
Texto apresentado no Seminário
O mundo que o Português criou
CONFERÊNCIA
DE ABERTURA
EMBAIXADOR
ALEXANDRE ADDOR
Primeiro,
quero desculpar-me pelo atraso, mas estava desde as 8 da manhã no
Galeão e o vôo matinal da VARIG foi cancelado. Só consegui
chegar no exato momento em que aqui apareci, direto do aeroporto.
Em
segundo lugar, dizer que é uma grande satisfação
participar de um seminário cujo próprio título tem a ver
com todo um trabalho de interpretação do Brasil, de
Ciências Sociais. Uma visão renovadora, criativa, em que ilustres
intelectuais, pensadores desta terra deram uma contribuição a
nossa percepção do Brasil. Joaquim Nabuco, patrono desta
Fundação, foi um homem que aliou a competência intelectual
a generosidade como ser humano, um dos grandes pensadores sobre o
fenômeno da escravidão, tendo afirmado que não se
alcançaria uma solução para esse problema sem alterar o
regime de propriedade da terra. Também Gilberto Freyre,
ilustríssimo pensador pernambucano, renovou profundamente a visão
brasileira das nossas heranças portuguesa e africana e da sua
fertilização recíproca. Quanto ao professor Manoel Correia
de Andrade, participante desta mesa, já há mais de 30 anos,
quando em 1965 prestei exame vestibular para a carreira diplomática, o
Instituto Rio-Branco indicava o seu livro "A Terra e o Homem no
Nordeste" como parte da bibliografia exigida. Estou me sentindo aqui
não como um acadêmico ou intelectual de profissão, mas um
diplomata muito orgulhoso de poder participar do ponto-de-vista do trabalho de
política externa do Brasil, embora o que vá dizer tenha um cunho
pessoal e não oficial.
Esse
mundo que o português criou engloba exatamente, além de outras
terras, os dois lados do Atlântico. Eu sou Embaixador do Brasil
também perante São Tomé e Príncipe, mas ainda
não conheço bem esse país, tendo apresentado minhas cartas
credenciais há poucos meses. Como a situação em Angola -
basta acompanhar pelos jornais - é difícil, exigindo muito
trabalho, muita atenção, a maior parte do meu tempo é
dedicada a seguir a situação de guerra e paz, representando o
Brasil e tentando reforçar a cooperação, que pode ser
fundamental para a reconstrução do país.
Creio
que as relações Brasil-Angola são muito ilustrativas
daquilo que esse mundo criado pelo português dos dois lados do
Atlântico tem hoje de positivo, de desafiador, mas, por outro lado, ainda
de insuficiente e frustrante. É um relacionamento que já tem
quase cinco séculos. Os portugueses chegam a Angola um pouco antes de
alcançarem o Brasil, na sua descida pela costa ocidental da
África, por volta de 1480 e só conseguem dar o território
como definitivamente conquistado recentemente, na década de 1920: houve
uma fortíssima resistência local ao seu domínio. Havia
vários reinos na região, fortemente estabelecidos, talvez sendo
os mais conhecidos os do Congo e de Angola.
E
o Brasil, embora tenha tido uma relação muito íntima com
Angola desde o século XVI, não dá a isso nos seus estudos,
a não ser da parte dos especialistas, a importância devida. O que
é que eu, que sou da geração de 1940, estudei de
importante, de aprofundado, dessa questão? Quase nada e isso é
parte da negação de nossa herança africana. O professor
Decio Freitas, do Rio Grande do Sul, em artigo que li no seu livro "A
Comédia Brasileira", diz que se estuda superficialmente a
questão da escravidão porque aos descendentes de escravos
incomoda a humilhação que seus antepassados sofreram e aos
descendentes dos senhores da vergonha a miséria humana imposta pelos
seus maiores. Não sei até que ponto está correta essa
visão psicológica, mas creio que serve para provocar o debate:
por que conhecemos tão mal uma instituição que marca 4/5
da nossa história?
Eu
sempre tive interesse político e pessoal de acompanhar o processo de
descolonização na África e, em especial, nos antigos
territórios portugueses, mas foi só quando me vi próximo
de ser designado Embaixador em Angola que comecei a estudar o assunto de modo
mais sistemático.
O
que existe de proximidade entre nossos dois países é espantoso.
