João Rêgo
O autor é cientista político e psicanalista. Atualmente é pesquisador na Fundação Joaquim Nabuco - FUNDAJ. Coordena o projeto Centro de Estudos Eleitorais Internacionais - CELINT.
Trabalho escrito entre setembro e novembro de 1995
1.) Introdução
Pretende-se neste trabalho, refletir sobre um dos principais fenômenos investigados, direta ou indiretamente, pela ciência política: o poder político. Mais especificamente, se procurará investigar o poder político e suas relações estruturadoras com a formação do Estado e da sociedade.
Serão abordadas as obras de dois pensadores, Hobbes (1588-1679) e Freud (1856-1939), o primeiro com o Leviatã, obra que se impôs como um dos clássicos do pensamento político, representando um dos primeiros, e também um dos mais relevantes trabalhos a sistematizar, através de um modelo conceitual, a compreensão sobre o Estado e seu papel nas formações da sociedades humanas.
Freud, fundador da psicanálise, ciência [1] ou área do conhecimento, que investiga o ser humano a partir de uma instância constitutiva do mesmo e que até então tinha sido um verdadeiro enigma para o conhecimento humano: o inconsciente. Partindo de um objetivo clínico - a investigação sobre a histeria -, Freud foi construindo um vasto arcabouço teórico com sólidas fundamentações empíricas, o qual viria a causar grande impacto nas mais diversa áreas do conhecimento, provocando com a criação da psicanálise, uma inquietante polêmica, que mesmo 100 anos depois, ainda consegue ser um sério incômodo à moral, à religião e à cultura.
Inicialmente, em Leviatã: do homem ao Estado, será feita uma digressão sobre a primeira parte da obra do pensador inglês, destacando pontos relevantes que até hoje permanecem atuais, sendo considerada, com suas teses sobre o homem e sua incessante investigação sobre o poder e o papel do Estado na viabilização da vida em sociedade, obra fundamental para quem pretende pensar o homem em sociedade e suas relações com o Estado. O interesse no Leviatã, para este trabalho, estará centrado na primeira parte Do Homem, por ser nela onde se pode encontrar as reflexões de Hobbes sobre a natureza humana, principal área de interseção com a psicanálise.
No segundo item, intitulado O Pensamento Social de Freud, será feita uma reflexão sobre a obra O Mal-Estar na Civilização. O objetivo é destacar pontos do pensamento freudiano que, ultrapassando o interesse pela clínica, se estenderam sobre a sociedade e o seu processo civilizatório. A escolha recai sobre O Mal-Estar na Civilização, por ser esta, dentre a vasta produção de Freud, aquela que melhor sintetiza a abordagem do autor sobre o ser humano e o seu universo social.
O homem entre a barbárie e a cultura, última seção do trabalho, representa uma reflexão feita de forma comparativa entre o Leviatã e o Mal Estar na Civilização. Se tentará dar ênfase as instâncias do Poder, do Estado e da Sociedade, da maneira como foram pensadas por estes pensadores.
Aí se procurará identificar pontos de convergência entre o pensamento de Hobbes e o pensamento social do fundador da psicanálise, partindo do princípio de que em Hobbes já se encontravam traços antecipatórios sobre objetos que mais tarde viriam a ser de interesse da psicanálise. O desejo, o prazer, a linguagem, o sonho, a cadeia da imaginação foram aspectos da natureza humana sobre os quais Hobbes se debruçou, identificando-os como partes integrante de um percurso investigativo natural e necessário para se pensar o Estado.
Sem se prender a nenhuma regra topológica de interseção entre duas obras voltadas para formas de pensar o homem e sua cultura, se tentará fazer um contraponto, entre Leviatã e O Mal-Estar na Civilização, regido pela hipótese central que as perpassa: a função restritiva do Estado, sobre as paixões naturais do homem, em Freud forças instintivas, para a viabilização da vida em sociedade.