
Texto apresentado no Seminário
O mundo que o Português criou
AS
CONQUISTAS MARÍTIMAS PORTUGUESAS E A INCORPORAÇÃO DO
LITORAL DE SANTA CATARINA
Armen
Mamigonian
[(*)]
1.
Colonização européia, condições naturais e
modos de produção na América
Quando
os europeus conquistaram a América, as populações
indígenas estavam organizadas sob modos de produção
asiáticos (Impérios Azteca e Inca) ou em grupos tribais dispersos
nas zonas equatoriais e tropicais de um lado e nas zonas de climas frios dos
hemisférios norte e sul de outro. Os Impérios acima referidos
cobriam áreas habitadas por populações numerosas e com
altas densidades demográficas, ao contrário das demais e nelas
foi possível aos conquistadores espanhóis impor precoce e
militarmente o monopólio da terra, pois os milhões de
indígenas não teriam para onde ir, a não ser ficar nas
suas aldeias, enquadrados pela primeira instituição feudal nas
relações de trabalho no continente americano, a encomienda
1.
Nas
extensas áreas de climas equatorial e tropical e naquelas de climas
frios e polares viviam populações indígenas pouco
numerosas e nômades. Assim, diante da superabundância de terras e
extrema escassez de trabalhadores, a produção comercial de
gêneros tropicais (açúcar, etc), em pleno século
XVI, só pode se concretizar com o uso de relações
escravistas de trabalho, fazendo com que o monopólio do trabalhador
(escravidão), mais do que o monopólio da terra, se tornasse o
meio de produção fundamental naquelas circunstâncias,
excluindo o trabalho assalariado, que seria caríssimo e por isso
inviável.
Nas
áreas sub-tropicais e temperadas frias, com populações
indígenas escassas e sem maiores interesses imediatos à
exploração comercial, foram se viabilizando, ao longo do
século XVII em diante, a pequena produção mercantil, que
poderia garantir às metrópoles as vantagens da
ocupação territorial e a garantia e consolidação do
poder- colonial. As demais zonas climáticas, equatoriais e polares,
permaneceram por muito tempo, e mesmo até hoje, escassamente ocupadas
por populações indígenas em estado tribal, como na
Amazônia, norte do Canadá, etc
2.
Se
as relações de trabalho foram altamente influenciadas pelas
condições acima descritas, as terras da América,
conquistadas pelas nações européias, foram incorporadas
imediatamente ao patrimônio das respectivas coroas, obedecendo ao
dispositivo jurídico feudal de "all land is king's
land". Tratava-se da propriedade divisível entre a propriedade
direta ou nua pertencente à coroa real e o domínio útil,
concedido aos vassalos do rei, com o objetivo de aproveitamento imediato,
obedecendo ao outro dispositivo feudal fundamental de "nulle terre sans
seigneur" e garantindo o pagamento de tributos ao rei. Ignácio
Rangel foi o primeiro estudioso a perceber que o senhor de engenho do Nordeste
"brasileiro" no século XVI incorporava ao mesmo tempo dois
estatutos jurídicos aparentemente excludentes: um feudal e outra
escravista. Ele era vassalo do capitão donatário Duarte Coelho,
por exemplo, e portanto do rei de Portugal e era senhor de escravos no seu
domínio. As relações de propriedade eram feudais e as
relações de trabalho eram escravistas
3.
2.
As especificidades das formações sociais periféricas
americanas: o caso "brasileiro"
As
formações sociais que foram surgindo na América em
decorrência da expansão européia tiveram na verdade, dois
lados econômicos-sociais, um interno e outro externo. Procuramos nas
linhas acima caracterizar o lado interno, uma combinação entre
relações de propriedade feudais (das coroas européias) com
relações de trabalho específicas às
determinações naturais-humanas existentes: servidão nos
antigos Impérios indígenas, escravidão nos engenhos
"brasileiros", nas Antilhas e nas colônias meridionais
inglesas, além de pequena produção mercantil no Quebec
francês, nas colônias setentrionais inglesas, no litoral de Santa
Catarina, etc. De qualquer maneira as coroas reais européias foram
obrigadas a construir na América anfiteatros enfitêuticos de cima
para baixo (das coroas aos feudos), diferentemente do lento processo de
construção de baixo para cima (dos feudos aos reinos) como
ocorreu na Europa durante a Idade Média
4.