Em primeiro lugar, durante o período colonial brasileiro e mesmo
até o século XIX as relações entre Brasil e Angola
são mais importantes do que as de Portugal com cada uma dessas
regiões: tráfico de escravos para cá e venda de tabaco e
outros produtos no sentido contrário. Há pouco, falava o
Professor Manoel Correia de Andrade da invasão holandesa nesta
região do Nordeste, que ocorreu de 1630 a 1654. Pois bem, na mesma
época, os holandeses ocuparam a região de Luanda, exatamente para
restabelecer o tráfico, já que, conforme registros
históricos, os escravos aproveitaram a guerra entre portugueses e
holandeses para abandonarem em massa os engenhos de açúcar,
ampliando a população do Quilombo dos Palmares. Em 1641 os
holandeses invadem Luanda, sendo expulsos em 1648 por uma frota brasileira
comandada por Salvador Correia de Sá. Como registro, Salvador Correia
era o nome do principal Liceu - ou Ginásio - em Luanda durante a
época colonial, que hoje tem o nome de um herói africano, Muto Ya
Kevela.
André
Vidal de Negreiros, herói da nossa guerra contra os holandeses, foi
Governador de Luanda. Eusebio de Queiroz, político influente no
Império e autor de legislação contra a escravidão,
foi um angolano que, a caminho das Cortes de Lisboa, fez escala no Brasil e
aqui permaneceu. Quando, em 1825, Portugal reconhece a nossa
independência, um dos artigos do Tratado diz ser vedado a qualquer
possessão ou colônia portuguesa anexar-se ao Império do
Brasil, exatamente porque a nossa soberania inspirou os autonomistas angolanos.
Todas
essas ligações, antigas e profundas, se reforçaram quando,
em 11 de novembro de 1975, o Brasil foi o primeiro país a reconhecer a
independência de Angola, proclamada em Luanda pelo líder do
Movimento Popular pela Libertação de Angola - MPLA, o
médico e poeta Agostinho Neto. Registro que houve outra
proclamação, na mesma data, feita em Huambo, no Planalto Central,
pelos líderes da UNITA (União Nacional pela Independência
Total de Angola), Jonas Savimbi, e da FNLA (Frente Nacional pela
Libertação de Angola), Holden Roberto; mas essa outra
"independência" não recebeu nenhum apoio internacional
e se perdeu.
A
independência de Angola, bem como a dos outros países africanos
lusófonos - Cabo Verde, Guiné-Bissal, Moçambique,
São Tomé e Príncipe - se deu num período
político extremamente difícil em Portugal, onde a queda do
salazarismo, em 25 de abril de 1974, na chamada "Revolução
dos Cravos", deu origem a uma situação de acirrada disputa
pelo poder. Cabe lembrar que um dos elementos essenciais dessa mudança
política foi exatamente a guerra colonial, que convenceu os
próprios militares portugueses nela envolvidos de que era o momento de
dar fim ao regime autoritário em Portugal, daí surgindo o MFA
(Movimento das Forças Armadas), o qual, com grande apoio popular,
derrubou o governo do Primeiro Ministro Marcelo Caetano. Salazar morrera em 1970.
Parece
curioso, nessas relações do mundo que o português criou,
interatlânticas, que, exatamente no período do General Geisel,
profundamente anticomunista, o Brasil tenha reconhecido, como governo
legítimo de Angola, não aquele dos movimentos alinhados ao
Ocidente (UNITA e FNLA), mas precisamente o MPLA, que se encaminharia para o
campo socialista. O Presidente Geisel adota a "política
africana" proposta à época pelo Itamaraty, como forma de
ampliar o espaço de atuação do Brasil junto aos
países recem-independentes de África e, no caso de Angola, a
análise política leva a conclusão de que, dentre as
alternativas de poder existentes, o MPLA era a mais viável, a mais
sólida.
Pretendo
depois falar da situação atual e de como o Brasil pode aumentar
sua presença em Angola, mas assinalo, desde já, que essa
presença tem sido importante nestes 20 e tantos anos após a
independência. Quando pensava em como organizar esta palestra, minha
idéia foi tentar relacionar passado e presente. Embora não seja
historiador, a gente sabe que a História é algo em
construção permanente. Não é apenas o passado que
determina o presente, o presente também determina o passado e a
História vai sendo reescrita; não estou falando do sentido
"stalinista", da famosa Enciclopédia Soviética, em
que se eliminavam personalidades ou atacavam adversários
políticos. Mas no sentido de que cada época tem as suas
preocupações essenciais, que vão influenciando as escolhas
dos temas e seu tratamento, reselecionando os fenômenos fundamentais,
reorientando, reinterpretando.
Julgo
que hoje o Brasil pode ter um papel fundamental em Angola, país que
conheço melhor, sendo aí Embaixador há mais de dois anos,
mas também nos outros PALOPS - Países Africanos de Língua
Oficial Portuguesa, cujos nomes citei há pouco, mas disso falarei mais
adiante.
Eu
não pretendia fazer uma exposição longa, mas às
vezes, por entusiasmo, perco um pouco o controle do tempo; o ideal seria que
tivéssemos bastante tempo para o debate.
