
Texto apresentado no Seminário
O mundo que o Português criou
A
PRESENÇA PORTUGUESA E AFRICANA DIANTE DOS ÍNDIOS
Maria
do Socorro Ferraz Barbosa
[(*)]
O
Seminário Internacional - O mundo que o português criou -
promovido pela Fundação Joaquim Nabuco tem, entre outros, o
mérito de oportunizar discussões e teses de especialistas,
professores, diplomatas e pesquisadores sobre temas polêmicos e
instigantes.
Abordaremos
nesse bloco - o povoamento europeu e os contatos com os indígenas e
africanos - estudos sobre "A presença portuguesa e africana diante
dos índios".
Nesse
bloco as descobertas serão sobre o outro. O outro homem. No Brasil o
Império teve que contar com homens. Por esta razão é que
há tantas descrições dos contatos entre os portugueses e
os nativos.
Desde
cedo, foi a iniciativa privada que presidiu esta empresa. O texto da
Capitulação que regulava as relações entre grupos
privados e o Estado não se aplicou por igual no caso português.
Foi válido para as ilhas portuguesas e para o Brasil, não para a
África Portuguesa - que resultou numa grande empresa do Estado. De um
certo modo a construção do Império na Ásia foi
concebida como um prolongamento da política definida pelos portugueses
na expansão para a África.
O
Império na Ásia, se construiu, praticamente, entre 1480 - 1515.
Pode-se até afirmar que foi fácil, se compararmos à
construção do Império português na América.
Poderíamos refuzir a rede de rotas, apoiadas em feitorias, poucos
homens, pouco espaço, muitos produtos e muito comércio.
No
início da colonização - dos contatos, o rei pensou em ter
uma teórica feitoria de tipo africano e quase perdeu a colônia
para os franceses; ocupado como estava com o desenvolvimento da rota do
Índico - e com a construção do Império -
África e Ásia, com base no sistema de feitorias de
monopólio explorado em regalia pela Coroa, o Rei vai deixar que a
iniciativa privada ocupe esta parte da costa brasileira - flamengos holandeses,
negociantes de burgos, venezianos com os seus capitais.
Não
desejava perder as terras, estas lhe serviam como apoio na rota para o oriente.
Decidiu depois por uma exploração sistemática: organiza e
distribui - donatários. Portanto, necessitava de homens - homens da terra.
Os
homens da terra tinham antes da conquista um poder legítimo, tanto civil
como privado e uma sociedade fundada na ordem natural.
Os
que chegavam se baseavam no direito da conquista, que por sua vez se
fundamentava na superioridade - tecnológica, cultural e filosófica.
Com
os portugueses, os índios contactaram um novo idioma, novos conceitos e
novas idéias. A língua portuguesa teve ao mesmo tempo um papel
unificador, imprescindível na questão da dominação
e destruidor das culturas nativas. Os índios falavam em outra
língua para expressar uma nova realidade. Muitos dos novos objetos,
conceitos e idéias não encontravam vocábulo e paradigmas
em suas próprias línguas. Com os portugueses chegava um novo
conceito de tempo e de hierarquia; às vezes chegava não um novo
conceito, mas verdadeiramente o conceito de uma situação
inexistente antes da conquista, como por exemplo, o conceito de propriedade
privada, ou o conceito de trabalho compulsório para o lucro, ou mesmo a
idéia de mercado e de lucro. Por outro lado, a outra forma de sociedade
encontrada no Brasil não se agregou ao português como uma
possibilidade de realização na Europa. Imediatamente essa
sociedade foi reconhecida com bastante anterioridade e atraso o qual as
sociedades européias haviam experimentado primitivamente.
Contudo,
os portugueses aprenderam e levaram do Brasil informação sobre
geografia e alimentação que muito importava naquele momento.
A
cultura portuguesa, diz Magalhães Godinho
1,
conhecia do mundo oriental uma geografia mítica tradicional,
possivelmente a geografia muçulmana e uma geografia cristã de
mercadores e missionários, certamente formulada após as
conquistas na África e na Ásia.