A
especificidade das formações sociais periféricas ao
capitalismo europeu nascente no século XVI incluía o lado
externo, liderado pelo capital comercial europeu implantado na América
(filiais comerciais monopolistas, em geral) acopladas às manufaturas em
expansão, em particular na Inglaterra. Caio Prado Jr. enfatizou
excessivamente o lado externo comercial, subestimando os modos de
produção combinados internamente (regimes de propriedade e de
trabalho distintos) e mesmo os modos de produção acoplados no
lado externo, articulando as colônias com suas respectivas
metrópoles (capitais comerciais e manufatureiros). O capital comercial
europeu na América estimulou e tirou proveito principalmente das
relações de trabalho compulsórias, escravidão e
servidão, que contribuíram à extração de
superlucros e à chamada acumulação primitiva
5.
Mas, além disto e paradoxalmente o sistema colonial, mais amplo do que o
próprio capital comercial, acabou estimulando a
implantação e expansão da pequena produção
mercantil, ante-sala do modo de produção capitalista, que foi
germinando lenta e precocemente nas colônias setentrionais inglesas, por
exemplo, desde o século XVIII.
Esta
combinação de dois modos de produção constituindo o
lado interno (relações de propriedade e relações de
trabalho) e mais dois constituindo o externo (capital comercial e manufaturas
capitalistas européias) foi identificada no caso brasileiro por
Ignácio Rangel como dualidades, conceito marxista que pode ser estendido
com proveito ao entendimento das formações sociais
periféricas criadas ou modificadas a partir do século XVI pela
expansão européia na América, na Europa oriental, na
Ásia e na África. L. Trotsky intuitivamente pressentiu a
utilidade deste raciocínio ao se referir aos comerciantes russos de
exportação-importação ligados à
indústria da Europa ocidental e mais tarde aos capitais industriais em
implantação vinculados aos bancos alemães, franceses, etc
6.
3.
O Povoamento da América portuguesa: avanço no Nordeste e atraso
no Sul
A
presença da coroa portuguesa no território colonial americano
começou a se efetivar pelo estabelecimento do sistema de capitanias
hereditárias e de doações de sesmarias, tipicamente
feudal. Delas Pernambuco foi a mais bem sucedida, mas a insuficiência dos
resultados em outras capitanias forçou o estabelecimento direto da
administração civil-militar portuguesa (Bahia), concomitantemente
à sobrevivência e mesmo à criação de novas
capitanias hereditárias até 1685 (Xingu, na Amazônia).
Apesar da imensidão do litoral do Nordeste, os engenhos de
açúcar foram se disseminando e estimulando a
ocupação policultora do Agreste e, a partir da Bahia e de
Pernambuco, a extensão da pecuária bovina pelo Sertão,
onde as enormes fazendas de gado efetivaram o monopólio da terra,
submeteram os índios sobreviventes à condição de
peões, dando origem, pela primeira vez, às relações
de trabalho feudais no Brasil (século XVII). O êxito da economia
açucareira nordestina levou à criação, até o
início do século XVII, de um arco de fortificações
litorâneas no eixo Bahia-Pernambuco e para o norte e para o sul, da
embocadura do Amazonas até São Vicente.
Enquanto
o povoamento do Nordeste avançava, o insucesso da produção
de açúcar em São Vicente levou ao surgimento de uma
economia natural mais modesta nas fazendas de lavouras que se expandiram pelo
litoral paulista, em direção ao sul: Itanhaém, Iguape,
Cananéia, Paranaguá, São Francisco, Desterro e Laguna, na
base de concessão de sesmarias, as últimas já no
século XVII, num povoamento esparso e de baixa densidade
demográfica. Completando as conquistas territoriais desta corrente
vicentista, a coroa portuguesa fundou a Colônia do Sacramento (1680) no
rio da Prata, num ato de audácia militar. Paralelamente, no planalto
paulista desenvolveu-se também uma economia natural, mas com destaque
à criação de bovinos, usando os campos naturais, à
base de sesmarias de grandes dimensões, que se expandiu também
para o sul, por estímulos da coroa portuguesa: Sorocaba, Itapetininga,
Itapeva, Ponta Grossa, Curitiba, Lapa, Curitibanos, Lajes, Vacaria, Cruz Alta e
São Borja, já nos Pampas gauchos
7.
