
Texto apresentado no Seminário
O mundo que o Português criou
ELOS
PARTIDOS. ELOS TECIDOS
Marcus
J. M. de Carvalho
[(*)]
Num
daqueles seus textos inspirados, Eric J. Hobsbawm lembrou que existem alguns
temas que são muito difíceis de se tratar, não tanto pelos
problemas empíricos ou teóricos inerentes à pesquisa
histórica, mas devido a outras questões de natureza ética
e ideológica. Entre esses temas estão o estudo da
escravidão e tráfico de escravos a partir da Idade Moderna, e da
catástrofe demográfica dos habitantes das Américas na Era
dos Descobrimentos. Esses assuntos envolvem problemas éticos que,
sejamos francos, ainda não foram satisfatoriamente resolvidos pela
humanidade. O resultado é que o historiador muitas vezes se sente
obrigado a dar uma série de explicações secundárias
- visando deixar claro que não concorda com o que aconteceu com os
índios e escravos - e pode terminar se esquecendo de analisar as
evidências originais levantados na sua própria pesquisa.
Claro
que todo bom texto sobre esses temas pode servir na luta contra o racismo e
etnocentrismo, ainda tão vivos no mundo de hoje. Mas é preciso
também muito cuidado para não ficar preso nas armadilhas no
caminho. São muitas as veredas paralelas atraindo o historiador que
corre o risco de cair em controvérsias intermináveis. Dessas que
facilmente degeneram em discussões meta-históricas, em debates
meramente ideológicos e até político-partidários,
disfarçados em discussões acadêmicas. Isso pôde ser
visto durante as celebrações do centenário da
Abolição, em 1988, e durante o quincentenário da chegada
de Colombo, em 1992. Foram inúmeros os congressos em torno dessas duas
datas. Quem andou por esses encontros, presenciou muita coisa boa, claro. Mas
também teve o dissabor - ou divertimento, como preferir - de assistir
debates intermináveis, arengas mesmo, em cima de questões
eminentemente políticas e/ou ideológicas.
Apesar
de tanta confusão foram definidas algumas tendências que serviriam
para nortear boa parte da pesquisa futura, e que certamente terão um
imenso impacto nos rumos da celebração dos quinhentos anos da
chegada de Cabral ao Brasil.
Uma
das heranças mais saudáveis dos debates de 1988 e 1992, foi
deixar-se paulatinamente de lado algumas discussões estéreis que
costumavam reduzir problemas históricos complexos a antinomias
simplistas. Houve um chamado ao bom senso. Assim, ninguém tenta mais
canonizar Colombo, nem fazer o oposto, crucificá-lo pelos males do seu
tempo. O homem e o mito foram reduzidos às proporções
devidas. Da mesma forma, ficou claro que nem se deve banalizar a
experiência do cativeiro, nem também reduzir essa terrível
experiência humana a um dado na equação mais ampla da luta
de classes. Esse debate foi superado. Utilizando uma expressão de
João José Reis, regra geral o escravo nem era um Zumbi nem um pai
João, mas um sujeito histórico, com seus anseios e fragilidades,
lutando pela sobrevivência contra dificuldades imensas. A nova
História Social busca entender essas pessoas, que eram capazes tanto de
grandes heroísmos no simples cotidiano, como de buscarem apenas
sobreviver no calor dos momentos de perigo.
A
verdade histórica não é unívoca e plana, mas um
processo, um constante vir a ser que envolve um grande número de
variáveis. Há muitas faces a serem reveladas, e sempre algo novo
a se descobrir. Partindo desses princípios, têm surgido
vários trabalhos buscando entender o contato entre diferentes grupos
humanos. Eu gostaria de falar um pouco sobre a formação dos elos
culturais, políticos e sociais entre as pessoas, só que enfocando
o contato entre os índios e os africanos, os dois principais grupos que
foram forçados às novas condições impostas no Novo
Mundo.
