
Texto apresentado no Seminário
O mundo que o Português criou
MERCANTILISMO,
ACUMULAÇÃO, OURO
EMERGÊNCIA
DE UMA ECONOMIA INTERNACIONAL
Elivan
Rosas Ribeiro
[(*)]
Nela
até agora não podemos saber que
haja
ouro, nem prata , nem coisa algu-
ma
de metal ou ferro; nem lho vimos.
Porém
a terra em si é de muito bom a-
res,
assim frios e temperados, como
as
de Entredoiros e Minho, porque
neste
tempo de agora os achávamos
como os de la.
1
As
trocas a longa distância bem como os centros de intercâmbio
comercial, na Europa existiram desde épocas anteriores ao período
em que se inicia o verdadeiro movimento de
expansão
européia, através dos Oceanos Indico e Atlântico, em
direção ao hemisfério Sul. Pode-se apresentar, como
exemplos, Hamwic (Southampton - Grã Bretanha), onde foram
encontrados vestígios do século VIII de
ferro,
bronze,
mós,
vidros
e
cerâmicas,
bem como de moedas com origens em França, Escandinávia e
Alemanha, ou Antuérpia, que no século XV já era um
importante centro distribuidor de pedras preciosas, que eram ali polidas e
cujas origens situavam-se nas mais variadas partes do mundo. Eram
zircões,
rubis
e
safiras,
que vinham do Ceilão;
lapis
lazuli
,
do Afeganistão; da Boêmia ,
granadas;
da Tchecoslováquia,
opalas;
da Península do Sinai e da Pérsia,
turquezas,
e assim por diante.
2
Uma
economia
mundo
é desde logo passível de ser desenhada a partir de
constatações deste tipo: existência de
trocas
comerciais
envolvendo
povos,
ou
nações,
ou distintas regiões do Globo, uma
cidade
coração
,
que desempenha papel de
centro;
regiões
semiperiféricas,
com funções centrais em simultâneo com as
funções de intermediação entre o
centro
e a
periferia;
regiões
periféricas.
É,
no entanto, apenas a partir da descoberta e exploração das minas
de ouro e prata do
Novo
Mundo
, aliados à
integração
da
Índia e de áreas do Sudoeste Asiático às economias
européias, que se pode falar da emergência de uma
economia
internacional pré-moderna
, integrada pela prática de
preços
mundiais
,
interdependentes e relacionados entre si, através do ouro.
É
o ouro, que do conjunto das mercadorias então existentes, presta-se com
maior perfeição aos papéis de
medida
de valor
,
padrão de preços
,
meio
de circulação
,
de
acumulação
e de
equivalente,
universalmente aceite.
A
moeda de ouro, acaba por transformar todas as outras moedas existentes
então, em meras figuras de representação do seu valor. E,
neste contexto, o papel do ouro é desempenhado com tanta
perfeição que a partir da utilização regular deste
metal ele passa a comandar todos os objectivos económicos e, é
tão grande o seu esplendor que os mercantilista, por exemplo, na sua
generalidade, pensam no ouro como o objectivo último das actividades
económicas das Nações, considerando-o, desta forma, a
única fonte de riqueza.
A
expansão
européia
iniciada no século XVI, mesmo que tenha sido objectivada pela procura de
novos espaços para produção de alimentos, como afirmam
alguns historiadores, foi animada pelo desejo de enriquecimento aliado à
curiosidade e espírito de aventura dos homens da época, e,
simultâneamente, inspirada na propagação da fé
cristã. Este movimento, objectivamente abriu uma nova era para as
sociedades humanas, em que pése a dúvida sobre a maior ou menor
consciência deste feito, permitindo a intensificação do
intercâmbio de produtos e possibilitando outras formas de
relações económicas entre os povos. E, neste aspecto, com
certeza Portugal protagonista da modernidade, foi um dos pioneiros desta
nova
era
.
Discute-se
a maior ou menor racionalidade da decisão de expansão
Atlântica por parte dos portugueses, mas é inegável que
motivos económicos -
acumulação
- e motivos religiosos -
cristianização
- estiveram sempre lado a lado, como duas faces de uma mesma moeda. Estes
dois elementos presentes no acto colonizador, podem ser pensados como uma
necessidade histórica e parte da estratégia de
consolidação do
Estado
Nacional Português
.