Como
aconteceu no Nordeste, o litoral do Sul do Brasil, constituído de
enormes extensões em matas foi sendo desbravado muito lentamente e mais
modestamente. Assim, em 1712 Frézier passando pela ilha de Santa
Catarina, encontrou em Desterro apenas 147 homens brancos, alguns índios
e negros libertos, em "grande carência de comodidades da vida, que
em troca dos víveres que traziam a nós não aceitavam
dinheiro, dando mais importância a um pedaço de pano ou fazenda
para se cobrir"
8.
Já as áreas de campo do planalto meridional foram sendo ocupadas
por enormes sesmarias de gado bovino e muar, como no sertão nordestino,
e da mesma maneira se concretizou precocemente o monopólio da terra, em
especial nos Pampas do Rio Grande e os índios sobreviventes foram
obrigados a se tornarem peões das grandes estâncias, conjugando
relações feudais de propriedade e de trabalho
9.
Já no final do século XVII os campos do Brasil meridional
forneciam bovinos e muares a São Paulo e Rio de Janeiro (engenhos de
açúcar, etc) e mais tarde a Minas Gerais, de maneira semelhante
à vinculação do Sertão nordestino ao litoral, numa
precoce integração ao mercado nacional.
Enquanto
o povoamento dos campos meridionais estava garantido pela presença de
grandes estâncias, existindo apenas o problema das missões
jesuíticas nas pendências entre Portugal e Espanha, no litoral o
povoamento continuava muito escasso no início do século XVII,
comprometendo o reconhecimento do domínio português, como
demonstrou o Tratado de Utrecht (1715). Evidenciava-se a necessidade de
reforçar a presença portuguesa, sobretudo na ilha de Santa
Catarina.
4.
O Litoral de Santa Catarina: fortificações,
armações de baleias e povoamento açoreano
As
autoridades portuguesas logo após o Tratado de Utrecht começaram
a tomar as primeiras providências: o conhecimento mais apurado do litoral
ao redor da ilha de Santa Catarina, como aparece no expediente do rei de
Portugal ao governador do Rio de Janeiro, datado de 1717, pedindo exame das
qualidades da área: "... se no porto estão de todo o tempo
seguras as embarcações... se há abundância de peixe
e se pode haver pescaria de baleias... se feita uma fortaleza em terra firme
defendera que entrem levantados em outras quaisquer embarcações
e... se o povoasse dito distrito, poderá servir para aumento da nova
colônia...", como assinalou Célia M e Silva
10.
No mesmo sentido se manifestou o Conselho Ultramarino de Lisboa, relembrando os
recursos existentes na ilha de Santa Catarina (excelentes madeiras,
abundância de peixe e outros frutos da terra), propondo a
fortificação da ilha e o povoamento de seus arredores, como os do
Rio Grande e assim fechando "de todo pela costa o continente que pertence
à Coroa de Portugal" e concluindo que "finalmente,
crescerão as Rendas de Sua Majestade com estas povoações
porque haverá mais frutos na terra (... "gados, engenhos de
farinha e açúcar"... foram citados) e
estabelecer-se-ão contratos"
11.
Assim sendo, uma leitura cuidadosa desses documentos aponta a
insuficiência das explicações da historiografia tradicional
a respeito da ocupação da ilha e do litoral de Santa Catarina, em
meados do século XVIII: 1) ordem política, cobertura militar
estratégica (W. Piazza); 2) política expansionista da Coroa,
reforçamento da economia pecuária paulista nos pampas (F.H.
Cardoso); 3) necessidades estratégicas e não objetivos
econômicos (L. Hübener) e 4) segurança estratégica e
não integração no setor dinâmico de comércio
exportador (O. Bossle), entre outros autores
12.