Quando
se trata de estudar as relações dos grupos oprimidos entre si, do
século XVI ao XIX, os problemas começam logo nas escolhas
teóricas e metodológicas. O que aconteceu nas Américas foi
algo realmente novo, um desafio que exigiu o emprego de novas abordagens. Isso
desde o início do período colonial pois, mesmo para os europeus,
que desembarcaram nas Américas com toda a autoridade de conquistadores,
no começo foi difícil equacionar mentalmente a nova
experiência de modo a colocá-la dentro dos referenciais
lógicos do mundo já conhecido por eles. Havia um limite na
própria linguagem empregada, o que levou Colombo a chamar os habitantes
de "índios" - como se fossem da Índia - ou a pensar que o tal
"canibal", tão temido pelos nativos encontrados pelo genovês, era
gente do grande Khan, das estórias de Marco Polo (Zea, 1991). Não
fica difícil, portanto, compreender a dificuldade dos pensadores
ocidentais em entender o que viria a ser chamado de Novo Mundo.
Mas
o choque não foi apenas para os recém chegados. Para quem
já estava ali há muito tempo houve uma
transformação radical do mundo em que vivia. As comunidades terra
a dentro foram esfaceladas pela enorme mortalidade causada pelas epidemias
trazidas do velho mundo, pela guerra de conquista e escravização
em massa.
A
expansão do comércio distorceu o perfil da economia local. E
não seria muito dizer que afetou também as relações
políticas. Caciques enriquecidos tentaram comprar a graça de
Felipe II com 100 mil para que se acabasse a encomienda.
1
Por
último, os índios perderam suas terras.
Essa
reviravolta existencial aconteceu em praticamente todas as Américas.
Alguns até mais terríveis, como no caso dos Incas e Astecas -
duas conquistas que quase não tiveram estágios. O fim chegou logo
no começo, rápido e brutal. O que se vê, portanto, é
que o Novo Mundo também era novo para os próprios habitantes do
continente, pois eles também não tinham referenciais precisos
para entender o que lhes estava acontecendo.
Muitos
grupos desapareceram. Outros foram enfraquecidos até o limite. A
sobrevivência tornou-se cada vez mais difícil. No Brasil, os que
fugiram para o interior devem ter espalhado a notícia dos males trazidos
pelo homem branco. Isso ajuda a entender porque os povos da Amazônia,
que não participaram do contato inicial, preferiam fugir a encontrar o
branco. O contato inicial terminou sendo mais difícil no interior do que
na costa, onde os povos no século XVI tinham curiosidade em conhecer
visitantes vindos de tão longe em suas imensas embarcações
(Henley, 1996).
Mas,
em todo o Novo Mundo, quem não fugiu para longe, por escolha ou falta de
alternativas, teve que adotar novas estratégias de sobrevivência.
O resultado é que vários grupos indígenas, antes
independentes, ou até inimigos entre si, terminaram se unindo. Ou agiam
assim ou desapareciam. O caldeirão cultural por que passaram não
foi menor do que aquele experimentado pelos europeus e africanos nas
Américas. Analisando um caso na América do Norte, James Merrell
acha que não é exagero dizer que talvez tenha sido até
maior. Houve, portanto, um corte profundo com o passado. Os antigos ocupantes
da terra conquistada tiveram que reconstruir suas identidades, abaladas pela
nova (des)ordem.
Com
o avanço do projeto colonial, as relações de
exploração aprofundaram-se, gerando até remanejamentos
conceituais, pois faltavam palavras para se nomear tudo o que acontecia de
novo. A linguagem da documentação denota o cruzamento dos
destinos dos índios e africanos desde o começo, quando os
indígenas passaram a ser chamados casualmente pela
documentação de "negros da terra". Escravos africanos
e cativos indígenas se eqüivalem aqui na condição
servil. (Galloway, 1989. Pires, 1990. Curtin, 1991. Monteiro, 1994).