Apesar
de alguns mapas-múndi, anteriores ao século XV, desenharem uma
confirmação, que se pode chamar de América e ou Brasil, a
verdadeira geografia do Brasil vai ser escrita e desenhada pelos navegadores,
viajantes, mercadores e missionários que aqui estiveram, contactaram com
a terra e a gente. São as "Memórias" de Martin Afonso
de Souza, o "Tratado da Terra do Brasil e a História da
Província Santa Cruz" de Pero de Magalhães Gandavo, a
"Informação do Brasil e de suas capitanias (1584)" de
José de Anchieta, "Cultura e Opulência do Brasil pelas minas
de ouro" de André João Antonil e a viagem ao "Rio das
Almanzonas", de Raposo Tavares, ente outras.
A
primeira História do Brasil escrita em finais do século XVII pelo
Frei Vicente do Salvador dá uma visão oficiosa do cenário
da chegada dos portugueses na Bahia: "ali desembarcou o dito
capitão com os seus soldados armados para pelejarem, porque mandou
primeiro um batel com alguns a descobrir campo, e deram novas de muitas gentios
que viram; porém não foram necessárias armas, porque
só de verem homens vestidos e calçados, brancos e com barba (do
que tudo eles carecem) os tiveram por divinos e mais que homens, e assim
chamando-lhes Caraíbas, que quer dizer na sua língua coisa
divina, se chegaram pacificamente aos nossos."
2
Com
essa descrição pode-se pensar na descoberta do outro.
Provavelmente uma descoberta mútua. A realidade misturava-se aos mitos e
lendas de ambas as sociedades - a letrada e a ágrafa. A Carta de Pero
Vaz de Caminha é o primeiro documento que fala desse contato com o
outro. Mas é sempre do não índio que temos a
informação sobre o que pensou o índio
Escreveram
os cronistas que os europeus agregaram ao seu padrão alimentar o milho,
o fumo, cacau, tomates, batatas, quinina, mandioca e outros; aumentaram a sua
tecnologia e melhoram o seu padrão visual têxtil com a tinta do
pau-brasil. Fizeram bons negócios com os tecelões dos
Países Baixos e da Alemanha. Repreenderam a vida "permissiva dos
índios mas terminaram por imitá-la e criaram termos novos que
abrandavam suas ambigüidades como - o viver em colônia. Isto
significava mudanças nos hábitos, nas crenças, nos medos.
Significava viver em constante ritmo de aventura.
Os
conhecimentos científicos se ampliam com obrigatórias
explorações geográficas. Os guias da terra, com o seu
conhecimento sobre o mundo americano e os exploradores trocaram
experiências e aprenderam e expandiram seus conhecimentos mutuamente.
O
conhecimento científico estimulou a reflexão filosófica.
Esta não levou o branco a pensar o índio como o outro, mas,
confirmou o índio como "ser inferior", que como
criança não tem responsabilidades. Confirmou também a
primeira necessidade do Império: homens para o trabalho dentro do
conceito de exploração e de escravidão. Com esta nova e ao
mesmo tempo velha visão de mundo organiza o tráfico de escravos
africanos, cria mitos como o do "bom selvagem", preconceitos como o
da "preguiça do índio". Tudo isto é novo,
portanto, tratado dentro de uma certa modernidade. Apenas um conceito,
provavelmente transferido das experiências com o oriente, será
aplicado por alguns escritores da época - o conceito de exótico
3:
"que é de país ou de clima diferente daquele em que vive;
extravagante, esquisito, estrangeiro".
Vários
europeus descreveram a relação entre brancos e índios, os
primeiros contatos e as primeiras impressões. Comparando os escritos de
Gabriel Soares de Souza e os de Gaspar Barlaeus, este tendo escrito no
século XVII e o outro no século XVI verificamos que os dois
escritores têm opiniões semelhantes sobre os índios nas
seguintes matérias:
Gabriel
Soares de Souza
4
escreveu muito sobre os Tupinambá e os classificou como bons
trabalhadores comparando-os com outras tribos.
