáveis durante todo o período
da pesquisa, demonstrando uma sólida e estruturada associação
entre as bases sócio-econômicas da população
residente nos Estados e os partidos progressitas.
Apresentação gráfica dos PADRÕES GERAIS
DE CORRELAÇÃO com relação à IDADE:Idade
Média da população residente nos Estados da Federação.
QUADRO 16 Padrão Geral x Idade
É possível observar claramente, no QUADRO 16, a
distinção na evolução das correlações
obtidas, ao longo do período da pesquisa, pelos Blocos Ideológico-Eleitorais
Conservador, Moderado e Progressista.
Enquanto o Bloco Ideológico-Eleitoral Conservador se
mantém forte e negativo, o Moderado apresenta uma leve tendência
ascendente, mas sempre positivo, variando com correlações
de intensidade "fraca" e "moderada" , e, finalmente,
o Progressita, apresenta uma leve tendência declinante, mas sempre
com correlações positivas, variando em intensidade entre
"muito forte " e "forte".
Apresentação gráfica dos PADRÕES GERAIS
DE CORRELAÇÃO com relação à URBANIZAÇÃO:
Índice de Urbanização dos Estados da Federação.
Analisando o QUADRO 17, observa-se que o Bloco Ideológico-Eleitoral
Conservador parte, em 1982, de uma correlação negativa
"muito forte", caindo, em 1986, para uma correlação
negativa "moderada", para voltar a subir, em 1990, para uma correlação
negativa "forte", tudo isto sempre abaixo da linha de ausência
de correlação (correlação zero).
QUADRO 17 Padrão Geral x Urbanização
Já o Bloco Ideológico-Eleitoral Moderado parte,
em 1982, de uma correlação positiva "moderada",
para cair, em 1986, para uma correlação positiva "fraca"
e voltar a subir, em 1990, para uma correlação positiva "moderada".
O Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista perpassa todo o
período da pesquisa em um patamar constituído de correlações
"fortes".
Apresentação gráfica dos PADRÕES GERAIS
DE CORRELAÇÃO com relação à INSTRUÇÃO:
Grau de Instrução da população residente nos
Estados da Federação.
QUADRO 18 Padrão Geral x Instrução
No QUADRO 18, observa-se claramente a distinção
entre os Padrões Gerais de Correlação: o conservador
com todas as correlações fortes e negativas; o moderado com
uma atípica correlação "forte", em 1982,
e "fracas" em 1986 e 1990, todas positivas; e finalmente o progressista
com correlações positivas e "fortes" durante todo
o período.
Merece destacar-se que enquanto a evolução das correlações
do Blocos Ideológico-Eleitorais Conservador e Moderado
apresentam curvas declinantes ao longo do período, sendo esta
tendência mais acentuada com o Bloco Moderado, o Bloco Ideológico-Eleitoral
Progressista mostra uma certa estabilidade na força positiva
da correlação, caracterizando a existência de um patamar
sólido com correlação "forte" e positiva
durante todo o período analisado.
Observa-se também, que para o ano de 1982, o Bloco Ideológico-Eleitoral
Moderado apresenta um correlação "forte" e
positiva, saindo ligeiramente do padrão Geral de Correlação
Moderado. Entretanto, nos anos de 1986 e 1990 as correlações
são "fracas", retornando ao seu Padrão Geral.
É interessante observar que o fato dos Blocos Ideológicos-Eleitorais
Moderado e Conservador apresentaram curvas declinantes pode
indicar que a tendência de realinhamento apresenta uma disputa entre
estes dois blocos, uma vez que o Bloco Ideológico-Eleitoral Progressista
apresenta, para o mesmo período, um patamar sólido e
invariante em relação ao tempo.
Apresentação gráfica dos PADRÕES GERAIS
DE CORRELAÇÃO com relação à INDUSTRIALIZAÇÃO
: Índice de Industrialização Estados da Federação.
QUADRO 19 Padrão Geral x Industrialização
O QUADRO 19 evidencia a existência dos três Padrões
Gerais de Correlação: O Padrão Geral de Correlação
Conservador, sempre com correlações negativas, variando em
intensidade entre "muito forte" e "forte"; o Padrão
Geral de Correlação Moderado com correlações
sempre positivas, variando em intensidade entre "moderada" e
"fraca"; e o Padrão Geral de Correlação
Progressista com correlações sempre positivas e com intensidade
variando entre "muito forte" e "forte".
Apresentação gráfica dos PADRÕES GERAIS
DE CORRELAÇÃO com relação à RENDA: Renda
Média da população residente nos Estados da Federação.
QUADRO 20 Padrão Geral x Renda
No QUADRO 20, além de se observar a reprodução
dos três padrões gerais de Identificação Ideológica,
destaca-se a tendência declinante em todos os três padrões,
sendo que no Padrão Geral de Correlação Moderado esse
declínio ocorre de forma mais acentuada que nos outros dois.
Reproduzimos abaixo a hipótese da pesquisa:
O Sistema Partidário Brasileiro, surgido em 1979, apresenta,
durante o período investigado, que vai de 1982 a 1990, um
relevante processo de consolidação estrutural na sociedade
brasileira. A consolidação do SPB-79(82)/90 se dá
através de uma relação entre as bases sócio-econômicas
da sociedade e os diferentes partidos que o compõem, sendo esta
relação medida pelos significantes graus de associação
existentes entre os diversos padrões de desenvolvimento sócio-econômico
dos Estados da Federação e os respectivos perfis ideológico-eleitorais
(classificados em partidos conservadores, moderados e progressistas) de
cada Estado, resultantes da distribuição dos votos obtidos
durantes as eleições ocorridas no período.
Esta hipótese efetivamente comprovada, pois as correlações
obtidas entre os diversos indicadores sócio-econômicos dos
Estados da Federação, os quais representam os níveis
de desenvolvimento social e econômico dos mesmos, com os percentuais
dos votos válidos obtidos pelos partidos que compõem o Sistema
Partidário Brasileiro mostram a existência de três distintos
padrões de orientação ideológica do voto, representados
estatisticamente pelos Padrões Gerais de Correlação
Conservador, Moderado e Progressita.
A constatação destes três padrões de identificação
entre a população residente nos diversos Estados e os partidos
que compõem o Sistema Partidário Brasileiro, durante o período
da pesquisa, demonstra que a formação dos partidos, vem ao
longo deste período, ocorrendo através de um importante processo
de consolidação estrutural junto à sociedade brasileira.
Esta consolidação se dá através da comunicação
que se estabelece entre a sociedade e os partidos, a qual é determinda,
em parte, pelas bases sócio-econômicas da sociedade brasileira.
Como a análise bivariada limita um pouco a compreensão da
relação entre bases sócio-econômicas e SPB,
principalmente porque a observação da correlação
de cada indicador sócio-econômico com os Blocos Ideológico-Eleitorais
é apresentada isolando os efeitos da correlação
existente entre os indicadores utilizados no modelo, partir-se-á
no próximo item, para aplicar o modelo de regressão múltipla.
Este é um recurso estatístico que nos auxiliará na
superação deste problema, aprofundando um pouco mais o conhecimento
sobre o objeto da pesquisa.