Da
perspectiva indígena, um outro sintoma do corte com o passado
pré-colombiano foi o emprego pelas fontes portuguesas no período
colonial do termo "mocambos de índios", ao se referirem a
algum grupo de índios cativos que havia fugido e que ameaçava a
ordem senhorial. Na terminologia da época, o termo mocambo é
sinônimo de quilombo. Parece estranho falar-se de um quilombo que
não seja de negros. Todavia, a linguagem desses documentos não
poderia ser mais exata. A razão é simples. Dentro dos
estabelecimentos agrícolas e das vilas havia escravos indígenas
de várias procedências, os quais se consideravam tão
diferentes entre si quanto quaisquer pessoas de etnias diversas hoje em dia. Ao
fugirem e se juntarem no mato, não podiam recriar uma única
cultura pois eram pessoas de origens diversas. A rigor, portanto, estavam
construindo uma nova sociedade, tal como faziam os negros de diferentes
procedências ao se aquilombarem. Mocambo de índios, portanto
é um termo bastante preciso para retratar essa situação de
recriação de raízes, de liames entre explorados, de
instrumentos de resistência cultural e militar.
Esse
choque, essa mudança radical não foi sentida apenas pelos
índios. Pode-se dizer que essa história praticamente se repetiu
com os africanos que aqui chegaram. Isso não somente devido a
escravização - o que por si já é muito - mas
também por diversos outros motivos. O principal deles pode ser visto
facilmente. Basta uma olhada mesmo que displicente no mapa da África
para perceber que aquele continente tem praticamente o dobro da área da
América do Sul. E enorme diversidade natural e humana. As
Américas foram o ponto de encontro de inúmeras etnias daquele
continente, num verdadeiro melting pot. Resultou daí o surgimento de uma
população mestiça, e a criação de novas
culturas. O Novo Mundo foi uma mudança radical para aqueles que
enfrentaram a travessia do Atlântico nos navios negreiros.
Os
africanos e os seus descendentes partiram em busca da
reconstrução da identidade a partir da experiência social e
política possível. A fusão de grupos diversos foi
também inevitável, como mostraram as obra de Freyre, Bastide e
toda a historiografia subsequente. Por causa disso, o candomblé surgiu
na Bahia e não em Benin. Na África, cada Orixá protegia
uma comunidade separada das demais. No Brasil, os Orixás tiveram que se
unir para lutarem por uma causa comum: a resistência cultural dos negros.
Da
mesma forma em Pernambuco e noutros lugares, gente mesmo que de etnias
diversas, quando compartilhavam do sofrimento terrível que era a
travessia do Atlântico nos navios negreiros, passavam a se tratar
mutuamente por malungos, o mesmo que companheiro ou camarada. Koster e
Tollenare disseram que esse era um laço muito importante em Pernambuco.
A historiografia internacional reconhece a força dessa
ligação em outros locais das Américas (Price, 1979.
Craton, 1982. Slenes, 1991-1992).
Paralelamente
a essas várias fusões, existiam também as divisões,
tanto entre os índios como entre os africanos. Algumas destas
divisões foram herdadas dos antepassados. Eram anteriores à
época do contato - quantos ódios não deviam haver entre
povos que há tempos matavam-se uns aos outros, e que depois passaram a
se venderem mutuamente para os brancos. Esse processo teve paralelos em toda a
África sudanesa. Como se não bastassem esses legados tão
negativos, outras cisões foram construídas no fluir das
experiências de vida das pessoas que se (des)encontraram no Novo Mundo.
"Novo" para todos, vale repetir.
Convém
observar que, apesar das fusões, os conflitos herdados, em alguns casos,
foram até acirrados, principalmente nas áreas de conquista
recente, onde as populações locais ainda não haviam
percebido que, apesar de suas desavenças centenárias, o homem
branco era, na realidade, o adversário mais perigoso de todos. Na
historiografia sobre o Nordeste no século XVI e até XVII,
não faltam evidências de que os colonos foram diplomatas
hábeis, forjando alianças com alguns grupos indígenas para
combater outros. Não só aldeias, mas até
nações inteiras foram exterminadas graças a esses acordos.
