
Texto apresentado no Seminário
O mundo que o Português criou
CULTURAS,
CULTOS E ETNIAS
Nelson
Rosas Ribeiro
[(*)]
Considerações
Iniciais
Antes
de entrar no tema a que me proponho gostaria de fazer algumas
considerações que me parecem importantes.
1
- É uma certa ousadia estar participando de um seminário sobre um
tema mais próprio para pessoas de outra formação. Tentarei
tirar vantagem dessa diferença fazendo uma abordagem tendenciosa de um
economista cuja formação e experiência de vida, passada em
três continentes, obriga a uma visão do mundo igualmente
tendenciosa pois se situa do lado do oprimido, do colonizado, do explorado, do
"mundo que o português criou", ou seja, centrada no
"lado de baixo do equador". Confesso que procuro ver o mundo de
cabeça para baixo.
2
- Minha visão tendenciosa já se manifesta na escolha do
título desta comunicação "Cultura, cultos e
etnias". Com estes conceitos tenho a intenção de igualar
colonizadores e colonizados, criadores e criaturas, descobridores e
descobertos. Com eles posso, por exemplo, equiparar a um culto qualquer, a
religião católica e a igreja à instituição
representativa de um desses cultos. O português pode ser tratado como a
etnia branca portuguesa e contraposta às demais etnias. As culturas
podem ser confrontadas umas com as outras.
É
claro que isto não nos pode fazer esquecer as desigualdades do confronto
entre etnias pois a etnia portuguesa é econômica e militarmente
mais avançada e vai impor às demais etnias a dinâmica dos
interesses que representa. Não é, portanto, uma
relação entre iguais mais sim uma relação de
dominação e opressão, uma relação onde
há um polo dominante e um polo dominado.
3
- Se em relação ao conceito "etnias" o problema
não se põe, convém lembrar alguns riscos que assumimos
quando se trata de comparar cultos e culturas. Expressões do tipo
superior, inferior, avançado, atrasado, etc., são
impróprias mas, na falta de melhores termos esses serão usados
tendo por base o grau de desenvolvimento das forças produtivas dos povos
aos quais se referem. Não estaremos classificando as culturas e cultos
mas o grau de desenvolvimento econômico das etnias que as representam.
4
- Desde já quero alertar para a utilização de categorias
da teoria marxiana. Infelizmente, a ciência também está
sujeita à modas e atualmente Marx não está na moda,
aliás está mesmo proscrito. Daí ser necessário
pedir desculpas aos participantes por essa abordagem
"anacrônica" a que terei de recorrer por considerar, apesar
de tudo, a mais adequada ao que pretendo dizer. Serei forçado a
utilizar, por exemplo, o conceito de Modo de Produção e fazer
referência aos modelos Primitivo, Escravista, Feudal e Capitalista bem
como ao modelo Asiático, na sua modalidade Africana, Tribal ou de
Linhagem.
O
surgimento do capitalismo
O
período em estudo, neste seminário, séculos XV, XVI e
XVII, corresponde ao que se chama período da acumulação
inicial ou primitiva do capital. É um período de
transição, de passagem de um Modo de Produção a
outro. Se tomarmos como referência a Europa. assiste-se à crise do
Feudalismo e à gestação do Capitalismo.
Se
tomarmos como referência a economia mundial, o fenômeno é
ainda mais complexo pois estarão em choque não só os modos
de produção europeus mas os existentes no resto do mundo, ou
seja, a comunidade primitiva e as várias versões do modo de
produção asiático.
A
esse nível assiste-se ao início do processo de
globalização com a integração das mais
longínquas regiões do mundo para a formação do
mercado mundial com a violenta expropriação do excedente
econômico feita pelo capital mercantil e a transferência de todo
tipo de riqueza para o núcleo capitalista em formação na
Europa. Por outro lado, "liberta-se" duplamente a força de
trabalho, quer seja dos entraves feudais, quer seja dos meios de
produção, formando o mercado de força de trabalho,
condição igualmente necessária para o surgimento do
capitalismo.
Esses
processos de expropriação são acompanhados pela
coação extra-econômica de caráter militar.
Os
séculos considerados abrangem, portanto, uma zona de fronteira e
não é de estranhar que muitos dos debates neste seminário
reflitam a dificuldade do trabalho nestas zonas.
As
condições para a hegemonia
Nessas
circunstâncias três condições são primordiais
para que um país assuma a hegemonia do processo:
O
domínio das técnicas de navegação libertará
o comercio dos entraves feudais, do banditismo nas estradas, dos saques
às caravanas de mercadores, dos tributos cobrados, etc.
O
domínio das técnicas militares será o elemento decisivo
para a submissão dos povos e a garantia do negócio.