Após
ter dado alguns elementos das ligações históricas, vou
falar das relações nos campos cultural,
econômico-comercial, cooperação científica,
tecnológica, educacional e da área de relações
políticas e diplomáticas. É evidente que cada item desses
se prestaria a um seminário inteiro, mas depois dessa
exposição geral passaríamos aos debates.
A
identidade cultural é muito grande e vou me restringir a alguns aspectos
de como ela repercute hoje. Quem já esteve em Angola e ligou o
rádio terá observado que mais de metade da música que se
ouve é brasileira. Mas a identidade não é apenas, digamos,
estética, mas também sentimental. Quando em 1994 o Brasil ganhou
a Copa do Mundo, fez-se um verdadeiro Carnaval em Luanda: a
identificação era de tal ordem que os angolanos
"tornaram-se" brasileiros: "ganhamos, ganhamos". Com
mais de 30 anos de guerra, o povo tem sofrido muito, mas há um elemento
que ele não dispensa: a novela brasileira. A televisão passa
novelas de outras origens, portuguesa, mexicana, etc., mas o que é
sempre tema de conversas e não pode deixar de existir é a
brasileira.
A
literatura brasileira - se deixarmos de lado a novela como forma de literatura
- tem hoje presença pequena, mas, no seu sentido tradicional, foi
essencial na formação da geração que fez a
independência, em 1975. Toda uma geração que tem hoje entre
quarenta e sessenta e tantos anos lia regularmente os autores brasileiros,
até por contraposição, como me disse certa vez um
dirigente, "por oposição à cultura do colono".
A revista "O Cruzeiro" era lida regularmente; o Vice-Ministro da
Cultura, compositor e poeta, me disse recentemente que uma de suas grandes
frustrações era jamais ter conhecido pessoalmente Rachel de
Queirós, cuja "Última Página" acompanhava
sempre nesta revista. Essa geração conhece Jorge Amado,
José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Bandeira, Drumond etc.
Em
contrapartida, afora os especialistas, o que conhece o brasileiro - mesmo
culto- de Antônio Jacinto, Rui Duarte de Carvalho, Manuel Rui Monteiro,
Arnaldo Santos, Henrique Abranches, Costa Andrade, todos autores excelentes?
Talvez brasileiros da classe média ilustrada conheçam alguns
textos de Agostinho Neto, por ter sido, além de escritor, o herói
nacional da independência e primeiro Presidente. Ou algo de Pepetela, por
ter recebido, este ano, o Prêmio Camões. Aliás, Pepetela
significa "pestana" em quimbundo, que o escritor Artur Pestana
adotou come nome de guerra na luta revolucionaria contra Portugal e permaneceu
como seu nome artístico.
O
que digo em relação a Angola se aplica aos outros PALOPS. Talvez
Mia Couto, de Moçambique, seja um pouco mais conhecido, pois já
foi editado no Brasil. Mas a conclusão geral é que se sabe quase
nada sobre esses autores e suas obras. E também, o que estou afirmando
em relação às letras é verdade quanto à
música, à dança, ao teatro, às artes
plásticas, ao cinema, enfim às manifestações
artísticas e culturais em geral.
O
desafio que lanço aqui é que se procure, no âmbito das
comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil e
de seminários como este, ultrapassar os muros da Academia e tentar
divulgar esse trabalho no Brasil. Os intelectuais e pensadores têm
influência na mídia; será que não poderia ser feito
um esforço para difundir essa produção? Isso é
essencial não só como enriquecimento cultural para nós,
mas também para viabilizar o desenvolvimento da literatura e das artes
em geral nesses países. Isso porque, com a queda do regime socialista, o
Estado deixou de ser mecenas como antes e os escritores e artistas têm de
buscar sobreviver em bases comerciais, em termos de economia de mercado.
Há
nesses países uma grande inexperiência de produção
cultural para o mercado, este próprio frágil e em
formação. Tendo o Brasil uma economia de mercado bastante
desenvolvida e representando cerca de 80 por cento dos 200 milhões
falantes de língua portuguesa estimados, pode ter um papel fundamental,
sem ser assistencialista, para viabilizar a divulgação de grandes
valores. Todos ganhariam com essa iniciativa.
No
caso específico de Angola, que teve o destino mais trágico de
guerra civil de todas as ex-colonias portuguesas, a questão cultural
hoje também se confunde com a busca de identidade, de raízes, a
valorização tanto da herança africana quanto da ocidental,
tema deste seminário. O conflito dilacerou o país, dividiu-o,
destruiu vidas e bens materiais. O que é ser angolano hoje? Eis uma
discussão que alguns setores começam a travar, no âmbito da
reconstrução nacional.