Gabriel Soares de Souza deixou muito claro que os Caité foram uma dessas
nações. Pressionadas na guerra pelos colonos de um lado, e pelos
seus inimigos indígenas do outro, foram empurrados até a costa,
onde foram massacrados.
Aconteceu,
portanto, uma enorme confusão entre grupos deslocados, ou relocados, com
identidades étnicas a se redefinirem ao sabor dos acontecimentos.
Até raças, tão facilmente percebidas no começo da
colonização, com a miscigenação ganharam um novo
conteúdo ideológico pois, as barreiras tornaram-se um pouco mais
flúidas à medida em que avançava o capitalismo,
branqueando os mestiços que acumulavam riqueza, e escurecendo os que
empobreciam. Com o passar do tempo, a ideologia racial no Brasil foi sendo
afetada por esse processo. A noção de raça diluiu-se,
até que foi praticamente substituída pela noção de
cor, num claro contraste com o modelo norte-americano, onde as
noções de raça e etnia combinaram-se num sistema de
relações raciais bastante singular.
Apesar
dessa mestiçagem, no começo dos século dezenove ainda
ficavam mais ou menos evidentes as diferenças entre a elite brasileira e
a elite lusitana. Entre os brancos, e livres em geral, a nacionalidade ainda
pesava paralelamente a outras considerações de classe e status. A
formação de uma consciência das nuanças raciais e de
cor fica clara em episódios bastante singulares da história. Foi
assim nos dias em que a tropa comandada pelo capitão pardo Pedro Pedroso
tomou a cidade do Recife em fevereiro de 1823. Dizem os contemporâneos
que, na ocasião, o povo na rua cantava os versos: "Marinheiros e
caiados / todos vão se acabar, / porque só pardos e pretos, / o
Brasil hão de habitar". Vale a pena refletir sobre essa
distinção entre "marinheiros" e os
"caiados". Os marinheiros eram os portugueses. Os caiados, no
contexto pernambucano, eram os brancos brasileiros. A expressão é
de uma profunda sutileza, pois caiado é uma parede pintada de branco com
cal. A cal elimina insetos, purga, limpa. A cor branca aqui, portanto, fora
adquirida e não herdada geneticamente. Simbolicamente os traços
de negritude foram apagados pela riqueza. Ao dizer que tanto os marinheiros
como os caiados iam ser eliminados em benefício dos pardos e pretos,
esse verso denota uma clara consciência de raça e cor por parte
dos não-brancos que se percebiam como pardos e pretos, engajando-se
assim na luta contra o sistema.
É
nesse caleidoscópio de culturas, que as ciências sociais buscam
entender as relações entre africanos e indígenas, e entre
estes e os homens brancos. Se adicionarmos aí os mestiços,
vê-se que a confusão é grande mesmo. O estudo das
relações entre esses grupos é um terreno difícil e
escorregadio.
Para
os historiadores, os acontecimentos do passado de relações
inter-raciais e inter-étnicas americanas nesse mundo novo nem sempre se
"encaixam", digamos assim, nos padrões conceituais sacramentados pela
academia. O resultado é que alguns dos temas da nossa História
Social resvalam no que Pierre Bordieu criativamente chamou do
"impensável", ou seja, uma situação objetiva que escapa ao
alcance dos referenciais teóricos com que costuma operar o observador, e
que, portanto, não pode vir a ser conhecida com o emprego puro e simples
do instrumental metodológico disponível para exercício do
seu trabalho de rotina. Quando um historiador depara-se com uma
situação desse tipo, precisa de muita criatividade para
não cair nas armadilhas dos modismos, dos modelos prontos e
estéreis. Ou pior ainda, fugir do assunto simplesmente.