Nesta perspectiva, torna-se impensável a acção do Estado
sem a Igreja e vice-versa. A
Carta
de Pero Vaz de Caminha
3,
dá-nos um testemunho da consciência da classe dominante sobre os
objectivos da expansão. Na referida carta, depois de esclarecer a
impossibilidade de afirmar a existência de ouro e prata, como o citado em
epígrafe, o escriba acrescenta.:
Águas
são muitas; infindas, e em tal maneira é graciosa que,
querendoa-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que
tem..
Porém
o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta
gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve
lançar.
Outros
documentos poderiam, quem sabe, esclarecer esta conjectura, entretanto, fosse
pela pouca importância que se lhes dava na época, fosse pelo
secretismo da
Corôa
Portuguesa
face às informações relevantes sobre o Novo Mundo, ou
até pelo desleixo de Sua Majestade, que nem sempre transferia para a
Guarda dos Arquivos Reais as correspondências que lhes chegavam às
mãos, supõe-se que muitos foram os documentos extraviados. O
extravio de documentos, por qualquer destas razões, deixa-nos na
incerteza sobre se haveria ou não alguma intenção oculta
para que somente em 1519 aparecesse o primeiro Mapa pormenorizado do novo
território encontrado ou porque, pelo menos até 1530, os
únicos recursos investidos na futura Colónia fossem, apenas,
correspondentes ao custeio de quatro armadas, destinadas claramente a uma
suposta proteção da Costa brasileira de incursões
estrangeiras. E, no entanto, é lícito, de qualquer forma, que se
pense, entre muitas outras conjecturas que, o relativo desinteresse pela
exploração económica do novo território contactado
seria uma simples consequência de duas contingências:
Uma,
a concentração dos esforços da Coroa Portuguesa nos
negócios da India; outra, a incerteza ou a completa ignorância
sobre a existência de ouro no interior daquele território.
Esta
situação sofrerá uma inflexão ainda na primeira
metade do Século XVI, conforme o testemunho de relatos da época.
No
Diário de Pero Lopes de Sousa, irmão do Governador de Terra
Martim Afonso de Sousa, nomeado por D.João III, com a data de 1533,
encontra-se, por exemplo, uma descrição pormenorizada da
missão que lhe foi atribuída pelo irmão. Dentre os
objectivos da referida missão estavam a defesa da Costa e a
fixação dos limites; a fundação de núcleos
colonizadores através da distribuição de terras; e a
nomeação de cidadãos para exercer ofícios. Data de
então a fundação da Vila de São Vicente, onde
surgirá em 1544 a Cidade de Santos, e a Vila de Piratininga.
Neste
período o empenho do Rei era, inequivocamente, a procura de ouro e
prata, a semelhança do Monarca de Espanha quando ordenou ao
exército de Cortez a conquista da américa Espanhola. É
válido pensar que os portugueses de então tinham presente, que
uma formidável riqueza estava contida no novo território
descoberto, que se constituia num imenso desafio ao engenho, audácia e
arte das elites governantes do seu país, a semelhança do que
representaram para a Espanha, o México, o Perú e a
Bolívia. Uma vez aceites os desafios, os resultados foram diferentes.
O espanhóis tiveram um êxito mais rápido, enquanto as
primeiras tentativas de internalização dos portugueses em busca
do ouro foram muitas vezes desastrosas. Como exemplo tem-se o caso relatado por
Francisco das Chaves, guia da expedição comandada por Pero Lobo,
trucidado pelos índios Carijós de Curitiba.
Apesar
da convicção sobre as valiosas riquezas, a primeira
notícia oficial sobre a existência do ouro no território
brasileiro foi dada por Dom Pero Fernades, primeiro Bispo do Brasil,
através de uma Carta a D. João III datada de Julho de 1552. O
impacto desta certeza fez mudar a forma institucional e estratégica da
colonização e foi criado e implantado o Sistema das Capitanias
Hereditárias. Esta nova modalidade de relacionamento com o
território descoberto procurava conjugar a procura de maiores garantias
e seguranças face aos agentes exteriores, com um melhor povoamento e uma
maior disponibilidade de capitais e de trabalho, mesmo que a custa da quebra do
Monopólio
estatal
sobre a exploração, a partir do recurso aos
capitais
privados
.
A
primeira capitania foi doada a Duarte Coelho Pereira em 10 de Março de
1534 e foi a Capitania de Pernambuco. Nesta altura Dom João III
expõe as suas intenções:
...
mandei dar a algumas pessoas que requeriam capitanias cinquenta léguas a
cada uma; e segundo se requerem parece que se dará a maior parte da
costa, e todas fazem obrigação de levarem gente e navios à
sua custa em tempo certo ...