"Tem
estes índios mais que são homens enxutos, mui ligeiros para
saltar e trepar, grandes corredores e extremados marinheiros, como os metem nos
barcos e navios, onde com todo o tempo ninguém toma as vellas como
elles; são grandes remadores ... são também muito
engenhosos para tomarem quando lhes ensinam os brancos, como não for
cousa de conta, nem de sentido: porque são para isso muito
bárbaros;" ...
Barlaeus5
faz uma descrição acurada sobre os índios e lança
opinião sobre a psicologia dos nativos como por exemplo: "com
grande tripúdio matam os prisioneiros, tendo-os engordado cuidadosamente
por alguns dias, e comem-nos assados em espetos. Marcham alegres para a morte
aqueles a quem está reservado tal destino, e publicando como de uma
resenha, as façanhas praticadas contra os seus próprios verdugos,
unfanam-se de não morrer sem vingança."
Entre
estes e outros cronistas não há nada que os assombre, nem que os
repudie. Não há espanto no contato. Há uma curiosidade no
conhecer melhor para mais prontamente dominá-los, porque o
Império necessita de homens.
O
contato com os habitantes do litoral pode ser descrito como uma descoberta,
algo de aprendizagem mútua, no início, mas, há uma
distinção entre esse contato e o que foi feito depois no momento
da expansão territorial.
No
interior os portugueses não se comportarão como se fosse o
primeiro contato com a aprendizagem. O que aconteceu no interior foi uma luta
pela terra, na ocupação com o gado, a presença da Igreja,
através das missões - a mão longa da
colonização. Para os nativos, não acostumados a esta
presença, a outra língua, ao novo direito de conquista, era o
espanto. É difícil sabermos o que pensavam os índios. Com
os estudos antropológicos contemporâneos pode-se responder a
pequenas indagações sobre as possíveis
reações dos nativos diante do trabalho compulsório, do
lucro e até do riso. Em um estudo - "de que riem os
índios" - o estudioso assevera que riem sobretudo de suas
fantasias. Nenhum cronista da época foi capaz de perceber o
fantástico mundo americano na cabeça dos índios.
Com
os portugueses chegaram outros homens, também pelo mar - os africanos -
que foram uma espécie de mediador entre o branco e o índio.
Responsáveis pela maior parte da população, os negros no
interior do País ensinaram português aos índios, foram seus
compadres e como elemento "exótico" estavam mais bem
preparados psiquicamente para os trópicos que o europeu. Trazendo suas
cultura, mais receitas culinárias e médicas, o fetichismo, o
islamismo, o sentido artístico nos seus cantos e danças.
Índios
e negros pertencentes a sociedades ágrafas não registraram em
documentos cartoriais suas impressões sobre os brancos; mas, o produto
dessas relações pode ser perceptível na realidade
brasileira: os índios que se constituíam em 2 a 3 milhões,
no momento do contato, são hoje apenas 240 mil. Os negros ocupando os
lugares inferiores da sociedade, em sua maioria. Os mestiços, almejando
o embranquecimento e defendem os valores aproximativos dos brancos para enfim
ocuparem esses espaços.
Culturalmente,
etnicamente surgiu, com o contato das três raças, uma sociedade
diferente - a sociedade brasileira.
NOTAS
BIBLIOGRAFIA
BARLAEUS.
História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil.
Recife: Fundarpe, 1980.
GODINHO,
Vitorino Magalhães. Ensaios sobre História Universal -1. Lisboa:
Livraria Sá da Costa, 1968.
MAGALHÃES,
Basílio de. Expansão Geográfica do Brasil Colonial. Rio:
Epasa, 1944.
SALVADOR,
Frei Vicente. História do Brasil - 1500 -1627. Companhia Melhoramentos
de São Paulo.
SOUZA,
Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil. Rio, 1851.
[(*)]
Doutora em História pela Universidade de São Paulo. Professora
Adjunta da Universidade Federal de Pernambuco.
|