Trouillot
emprega esta quase-categoria do "impensável" na análise da
Revolução do Haiti - um evento cuja radicalidade escapa aos
modelos comumente empregados para as outras ditas "revoluções" -
como a russa ou a francesa, por exemplo, que são muito mais facilmente
inteligíveis pelo instrumental teórico da literatura corrente.
Guardando as devidas proporções do cataclisma social (por que
não dizer teórico) que foi a Revolução Haitiana,
pode-se dizer que o historiador brasileiro depara-se aqui e ali com
situações limites senão totalmente, ao menos quase
"impensáveis".
Um
caso explícito de um enorme problema teórico e
metodológico para os historiadores é exatamente o estudo das
relações entre negros e índios, e destes com a
miríade de categorias intermediárias entre ambos. Vale ressaltar
que, no jogo do poder, as relações entre negros e índios
muitas vezes estavam mediadas por uma outra relação talvez
não tão cristalina, mas onipresente: aquela entre os brancos
ricos e todos os "outros".
Há
ainda um agravante ao problema da compreensão dessas
relações A documentação gerada pela necessidade de
se eliminar os focos de oposição é muito farta. Nela fica
claro o interesse dos colonos de origem européia e seus descendentes em
buscar alianças com grupos excluídos e deslocados para derrotar o
adversário do momento. Pouco se escrevia sobre as relações
construtivas entre os excluídos. Como o homem branco aproveitou-se das
divisões para dominar, e empregou negros para combater índios, e
índios para combater negros, restaram muito mais documentos sobre as
dificuldades de coexistência entre esses dois grupos, do que
evidências de cooperação.
Convém
admitir ainda que o espaço ocupado pelo homem branco esteve sempre em
expansão. O que restou, o espaço da resistência das
raças oprimidas, era concorrido, disputado palmo a palmo entre aqueles
que lutavam contra o dominador comum. Tanto que as compensações
para os índios, que cooperavam nas lutas contra os quilombos, eram
feitas através da concessão de terras. Algumas comunidades
indígenas tiveram a confirmação de suas glebas em
Pernambuco como pagamento por terem combatido Palmares. Qualquer leitura mesmo
que despretensiosa da historiografia sobre o assunto deixa claro que a
empreitada de Domingos Jorge Velho dificilmente teria sucesso sem a ajuda
daquele monte de caboclos e índios adestrados nas técnicas de
"guerra do Brasil", como se dizia na época (Price, 1979.
Carneiro, 1947. Freitas, 1978. Pires, 1990. Valle, 1992).
No
século dezenove a prática se repetiria. Os índios do termo
de Barreiros em Pernambuco foram empregados contra a Cabanada (1832-1835), que
incendiou a fronteira açucareira da zona da mata, entre Pernambuco e
Alagoas. Depois de debelada a insurreição, foram levados para as
matas do Catucá, do outro lado da província, para ajudar as
autoridades a dar cabo do quilombo do negro Malunguinho, que crescera durante
as brigas de branco da época da Independência, a tal ponto que, no
começo de 1827, os quilombolas ameaçavam tomar o Recife, segundo
a ata de uma nervosa reunião do Conselho de Governo da Província
(Carvalho, 1996).
Os
africanos que vieram para o Brasil também foram empregados em
operações militares. Até mesmo porque, vez por outra, eles
eram soldados aprisionados em guerras ocorridas na África. Essa
experiência militar anterior lhes seria útil na
formação de quilombos e nas rebeliões negras (Thornton,
1992). Paradoxalmente, esse treino poderia vir a servir o sistema. Os senhores
também empregavam escravos em trabalhos que envolviam violência
e/ou coação direta. Isso também começou cedo. Nos
primeiros anos da conquista da América, faltava dinheiro para comprar
africanos, mas bastou começar a render a empreitada para que eles fossem
importados para todos os serviços. No alto Peru, escravos negros foram
empregados em várias instâncias pelos aparelhos repressivos
coloniais, aterrorizando os índios que não os percebiam como
companheiros de desdita, mas como adversários tão
terríveis quanto os brancos (Lockhart, 1983).