Quanto
as relações comerciais entre Brasil e Angola, foram importantes
nos anos 1980 e até 1991, com montantes da ordem de 250 milhões
de dólares anuais, em média, perfazendo um fluxo nos dois
sentidos superior a 3 bilhões nesse doze anos. A partir de 1992, com a
retomada da guerra civil, as trocas caíram para menos da metade desse
total e vem crescendo, gradualmente, a partir de 1995. No ano passado,
recebemos cerca de 150 milhões de dólares em produtos de
petróleo e exportamos entre 50 e 60 milhões.
É
hoje difícil interessar o empresário brasileiro no mercado
angolano. A imagem de Angola, aqui, é a pior possível. Para os
que conhecem algo, trata-se de um país potencialmente rico; alguns,
talvez, na opinião pública, nem saibam disso. O que se sabe
é que Angola é um país devastado pela guerra, onde se
pode morrer de malária - isso para resumir em duas linhas. Eu estou
há mais de dois anos lá, não tive malária. Creio
que há uma certa obrigação nossa de tentar dar uma
visão mais equilibrada. Por que? Nós também ficamos
irritados quando vem ao Brasil jornalistas europeus ou americanos, mostram a
seca do Nordeste ou a vida na periferia do Rio e São Paulo, a
violência policial, a criminalidade urbana etc., isto é, os
aspectos negativos e apresentam o Brasil como se fosse apenas isso.
Angola
enfrenta, evidentemente, grandes dificuldades, mas, para dar uma imagem mais
correta, é preciso citar dois aspectos. Primeiro, o esforço que
vem sendo feito para reconstruir o país; segundo, o seu enorme potencial
econômico: grande produtor de petróleo (800 mil barris
diários); riqueza mineral (entre o quarto e quinto maior produtor
mundial de diamantes); terras férteis (esteve entre terceiro e quarto
maior produtor de café e de algodão); águas piscosas;
belezas naturais, que podem servir para a exploração
turística; uma população pequena, entre 11 e 12
milhões, portanto, sem pressão demográfica digna de nota.
Aqui, no campo da Fundação Joaquim Nabuco, e também da
Fundação Gilberto Freyre e da Universidade,
instituições que se orientam pela pesquisa, pela busca da
verdade, fica mais um desafio, de tentar mudar uma imagem superficial,
às vezes sensacionalista, que, além de ser falsa, por parcial,
prejudica as relações entre nossos dois países.
Apesar
dessa imagem negativa, empresas brasileiras importantes atuam em Angola, com
uma visão estratégica, de longo prazo. A PETROBRAS,
através da BRASPETRO, desde 1979, a Odebrecht e FURNAS desde 1984, a
Andrade Gutierrez desde 1994, o SERPRO desde 1992. Existem ainda numerosas
firmas do Brasil trabalhando no comércio e em vários setores,
como construção civil, telecomunicações etc.
Brasil
e Angola mantém hoje diversas atividades no campo da
cooperação científica, técnica e
tecnológica. Trata-se de projetos coordenados pela Agência
Brasileira de Cooperação, a ABC, do Itamaraty, e cujo dia-a-dia
é acompanhado em Angola pela própria Embaixada. Os principais
parceiros são o MINARS - Ministério da Assistência e
Reinserção Social, que cuida dos deslocados e desmobilizados de
guerra e dos grupos vulneráveis e carentes da população,
mutilados, crianças, velhos, mulheres. Com o MAPESS - Ministério
da Administração Pública, Emprego e Segurança
Social, temos projetos na área de formação de recursos
humanos; com o da Saúde, em saúde pública e
prevenção; com o Ministério da Agricultura, projetos de
formação de quadros e de desenvolvimento tecnológico.
Na
área educacional, existem os Programas Estudante-Convênio, para
graduação, pós-graduação e ensino
técnico, através dos quais são oferecidas vagas em
instituições de ensino a estudantes angolanos, havendo hoje mais
de 600 no Brasil. Esse trabalho é coordenado no Itamaraty pela
Divisão de Formação e Treinamento e envolve ainda o
Ministério da Educação, sendo essa vagas oferecidas
também para numerosos outros países africanos e
latino-americanos. Está sendo elaborado projeto para
cooperação no campo do ensino à distância, com meios
audiovisuais.
Existe,
ainda, cooperação na área militar: algumas dezenas de
angolanos estão fazendo diversos cursos no Brasil e existe a
possibilidade de ida de missão militar brasileira, com fortes
componentes de engenharia e de saúde para apoiar a
reconstrução do país.