A
existência daquilo que é chamado de capital
pré-capitalista, o capital, que assume as formas dinheiro e mercadoria,
formas características do capital mercantil, e que é acumulado
pelas atividades dos mercadores e comerciantes da época, trazendo
consigo a experiência comercial ,submete à sua dinâmica
povos e culturas e põe a seu serviço os cultos e a cultura das
etnias vetores, no caso presente, a etnia portuguesa.
A
ação inconsciente do colonizador
Nessa
ação, o colonizador age movido por forças que desconhece e
que se apresentam mistificadas e travestidas de modo vário. Além
do instintivo impulso para acumular riquezas, há o desejo de conquistas,
a procura da glória, a libertação de lugares sagrados, a
submissão dos infiéis, a catequese, etc.
O
contato entre os colonizadores e os colonizados é complexo, multilateral
e tem efeitos contraditórios.
Por
um lado representa a submissão do colonizado, a destruição
da sua cultura, de seus cultos, de sua língua, de seus costumes e mesmo
a eliminação física da etnia dominada.(veja-se o
genocídio das populações nativas das América).
Todas as regiões conquistadas são usadas em função
dos interesses do colonizador e nesse mister não há qualquer
consideração de ordem moral ou ética. Este é o
aspecto destruidor da relação.
Por
outro lado, o colonizador é o vetor da construção do novo
modo de produção que surge, é o integrador dos povos,
é o portador de novos conhecimentos, de novas técnicas e
instrumentos, é o difusor dos elementos de progresso entre as
várias etnias e regiões do mundo . Este é o aspecto
progressista da relação.
O
que se passou chega ao conhecimento dos estudiosos através de
documentos, descrições e testemunho vivos incorporados às
manifestações culturais, cultos e tradições das
diferentes etnias.
Na
análise dessas fontes o estudioso deve, evidentemente precaver-se quando
tenta estabelecer as relações entre a economia, como base da
análise, e as diferentes formas de manifestações
culturais, religiosas, políticas, ideológicas, etc., pois essas
relações não são diretas e têm
freqüentemente muitas intermediações. Se a
observação meticulosa dos etnólogos e antropólogos
é de grande valia, as interpretações apressadas devem ser
consideradas com cautela embora, no meu entender, a busca da causalidade dos
acontecimentos históricos e o estabelecimento de hipóteses gerais
a partir do estudo de casos singulares e particulares deve ser sempre tentada e
é o objetivo do conhecimento científico.
O
mundo Atlântico: Brasil e África
Na
ação da etnia branca portuguesa como missionária da nova
ordem capitalista que surge, deixaremos de lado a zona do pacífico
limitando a nossa abordagem à zona do Atlântico.
Aí
destacamos dois tipos de ações distintas em relação
à África e ao Brasil, o que se deve, no nosso entender,
fundamentalmente, ao nível de cultura e desenvolvimento que existiam nos
lados do oceano.
No
Brasil, o modo de produção existente é a comunidade
primitiva, com etnias nômadas, atividade recoletora, com uma insipiente
prática de atividade agrícola, desconhecendo o trabalho escravo e
com uma cultura e práticas religiosas muito primitivas. Nessas
circunstâncias os nativos não estão aptos para determinados
tipos de atividades econômicas.
Na
África o modo de produção dominante é o
Asiático na sua versão Africana ou de Linhagem. Sob este modo de
produção vivem etnias nômadas e sedentárias com
conhecimento de técnicas agrícolas, pastoris e artesanais e algum
domínio da fundição de metais. Já existem as etnias
comerciantes, o que demonstra a existência de uma divisão social
do trabalho bastante avançada. O nível de desenvolvimento da
produção já exige uma organização
política complexa, além de uma cultura e práticas
religiosas avançadas. Neste modo de produção, baseado na
atividade da "família" camponesa ("família
africana", é claro), os cultos e tabus religiosos, são
imprescindíveis para a organização da
produção. Podemos mesmo dizer que eles têm também a
função de organização da produção e
manutenção da ordem política. Toda a
estruturação da sociedade está disciplinada pela
religião sem a qual ela é impossível. O poder é a
reprodução em escala maior da hierarquia familiar, daí o
seu caráter incontestável. O trabalho escravo não é
praticado exceto quando ligado a obrigações e rituais religiosos.
Ainda não existe uma estratificação de classes sociais
antagônicas. Este tipo de sociedade ofereceu e continua a oferecer uma
resistência formidável à desagregação.
A
caracterização de diferentes modos de produção dos
dois lados do atlântico fornece um precioso elemento teórico para
a análise do comportamento do colonizador no Brasil e na África,
bem como para a avaliação das conseqüências do
tráfico negreiro e da escravidão no Brasil.