Quando
necessário portanto, soldados negros eram empregados contra
índios considerados hostis. No Nordeste, não poderia ser
diferente. Já havia escravos negros lutando contra os índios na
capitania de Itamaracá ainda na primeira metade do século XVI,
como viu Hans Staden. No século seguinte, o negro Henrique Dias, o
herói da vitória contra os holandeses, seria um desses
comandantes negros que brigou contra os indígenas do interior de
Pernambuco. Não é absurdo especular portanto que deve ter havido
africano ganhando sua alforria dessa forma: ajudando os brancos a combaterem os
índios. Mais tarde, com a economia colonial já organizada, a
profissão de capanga entrou no rol de atividades desempenhadas pelos
escravos no Brasil. Não faltaram crimes cometidos por negros a mando dos
seus senhores na história colonial de Pernambuco. Houve inclusive
atentado contra governador, perpetrado por negros que talvez fossem escravos.
Ao viajar pelo interior no começo do século XIX, Henry Koster
alugou dois desses escravos para se proteger (Koster, 1816. Pires, 1990. Cabral
de Mello, 1995).
Apesar
de tantas evidências, ainda sabemos pouco sobre as várias facetas
da mobilização de escravos pelos senhores de terra, visando
combater seus adversários na política local. Armavam alguns, ou
até muitos, dos seus negros durante as intermináveis e
onipresentes brigas de família. Faziam o mesmo nas cisões
políticas mais profundas. Aconteceu na Guerra dos Mascates, na
Insurreição de 1817, na Confederação do Equador e
na Praieira.
2
Mas
havia casos em que as tropas de negros escapavam ao controle e terminaram
saqueando além do que era permitido. Foi assim que aconteceu com o
batalhão de rebeldes comandado pelo "crioulo" Elias, durante
a Praieira. Armado pelo seu senhor - o dono do engenho Inhamam, um dos maiores
de Pernambuco - Elias foi nomeado Tenente-Coronel do exército praieiro.
Só que exagerou, digamos assim. Nos ataques aos engenhos dos
adversários, os proprietários rurais matavam e até
permitiam roubos, mas havia limites, ditados pelas noções de
honra patriarcal. Elias e seus comandados não seguiram nenhuma das
regras de luta entre senhores de terra, e saiu atacando os engenhos dos
adversários dos praieiros com muito mais gana e agressividade do que as
demais tropas rebeldes (Autos, 1849).
Nas
áreas de colonização antiga, como Pernambuco, a imensa
maioria da população original foi exterminada antes da metade do
século XVII. Como tema os índios que não viviam nas
missões ou perto delas, ficaram um tanto quanto de fora da
historiografia sobre os séculos XVIII e XIX. Na literatura sobre as
insurreições liberais da primeira metade do século
passado, eles reaparecem claramente. Participam dos eventos como partes nas
relações clientelísticas, estabelecidas entre as aldeias e
os potentados rurais que as cercavam. O clientelismo não é um
"dado" estático, auto-explicativo, mas uma
relação entre partes, no caso as comunidades indígenas e
os potentados rurais. Isso não significa dizer que essas partes eram
iguais. Muito pelo contrário. O clientelismo é uma
relação assimétrica. Todavia na troca desigual existente,
o índio buscava também ganhar alguma coisa. A posse da terra, a
manutenção de uma certa autonomia e da hierarquia interna eram
parte desta contrapartida exigida por eles para pegarem em armas defendendo os
interêsses de uma, ou várias, das facções em luta
pelo poder político local. Não eram apenas as peças de um
jogo maior, mas agentes históricos buscando forjar seus próprios
destinos.