Nessa
área de cooperação uma das maiores dificuldades é a
escassez de recursos financeiros, pois o Brasil dedica fundos muito pequenos a
esse trabalho, que já tem, mas poderia ter muito mais, um grande peso na
obtenção de boa-vontade e influência para o Brasil.
No
caso de Angola - e dos outros PALOPS, existe, apesar dos fundos escassos, uma
grande vantagem: a preferência pelo cooperante ou instrutor brasileiro a
qualquer outro, não só pela facilidade de
comunicação em virtude da língua comum, mas também
por uma certa semelhança de atitude, de postura informal, comum dos dois
lados do Atlântico, que facilita muito o entrosamento.
Temos
também uma ligação forte na área da
cooperação político-diplomática. Essas
relações foram fortalecidas por duas visitas presidenciais: do
Presidente José Eduardo dos Santos ao Brasil em agosto de 1995 e do
Presidente Fernando Henrique Cardoso a Angola em novembro de 1996.
Aliás,
vou aproveitar a oportunidade para fazer alguns comentários sobre a CPLP
- Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, criada formalmente
em julho do ano passado, em Lisboa, numa cimeira de chefes de Estado e de
Governo dos 7 países, os 5 africanos, mais o Brasil e Portugal. Seus
três principais campos de atuação foram definidos como
sendo, primeiro, precisamente a concertação
político-diplomática, segundo, a consolidação e
difusão da língua portuguesa e, terceiro, a
cooperação. Essa concertação é o acerto de
posições comuns, em foros internacionais ou regionais, quanto a
assuntos de interesse também comum para os diversos países
envolvidos, por exemplo, temas de comércio internacional, a luta contra
a discriminação e o racismo, a defesa dos direitos humanos etc.
Nessa campo, o Brasil tem com Angola um entendimento antigo e sólido.
Quanto
à língua portuguesa, às vezes ouve-se a opinião de
que a sua consolidação e difusão como meta da CPLP teria
uma certa conotação neocolonialista, o que eu acho equivocado.
Nessa concepção, o importante seria valorizar não o
português - língua do colono, mas as diversas línguas
nacionais, como são chamadas em Angola: quimbundo, umbundo, tchocue,
cuanhama, ganguela, fiote etc. Acho essa visão fora de foco. O
português é obviamente a língua do colonizador e, por outro
lado, julgo essencial valorizar essas línguas, até para
reforçar a identidade dos diversos grupos étnicos que
compõem o país. Ocorre que o português é a
verdadeira língua de união nacional e, por outro lado, constitui
um instrumento essencial para que Angola - e outros países em
situação semelhante - possa ter acesso à modernidade.
Não
estou aqui fazendo um discurso da modernidade como valor em si, mas sim como
possibilidade de acesso a avanços e conquistas da
civilização, viabilizando o progresso material e melhores
condições de conforto para a população - acesso
esse muito mais fácil em português do que em qualquer dessas
línguas. Basta pensar em literatura técnico-científica ou
em programas de computador para entender a que me refiro. É claro que
pode até ser um exercício visto como de soberania, de qualquer
forma um exercício intelectual muito interessante, fazer versões
desses textos ou programas nas principais línguas nacionais, por exemplo
em Angola. Mas, evidentemente, do ponto-de-vista de eficiência, de
rapidez, o fato de já existirem em português facilita muito.
Além
de reforçar a unidade nacional, visto que há línguas
faladas nas diversas regiões, o português facilita, portanto, a
presença dos países africanos lusófonos no mundo da
globalização. Globalização também vem sendo
usada atualmente como termo mágico, mas é evidente que ela, como
tudo na vida, não tem apenas aspectos positivos. Como é um
fenômeno que não pode ser detido ou ignorado, o importante
é cada país, cada grupo social, tentar ter uma estratégia
em relação a essa globalização, para não
ser, simplesmente, vítima da globalização, mas se
posicionar diante dela. Em resumo, para mim, a consolidação e
difusão da língua portuguesa, no âmbito da CPLP, não
necessariamente terão um cunho neocolonialista.
Sobre
o terceiro campo de ação da CPLP, a cooperação,
já falei em relação a Angola - o objetivo seria contribuir
para o desenvolvimento socioeconômico e político dos
países-membros; pela desigualdade do desenvolvimento relativo existente,
neste campo o Brasil e Portugal teriam mais a dar e os PALOPS a receber, mas
isso não exclui fluxos de cooperação em outros sentidos,
seja entre os próprios PALOPS ou destes para o Brasil e Portugal, em
áreas de conhecimento bem específicas.