Por
um lado, a comunidade primitiva existente no Brasil assinará a
sentença de morte para as etnias nativas e imporá a
importação dos negros na condição de escravos,
única forma possível de recrutamento de mão de obra
necessária às atividades agrícolas naquelas
circunstâncias. As condições climáticas e
geográficas aliadas à lógica da acumulação
primitiva do capital trará para o país a cultura da cana de
açúcar. Aí estão os elementos básicos da
ação da etnia branca portuguesa no Brasil, alguns séculos
mais tarde sintetizadas na expressão de um usineiro: "A cultura da
cana só é possível graças ao pescoço dos
bois, braços dos negros e gritos dos brancos".
Por
outro lado o modo de produção de linhagem, existente na
África dará à ação do colonizador outras
característica e sobre estas características dedicarei o restante
de minha comunicação uma vez que tenho trabalhado nos
últimos anos sobre esse tema.
O
mundo africano
No
que se refere ao "mundo que o português criou" na
África, as minhas afirmações fundamentam-se nos estudos
efetuados, na participação em seminários e nas pesquisas
de campo feitas em Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde.
A
maior dificuldade da exploração dos países africanos
está na impossibilidade de expropriar dos produtores diretos o meio de
produção terra. Não existe a propriedade privada da terra
mas sim a posse comunal dela, pela tribo. A população é
numerosa mas a terra é abundante. As etnias dominam técnicas de
guerra e a imensidão do território torna praticamente
impossível a conquista militar. Essa diferença pode ser vista,
por exemplo, no método de apreensão de escravos. Enquanto no
Brasil as famigeradas "bandeiras" são
organizações para prear índios na África tal tipo
de empreendimento não é praticável. O colonizador entrega
a função de captura dos negros aos próprios negros
estimulando as seculares inimizades e contradições
inter-étnicas e limitando-se a comprá-los nos pontos de embarque
. Isso exigia apenas fortificações para a
preparação dos lotes mas também a necessidade de que esses
fossem feitos em curtos espaços de tempo a fim de evitar fugas e
revoltas ou tentativas de libertação por parte dos parentes das
vítimas.
O
povoamento de Cabo Verde é em parte decorrente dessa necessidade. As 10
ilhas não são habitadas antes da chegada do português. Pela
sua posição geográfica elas serão utilizadas como
apoio às navegações entre os dois continentes, como pouso
para o descanso das tripulações e carga e como depósito de
escravos. La eram misturados os membros das diferentes etnias, antes das
grandes travessias a fim de dificultar as comunicações entre os
negros, pelas dificuldades de idiomas, e consequentemente as revoltas. Afirmam
alguns especialistas que a origem da língua crioula é
precisamente a necessidade de comunicação entre os escravos de
diferentes etnias. Apesar de toda a repressão certo número de
negros conseguia fugir e refugiar-se nas zonas mais montanhosas das ilhas
formando núcleos de "rabelados", espécie de quilombo
cabo-verdiano.
O
colonizador português age de forma muito inteligente manipulando
habilmente as contradições inter-étnicas, utilizando-se da
estrutura de poder local e inserindo-se nela. Reconhece a autoridade dos sobas,
régulos ou mais-velhos, procura controlá-los e, através
deles, obter os resultados econômicos que pretendem ao tempo em que
vão desagregando a hierarquia tribal. Do ponto de vista militar a
introdução da arma de fogo é o elemento decisivo para o
desequilíbrio
Estes
resultados econômicos incluem alguns produtos agrícolas,
matérias primas e produtos como metais, pedras preciosas, marfim, peles,
etc., além dos escravos negros. No mundo africano português,
talvez o negócio dos escravos tenha sido o mais vantajoso. A
apreensão de negros atingiu um tal volume que em Angola, por exemplo,
são referidas cartas de Régulos, dirigidas ao Rei de Portugal,
apelando para que os comerciantes portugueses fossem contidos na sua sanha de
comprar escravos sob pena dos régulos não terem mais
súditos para comandar. Os meios de troca mais disputados eram as armas
de fogo que tornavam possível a completa subversão da hierarquia
tribal e facilitavam o aprisionamento de mais escravos.
Em
cada país há um considerável numero de etnias com
diferentes graus de rivalidades . Dentre elas sempre uma ou outra ocupou o
papel dominante das demais. A ação do colonizador limitou-se a
derrotar essa etnia dominante ou controlá-la. Com isso o controle da
sociedade estava garantido. Para as demais etnias era indiferente se o
dominador era branco ou negro. Tal ocorreu, por exemplo, em Angola onde a
liderança foi disputada pelos Umbundos, Kimbundos e Kicongos, sobre
algumas dezenas de outras como os Mumuilas, Mucubais, Cuanhamas, etc. Na
Guiné-Bissau detacaram-se entre os dominadores os Fulas, Mandingas e
Balantas estando entre os dominados também dezenas de outros como os
Papeis, Bijagós, Manjacos, Mancanhos, Felupes, etc.