Na
revolta de 1817, as tropas da Coroa foram substancialmente reforçadas
por gente recrutada nas aldeias próximas a vila de Porto Calvo, no que
viria a ser a fronteira entre Pernambuco e Alagoas. O viajante Tollenare, que
estava no Recife quando a rebelião foi derrotada, disse que os
habitantes ficaram assustados com a presença daqueles índios
armados e semi-nus, vagando pelas ruas de um Recife que tentava europeizar-se a
duras penas. Em que pese a existência de muitos estudos sobre 1817, a
mobilização de soldados-índios em 1817 em Pernambuco
espera o seu historiador. Nas Alagoas, todavia, já se começou a
estudá-los, sendo encontrados alguns liames entre essa
mobilização e a Cabanada, quinze anos depois (Almeida, 1995)
Nessas
lutas senhoriais, algumas comunidades ficavam do lado vencedor, quase que
invariavelmente o lado da ordem imperial, e garantiam a posse da terra por mais
algum tempo. Outras, estavam do lado dos derrotados, o que apressava a
invasão do latifúndio. De uma maneira ou de outra, o que fica
claro é que, quando não era possível ficar neutro, as
aldeias se aliavam a alguma das facções em disputa. Ás
vezes eram forçadas a se bandear para um lado ou outro simplesmente. Mas
em muitos casos eram as comunidades quem faziam a escolha, procurando se
beneficiar da situação. As motivações dos
índios envolvidos não correspondiam diretamente aos
interêsses dos grupos em contenda. Índio quando se metia em
"briga de branco", como se diz até hoje em Pernambuco,
queria também ganhar alguma coisa. E, sabiam da fraqueza dos
adversários. Um grupo deles rebelou-se contra a
Confederação do Equador (1824), em pleno apogeu liberal, e saiu
pelo interior, visitando as fazendas onde diziam aos escravos que eles eram
forros. Não surpreende saber que estes rebeldes - índios
absolutistas e que defendiam Dom João VI, segundo relatos oficiais -
seriam massacrados pelas tropas dos próprios confederados, tão
libertários em seus manifestos urbanos e tão autoritários
em suas práticas diárias como senhores de escravos (Carvalho,
1989).
Esse
emprego de índios em atividades militares é portanto muito
antigo. Tão antigo quanto o uso de africanos para o mesmo fim no Brasil.
O resultado é que desde muito cedo na História colonial
brasileira que os africanos eram empregados contra os índios, e os
índios contra os africanos. No resto das Américas, isso
também aconteceu.
Mas,
e o outro lado da moeda, a cooperação entre índios e
negros? Ela pode ser encontrada também em várias esferas. Em
alguns casos é possível literalmente ver os seus resultados, pois
vivem muitos negros e pardos nas aldeias existentes no Nordeste hoje em dia.