Já
comentei que o Brasil deu um grande apoio, portanto, desde 1975, à
independência proclamada pelo MPLA, em Luanda. Também houve,
recentemente, uma outra situação em que a atuação
do nosso país foi importante quanto à guerra em Angola. Em maio
de 1991, o Governo e a Unita firmaram os Acordos de Bicesse, que previam o
desarmamento e a reconciliação nacional e a
realização de eleições. Acompanhadas por
observadores estrangeiros e as Nações Unidas, as
eleições de setembro de 1992 foram declaradas livres e justas. A
UNITA, derrotada, não aceitou o resultado e retomou a guerra no seguinte
mês de outubro. Como levou menos a sério do que o Governo o
desarmamento, obteve numerosas vitórias; apenas em 1993 as forças
governamentais conseguiram readquirir a superioridade militar.
O
Brasil foi membro do Conselho de Segurança das Nações
Unidas em 1993 e 94 e contribuiu muito para que os demais membros deixassem de
tratar os dois adversários em pé de igualdade: estava-se diante
de um Governo legal e legítimo, por um lado, e de um movimento rebelde
que não aceitara, democraticamente, o resultado de
eleições justas - não podiam ser tratados identicamente.
Hoje, como é sabido, a UNITA está sob a ameaça de
sanções do Conselho de Segurança, para que abandone a
trilha da guerra e Angola possa finalmente alcançar a paz.
Qual
é a situação atual em Angola? A guerra de 1992-94 destruiu
mais, em matéria de vidas humanas e de bens materiais, em apenas dois
anos, do que os conflitos nos 20 e tantos anos anteriores. E isso porque, pelos
Acordos de Bicesse, já que a guerra terminaria e se obteria a
reconciliação nacional, a UNITA, anteriormente guerrilha
clássica agindo no campo, no interior, penetrou nas cidades. Assim,
quando desencadeou a guerra após as eleições, pode
destruir mais do que no passado, em especial porque o Governo estava
despreparado.
O
país ficou muito devastado e desestruturado. Há um drama humano
terrível, com famílias desfeitas, pessoas desaparecidas e
deslocadas, cerca de 70 mil mutilados pela ação das minas e
outros explosivos. Houve uma fuga em massa do interior para o litoral,
especialmente para Luanda, que tem infra-estrutura para atender 600 a 700 mil
pessoas e conta hoje com mais de 3 milhões de habitantes. Essa
migração maciça, a desorganização das
atividades econômicas e a canalização de recursos do Estado
para o esforço de guerra levaram a uma gravíssima
pauperização. A penúria e a posse de centenas de milhares
de armas pela população civil tende a gerar um aumento da
criminalidade.
Angola
enfrenta hoje sérios problemas de infraestrutura-abastecimento de
água e energia, transportes (inclusive portuários),
telecomunicações, serviços sociais, como saúde e
educação. Esses serviços podem ser ainda insuficientes em
países como o próprio Brasil, muito mais potente economicamente,
muito mais estável socialmente, mas o grau de carência em Angola
é muito maior.
No
campo político e militar, também há grandes dificuldades.
Em novembro de 1994, depois de dois anos de guerra devastadora, foi assinado o
Protocolo de Lusaca, em mais uma tentativa de se alcançar a paz. A
lógica do Protocolo é simples: a UNITA reconhece que perdeu as
eleições, se desmilitariza, desocupa os territórios que
controla e passa a ser um partido político normal: civil, desarmado. Em
compensação, passa a participar de um Governo de Unidade e
Reconciliação Nacional (GURN), indicando Embaixadores, Ministros
e Vice-Ministros, Governadores de Províncias e administradores
municipais e comunais, e terá milhares de seus militares incorporados
às forças armadas unificadas, as Forças Armadas de Angola,
e à Polícia Nacional. O Governo, por sua vez, aquartela suas
forças militares e a Polícia de Intervenção
Rápida, desarma a população civil e facilita a
transição da UNITA para partido político civil.
O
Protocolo de Lusaca previa que todas essas tarefas fossem cumpridas em 15
meses. Em abril último, formou-se o GURN, com membros da UNITA e seus 70
Deputados tomaram posse na Assembléia Nacional. Até agora,
avançou pouco o desarmamento da população civil, mas o
Governo já cumpriu a maior parte de suas obrigações,
inclusive criando as Forças Armadas unificadas, com cerca de 11 mil
militares egressos da UNITA. Até hoje, porém, 3 anos depois da
assinatura do Protocolo, a UNITA ainda mantém exército e o
controle sobre grande parte do território. Não existe, assim,
"a livre circulação de pessoas e bens", o que
encarece a atividade econômica e dificulta a vida dos cidadãos; o
Governo não pode exercer plenamente suas funções
soberanas, já que não tem acesso a todo o território
nacional. Mas tem havido algum progresso quanto ao controle, pelo Estado
Nacional, de partes do território.