Na
verdade, o segundo povoamento português no litoral de Santa Catarina, com
açoreanos e madeirenses (o primeiro foi o vicentista esparso do
século XVII), constituiu a maior intervenção do
planejamento estatal português no Sul do Brasil, tanto a nível
geo-político, como enfatizaram os historiadores tradicionais, como a
nível geo-econômico, já que o retorno comercial
(armações de baleias, etc) e a coleta das rendas reais
(contratos, impostos, etc) estavam calculados, a partir dos gastos militares e
de povoamento preliminares. As primeiras providências da coroa
portuguesa, como já se assinalou (informações,
elaboração de planos estratégicos, etc) foram tomadas
imediatamente após a assinatura do Tratado de Utrecht, mas as primeiras
medidas de execução demoraram, ocorrendo a partir de 1728 com a
abertura do caminho ligando o planalto catarinense ao litoral, em Laguna
(estrada de Araranguá), o estabelecimento em 1837 da colônia
militar no Rio Grande (na boca da Lagoa dos Patos), mas principalmente a partir
de 1738, quando D. João V criou a Capitania de Santa Catarina,
diretamente ligada ao governo geral no Rio de Janeiro e desdobrada de
São Paulo, englobando a ilha e o continente adjacente. Deve-se notar ser
provável que a depressão do comércio português a
partir de 1738 e que se prolongou para além de 1757, conforme V.M.
Godinho, tenha forçado a aceleração de medidas de
estímulo a novas atividades na colônia brasileira, sobretudo
durante o período pombalino, de fomento à produção
e de libertação da pressão do capital comercial
inglês, como assinalou F. Falcon, entre outros
13.
O
brigadeiro Silva Pais, o primeiro capitão, foi encarregado pela coroa
portuguesa de fortificar a ilha de Santa Catarina. Foram construídas em
poucos anos quatro fortalezas na entrada das baias norte e sul, entre a ilha e
o continente (Anhatomirim - 1739, Ponta Grossa - 1740, Ratones -1740 e Barra do
Sul - 1742) e mais tarde mais três junto a Desterro (1761-71). Assim, a
ilha se tornou o lugar mais fortificado da parte meridional da América
portuguesa. Ao mesmo tempo, a poucos quilômetros da maior fortaleza
(Anhatomirim), foi edificada, a partir de 1742, a armação da
Piedade, para obtenção de óleo de baleia, com enormes
instalações marítimas e manufatureiras, propriedade do
comerciante português Gomes Moreira, membro do Conselho Ultramarino, e
sócios (1742-53) e depois concedida a outros grandes comerciantes
portugueses, com Perez de Souza, Quintella, sucessivamente. Da ilha para o
norte foram construídas outras armações: Lagoinha (1772),
Itapocoroia (1778) e ilha da Graça (1807) e também para o sul:
Garopaba (1795) e Imbituba (1796), como assinalou M. Ellis
14.
Como
se pode perceber por essas rápidas pinceladas, na
incorporação do litoral de Santa Catarina à economia
colonial portuguesa houve um importante papel do grande capital
comercial-manufatureiro sobretudo de Lisboa, mesmo porque a
exportação de óleo de baleia para a Europa (Inglaterra,
Holanda, Alemanha, França, etc) teve um peso importante nas
exportações do Brasil na segunda metade do século XVIII.
A
instalação de 5 a 6 mil pequenos colonos açoreanos e
madeirenses no litoral de Santa Catarina (1745-1756) também foi uma
grande proeza da Coroa Portuguesa, ao lado das fortificações e
armações de baleia. Esse povoamento provocou
conseqüências mais duradouras e variadas: 1) grande
produção policultora, com exportações de farinha de
mandioca durante todo o século XIX para o Rio de Janeiro, Salvador e
Recife, tornando Santa Catarina, junto com o Espírito Santo nos dois
maiores abastecedores do mercado nacional; 2) integração dos
pescadores-madeirenses às atividades de pesca à baleia das
armações, convivendo com o trabalho escravo na parte
manufatureira, e a ascensão social dos arpoadores e timoneiros, melhor
remunerados, com a transformação de alguns deles em donos de
escravos e de terras no litoral catarinense; 3) migrações de
alguns açoreanos-madeirenses aos pampas gaúchos, onde se tornaram
estancieiros, o que foi facilitado pelo fim das missões
jesuíticas; 4) a permanência de terras de uso comum, que existiam
nos Açores e na Madeira, praticamente até o fim do século
XX, e 5) o uso da experiência de colonização em pequenas
propriedades, do tipo waldhufendorf (L. Walbel: capítulos de geografia
agrária e tropical, IBGE), pelas colonizações
européias no sul do Brasil durante todo o século XIX
15.
NOTAS
[(*)]
Doutor em Geografia pela Universidade de Paris I. Professor de Geografia da
Universidade de São Paulo.
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