As
populações locais são aptas para o trabalho
agrícola e este trabalho faz parte de sua cultura. Por estarem em seu
meio escraviza-los seria impossível. A questão está em
convencê-los a agirem de acordo com os interesses da etnia dominante,
agora branca.
Mais
uma vez a criatividade do português resolverá o problema com uma
medida que surte um duplo efeito. O estabelecimento de um tributo a ser pago em
dinheiro, por cada homem ou por cada palhoça construída. Como a
economia não é monetarizada e as culturas são em grande
maioria para auto consumo as populações para conseguir dinheiro
são obrigadas ao trabalho assalariado ou ao cultivo das chamadas
culturas de exportação, impostas pelo colonizador. Ao mesmo temo
dava-se uma forte contribuição para a monetarização
da economia.
Com
a monetarização da economia, aqueles que se adaptavam ao trabalho
assalariado conseguiam concentrar alguma forma de riqueza o que
contribuía para a desagregação da hierarquia e da moral
tribais. Serve como exemplo o "lobolo", espécie de
indenização paga pela família do homem à
família da mulher com quem se pretendia casar. Funcionava como
indenização pela perda de um trabalhador que se transferia para a
outra família. Esse montante de dinheiro e bens era de tal forma elevado
que só podia ser conseguido pelo "soba" que, com isso, tinha
o poder de determinar quem devia ou não casar. As atividades
monetarizadas, criando a possibilidade de acumular riqueza sob a forma de
dinheiro, passível de ser guardado e escondido, cria também a
possibilidade do desrespeito às determinações dos chefes
minando a sua autoridade.
Do
ponto de vista religioso a catequese das etnias negras não se torna
possível. As etnias muçulmanas são constituídas de
inimigos, infiéis a serem liquidados e, portanto, não
passíveis de catequese. As etnias animistas facilmente incorporam mais
uma entidade (o deus cristão) ao conjunto já existente de
entidades, espíritos ou "irãs". Incorporam-no e
continuam com as suas práticas. Como se não bastasse, há
uma profunda incompatibilidade entre as relações familiares
africanas (com a generalidade da poligamia) e o sistema monogâmico
cristão. (Um exemplo desta capacidade de anexação das
entidades cristãs pode ser encontrado nos rituais afro-brasileiros).
O
idioma da etnia branca teve um papel contraditório dependendo das
características de cada região. Não se pode esquecer que o
idioma é o vetor da cultura do opressor e tem, portanto, um
caráter desagregador e reacionário. No entanto é
inegável o seu papel progressista ao tornar acessível aos
diferentes povos o conhecimento científico só passível de
ser adquirido através dos materiais escritos e que não poderiam
sê-lo sem a língua do colonizador, além de possibilitar a
comunicação entre as etnias e nações.
Em
alguns países como Angola, por exemplo, o português passou a ser
usado como idioma da unidade nacional pois permitiu o entendimento entre as
dezenas de etnias que falavam línguas diferentes. Em outros
países, como Cabo Verde e Guiné-Bissau, o idioma português
contribuiu para a formação de uma outra língua de unidade
nacional, o "Crioulo", como reação ao idioma do
opressor.
CONCLUSÃO
Para
finalizar faria um pequeno reparo em relação à
expressão "o mundo que o português criou", embora a
considere literariamente elegante e muito significativa .
Não
se trata propriamente de um mundo criado pelo português.
Há
um regime agonizante no mundo. No seu interior gestam-se as
condições econômicas para o surgimento de um novo sistema e
Portugal pouco tem a ver com isso.
A
necessidade exige de forma imperiosa que do velho nasça o novo. Por
casualidade Portugal será chamado para ser o parteiro deste nascimento,
papel que saberá muito bem desempenhar, à sua maneira, isto
é, à portuguesa.
Há
fatores que explicam o porque deste papel e muitos deles foram apontados nestes
3 dias de debates. Outros estão por descobrir.
Mas,
o que é a casualidade senão a forma de manifestação
da necessidade?
Diante
dos fatos históricos, aparentemente casuais e aleatórios, os
estudiosos procuram a sua causalidade, para torna-los explicáveis e
lógicos.
Nem
sempre o conseguem.
No
caso presente foi nossa intenção dar alguma
contribuição nesse sentido pois acho que é este
precisamente o papel do conhecimento científico.
[(*)]
Doutor em Economia e Professor Auxiliar do Instituto Superior de Economia e
Gestão da Universidade Técnica de Lisboa. Professor da
Universidade Federal da Paraíba.
|