Assim
sendo, apesar de ser potencialmente rica, como já disse, Angola
terá de fazer um esforço tremendo para se reconstruir
materialmente. Terá, também, de desenvolver um grande trabalho na
área de psicologia social, da questão ideológica, para
transformar a psicologia da guerra, a cultura da guerra ("as coisas se
resolvem rápido e pela violência") em uma cultura de paz,
valorizando a tolerância, a diferença, a convivência
democrática. E precisará ainda reorganizar-se do ponto-de-vista
socioeconômico, incentivando a produção nacional (hoje se
importa grande parcela do que é consumido) e criando mecanismos de
distribuição de renda: enquanto a maioria da
população vive com enorme dificuldade, um pequeno grupo de
empresários (às vezes também políticos)
detém o controle da vida econômica, acumulando riquezas, num
processo que talvez Marx chamasse de "acumulação
originária ou primitiva de capital". Se no regime socialista
não havia abundância, tampouco ocorriam esses grandes
desníveis. Esse "egoísmo" dos abastados foi,
aliás, recentemente criticado pelo Presidente da República na II
Conferência do MPLA, em meados deste ano.
Diante
desse quadro, o que podemos fazer, como pode o Brasil cooperar?
Em
primeiro lugar, apoiando o esforço de paz. Cabe registrar que o nosso
país foi o principal contribuinte de tropas nas Forças de
Manutenção de Paz da Unavem-III (terceira Missão de
Verificação das Nações Unidas em Angola), nos anos
de 1995 a 1997. Nesse esforço da comunidade internacional, que reuniu
mais de 10 países fornecendo tropas e mais de 30 dando observadores do
processo de paz, o Brasil compareceu com um Batalhão de Infantaria, uma
Companhia de Engenharia, duas equipes de Saúde e observadores policiais
e militares, num total de mais de 1.100 homens, quando a ONU, entre civis e
militares, chegou a ter em Angola mais de 7.000 pessoas.
Em
segundo, apoiando material e politicamente a reconstrução
nacional e a estruturação de uma sociedade democrática.
Aproveito a oportunidade para tecer algumas considerações sobre a
posição única que o Brasil hoje ocupa no cenário
internacional, ainda com indicadores sociais pobres mas com uma economia
poderosa, na agropecuária, na indústria, nos serviços.
Acho
que temos de diferençar o que o Brasil deve fazer em
relação ao primeiro mundo e a países como Angola. É
óbvio que, para tornar-se mais competitivo, eficiente, o Brasil precisa
estar muito próximo do primeiro mundo, acompanhar a
evolução de métodos gerenciais e da tecnologia nos Estados
Unidos, no Japão, na Alemanha etc, para absorver o que seja importante,
mas tem pouca contribuição a dar. De modo um pouco caricatural,
mas expressando o que penso, digo que a um alemão ou japonês
podemos ensinar a dançar o frevo ou tomar caipirinha, ou seja, um modo
de estar de convivência prazeroso, mas é improvável que,
salvo exceções, possamos transmitir-lhes tecnologia industrial ou
métodos de organização, porque nesses campos estão
mais adiantados do que nós.
É
exatamente em relação a países menos desenvolvidos, os do
chamado antigo terceiro mundo, que o Brasil pode exercer um papel de
liderança sem hegemonia, apoiando-os no seu esforço de
desenvolvimento e afirmação nacional. E isso porque, nos diversos
domínios do conhecimento, da tecnologia industrial, métodos de
organização e gestão, ciências exatas, sociais,
biológicas, computação e informática etc, estamos
mais avançados. Essa "liderança sem hegemonia"
não tem apenas um aspecto político, de marcar a presença
brasileira no panorama internacional, mas também um lado ético,
de contribuir para que o mundo em que todos vivemos passe a ser um pouco
melhor, com menos miséria e sofrimento humano. E os PALOPS podem ser um
campo de eleição para o exercício dessa liderança.
Para
praticamente concluir esta exposição, volto a um ponto que
já mencionei. Como poderemos - fica a sugestão - utilizar esta
situação em que, ao longo do tempo e até o ano 2.000,
estarão sendo organizadas reuniões, seminários etc - com a
discussão das questões históricas fundamentais que tem
repercussão hoje - para aproximar o Brasil dos outros países
lusófonos. O mundo que o português criou é parte de um
processo de globalização, como disse, com toda a razão, o
Professor Manoel Correia de Andrade - trata-se já da abertura da
modernidade, da expansão, da influência ocidental, há mais
de 500 anos. Se não me falha a memória, esse processo
começa em Ceuta, em 1415, enfim, já são quase 600 anos em
que o mundo vai se globalizando, as distâncias vão diminuindo,
aquela famosa estória da caravela, do sextante, do astrolábio, da
vela quadrada - vocês me perdoem se algum detalhe está incorreto.