4
Dos
documentos da época aqueles que maior interesse apresentam para a
reconstituição do pensamento português sobre o Brasil, que
se poderia rotular de "mercantilismo primitivo", são as cartas de
doação das Capitanias. Através destas cartas chegam-nos
com precisão as recomendações ou deveres que conduziriam a
obtenção de objectivos económicos e religiosos, dentre os
quais a normas específicas para o Comércio que, se por um lado
estimulam a liberalização das trocas e a iniciativa privada, por
outro, estabelecem com rigor o reforço do Monopólio real sobre
Comércio em conjunto com o de outras actividades económicas.
São relativos a este tema os escritos de João de Barros
5,
e as cartas de Luis de Góis
6.
São também de um grande valor documental da época, os
escritos do Padre Manuel da Nóbrega e do Padre José de Anchieta.
7
Estes padres pertenciam à Companhia de Jesus, que foi considerada por
muitos como verdadeira escola de arte, indústria e comércio.
Consciente
da necessidade de unir esforços para preservação de
tão vasto e valioso território, a Coroa, para os objectivos da
fé , alia-se à Igreja e para coisas da acumulação,
à iniciativa privada e, juntos,
Igreja,
Burguesia
e
Estado,
por meio das a acções independentes e autónomas das
Missões,
obra sacerdotal, das
Entradas,
empreendimentos privados e das Bandeiras, espécie de estatais, partem em
busca da salvação de almas para Deus e do
Eldorado
para os homens.
A
colonização passa, neste período, a ser do ponto de vista
económico um empreendimento do tipo
join venture
muito embora isto não ponha em causa a tentativa de
controle
do
Estado
sobre os
negócios
coloniais
.
A mesma tentativa é feita sobre a
obra
missionária
,
muito embora com grandes resistências por parte dos religiosos,
nomeadamente dos jesuítas.
As
notícias sobre o ouro brasileiro vão provocar um efeito
conflituoso a nível do relacionamento dos portugueses com os demais
povos europeus e principalmente vem acentuar as rivalidades e disputas entre
Portugal e Espanha. Expressão daquela realidade moderna é, sem
dúvida um ditado popular que diz:
De
Espanha, nem bom vento, nem bom casamento.
É
na sequência deste processo que a Holanda vem a ocupar uma parte do
território da Colônia. Convém sublinhar que no
período imediatamente anterior à dinastia dos Filipes, em
Portugal, o comércio, a indústria e a agricultura atravessam
graves crises, porventura coincidentes com o crescimento económico da
colónia.
Apontam-se
como causas da crise, a circunstância de muitos fidalgos terem emigrado
para as cidades abandonando as actividades agrícolas; de muitos homens
activos terem sido recrutados para as viagens transatlânticas; do grande
esforço de investimento na colónia e da acção da
Santa Inquisição na perseguição e expulsão
dos judeus de Portugal.
A
Inquisição foi introduzida em Portugal durante o reinado de Dom
João III, que é caracterizado por muitos historiadores como uma
mistura de misticismo, "novorriquismo", corrupção, fausto
aparente e miséria real. Os
autos
de Gil Vicente dão-nos uma idéia desta situação,
através de sátiras e comédias. Justo será, no
entanto reconhecer que, no dizer de Oliveira Martins:
...Foi
ele o fundador da colonização do Brasil, foi ele o reformador da
universidade, foi ele que por todos os modos buscou então enfrear a
orgia da Índia, foi ele que suprimiu as mutilações e as
marcas de ferro dos criminosos. Apóstolo porém de uma
religião fanatizada, era quem acendia a fogueira onde o judeu ardia.
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Resta
acrescentar a este homem o relevante papel de ter sido, certamente sem o saber,
um dos impulsionadores da difícil tarefa da passagem de uma
economia
mundo
primária
a
uma
economia
internacional integrada
.
NOTAS
Temos
estudado com o desenvolvimento indispensável, o espírito desta
sociedade, que o destino aliou à existência do novo reino de forma
tal que a Companhia e o Reino são uma e a mesma coisa a partir do
século XVI
In
HISTÓRIA DE PORTUGAL, Guimarães E C Editores,1977.
[(*)]
Doutora em Economia e Professora Auxiliar do Instituto Superior de Economia e
Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
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