Não pode haver evidência mais óbvia de séculos de
coexistência e colaboração do que gerar filhos e
criá-los juntos. Mas em alguns casos, até isso terminou
também servindo ao latifúndio. Durante as reformas liberais das
últimas décadas da monarquia brasileira, um dos argumentos mais
utilizados pelas autoridades para a extinção de várias
aldeias, era justamente o fato delas não serem constituídas
somente de pessoas que poderiam ser racialmente definidas como índios,
de acordo com as teorias raciais em voga na época. A cor da pele era o
que interessava aos observadores legais, e não a forma como as pessoas
identificavam e percebiam a si mesmas. Dizem duas teses recentes que a
mestiçagem com negros e outros despossuídos seria utilizada pelos
senhores de terra, gado e gente para justificar o esbulho em Pernambuco (Valle,
1992. Silva, 1995).
A
cooperação entre índios e negros também pode ser
observada nos resquícios arqueológicos deixados pelos quilombos
americanos melhor estudados. Existem claras evidências da
adoção de práticas e tecnologias indígenas, das
quais a mais visível seria a cerâmica. No caso do Nordeste,
escavações feitas na área do Quilombo dos Palmares sugerem
que fica até meio difícil separar os núcleos de
ocupação indígena do quilombo negro propriamente dito
(Funari, 1996). As trocas culturais eram necessárias na
resistência, inclusive na alimentação. A
expedição que atacou Palmares em 1645, encontrou dendezeiros por
lá, nada mais africano que essa planta. Mas também encontrou
farinha para encher os bornais dos soldados - nada mais indígena do que
a mandioca. Isso sem falar da presença de alguns índios que
trabalhavam para os quilombolas. Na expedição de Fernão
Carrilho, em 1677, foi morto João Tapuia, um afamado comandante do
quilombo. Com um nome assim, quem sabe não era ele um índio, ou
um descendente das alianças circunstanciais ou permanentes entre as
raças excluídas (apud Carneiro, 1947)?
Esses
laços revelaram-se também em Pernambuco durante a Cabanada
(1832-1835). Nessa guerra, índios, caboclos, escravos fugitivos, gente
do setor de subsistência e até alguns militares e senhores de
terra, uniram-se lutando contra a ordem. A motivação
explícita era defender a volta de Pedro I, que abdicara do trono em
1831. A motivação implícita era combater os senhores
locais, ligados aos liberais urbanos, que aproveitaram o hiato entre a
monarquia autoritária e a nova ordem quase-republicana da Regência
para se lançarem sobre as terras das matas. Só que nas matas
também havia homens. Homens que lutaram. Muitos até o fim. Os
cabanos formavam, literalmente, o que as fontes chamavam de "gente das matas",
talvez o termo mais exato para se denominar aqueles rebeldes pois, os
índios, quilombolas, e uma miríade de outros excluídos que
se uniram na guerrilha, criaram uma nova identidade para si a partir da luta, a
identidade cabana (Andrade, 1965. Lindoso, 1983. Carvalho, 1989. Almeida, 1995).
Mas
isso tudo é parte do passado. No presente, é na religiosidade
popular nordestina que permanecem alguns dos fragmentos mais evidentes dessa
luta dos excluídos por terra e liberdade. A aliança entre
índios e escravos foi recriada simbolicamente. Isso fica claro como a
luz do sol no culto da Jurema Sagrada, que já foi chamada a mais
brasileira das religiões, por juntar elementos africanos,
indígenas e cristãos. Diz um verso de um ponto de chamada de
índio:
"Caboclo
índio, índio africano
Caboclo
índio do Juremá."
3
Caboclo
índio e índio africano são duas imagens religiosas que
refletem bem essa experiência histórica que separou e uniu, que
fragmentou as identidades pré-existentes, e as recriou a partir da
resistência, adaptações e estratégias de
sobrevivência.
Mais
significativo ainda é a presença de entidades que tiveram
existência real. "Malunguinho", o quilombola que reinou nas
matas do Catucá na primeira metade do século dezenove, é
Rei das Matas, nos pontos cantados em seu louvor durante o culto (Carvalho,
1996). E, "Canindé", um temido líder indígena
na chamada Guerra dos Bárbaros na virada do século XVII para o
XVIII, também fez-se divindade, aparecendo também como um povo de
guerreiros, os "canindés", que lançam flechas
certeiras protegendo os fiéis dos seus inimigos. (Hemming, 1978. Pires,
1990).
Talvez
a maior homenagem que um povo possa prestar aos seus heróis seja
alçá-los ao panteão dos seus Deuses. Entre outras coisas,
cabe a história recuperar a dimensão humana desses personagens.
Ainda há muito o que se fazer sobre isso.
NOTAS
BIBLIOGRAFIA
CITADA
ALMEIDA,
Luís Sávio de.
Memorial
Biographico do Capitão de Todas as Matas
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Ph.D. em História da América Latina. Professor de História
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