O
que proponho é que, ao lado dessa reflexão histórica, que
é também uma reflexão sobre o Brasil, que não
está isolado, mas profundamente ligado aos outros frutos ou brotos da
presença portuguesa no mundo, haja um empenho para que o brasileiro
comum, cada um de nossos cidadãos, tenha uma idéia mais precisa
sobre essa ligação fraterna; que ele não apenas passe a
valorizar teoricamente a sua herança africana, mas que tenha marcas
dessa herança do outro lado do Atlântico no seu cotidiano. O
Brasil ter hoje a oitava ou nona economia do mundo, além de ser fato de
que nos podemos orgulhar, abre um amplo espaço para essa presença
africana. Se tivermos em nosso país, nos meios de
comunicação, nas casas de espetáculos e nas galerias, para
nossos irmãos de língua e de raízes históricas, uma
pequenina parte do que recebemos dos Estados Unidos e da Europa, será um
enorme avanço, para nosso enriquecimento cultural e como abertura de
mercado para manifestações culturais e artísticas desses
países.
Creio
que se trata, como disse, por um lado, de uma obrigação
intelectual, de termos uma visão menos superficial da experiência
dos PALOPS e, por outro lado, de uma obrigação moral e
política, de apoiarmos esses povos que, em média, ainda vivem
muitíssimo pior que o Brasil, embora aqui também tenhamos nossos
problemas a resolver.
E
o momento é propício. Aqui no Brasil, está havendo
atualmente uma valorização das nossas raízes africanas.
Basta citar a revista mensal "Raça", a qual, pelo que soube,
está vendendo entre 250 e 300 mil exemplares. Por outro lado, o
Presidente Fernando Henrique abandonou a fórmula edulcorada da
"democracia racial", admitiu que no Brasil, como em toda cultura de
molde europeu, o racismo existe e criou, no ano passado, uma Comissão
Interministerial para a Valorização da Raça Negra.
Evidentemente, essas coisas não mudam da noite para o dia, mas, como
sempre na História, o primeiro passo para se resolver um problema
é enfrentá-lo, admitir a sua existência, e não
negá-la. Se ultrapassarmos os muros da Academia, da Universidade, das
Fundações e conseguirmos que todo o povo brasileiro, a
opinião pública no Brasil conheça melhor esses
países da ex-África Portuguesa, vamos dar uma grande
contribuição de aproximação entre nossos povos e de
valorização desses países irmãos que precisam tanto
do nosso apoio e solidariedade.
Agradecendo
a atenção e a paciência de todos, penitencio-me pela longa
exposição e me disponho ao debate.
POSTSCRIPTUM:
tendo sido solicitado a revisar a transcrição da
gravação, mantive todo o teor e introduzi apenas algumas
alterações de forma e algumas inclusões de esclarecimento
ou contextualização. No entanto, tendo a revisão sido
feita quase dois meses depois do seminário, em meados de dezembro de
1997, julgo haver dois fatos novos que merecem registro.
Primeiro,
nos dias 10 a 15 de novembro, esteve em Luanda uma numerosa
delegação brasileira: 90 participantes, representando mais de 60
entidades, especialmente empresas de diversos setores (agronegócios,
telecomunicações e informática, transportes e seus
equipamentos e materiais, petróleo, energia elétrica, tecidos,
calçados, confecções, medicamentos etc.) e entidades
universitárias e de pesquisa; também participaram representantes
do Ministério da Saúde, com um projeto de nutrição
alternativa. Organizada pela Câmara de Comércio e Indústria
Brasil-Angola, sediada no Rio de Janeiro, e pela sua homóloga angolana,
sediada em Luanda, a iniciativa representou uma ruptura com o afastamento e o
desinteresse da maioria do empresariado a que me referi na palestra. Há
boas perspectivas de que o relacionamento comercial e empresarial no sentido
amplo (com investimentos em Angola) venha a se desenvolver bastante.
Segundo,
no final de outubro, o Conselho de Segurança das Nações
Unidas, para exortar a UNITA a acelerar o cumprimento de seus compromissos no
sentido da pacificação estipulados no Protocolo de Lusaca,
aplicou-lhe sanções, que vão desde o fechamento de seus
escritórios de representação no estrangeiro até o
cerceamento de viagens para seus dirigentes. Espera-se que a UNITA entenda a
mensagem, que não é de punição, mas de
indução, e colabore para que a paz finalmente chegue em Angola,
permitindo que o seu povo tão sofrido venha a usufruir do
desenvolvimento econômico e do bem-estar social.
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