
Alternativas de Sobrevivência do Homem Amazônico
Tereza Ximenes - NAEA / UFPA
Existe um homem amazônico, seja brasileiro, boliviano, colombiano, venezuelano?
Sempre que usamos uma categoria genérica para abrigar coisas e visas diferentes corre-se o risco de perder uma riqueza de dados, um mundo de significado das formas de organização social e o conhecimento, respostas adaptativas das organizações humanas aos ecossistemas amazônicos.
No estudo das maneiras dos grupos humanos se adaptarem às condições dadas pela natureza amazônica, não se deve enfatizar a idéia de se contrapor saber local/saber global, parte/todo, micro/macro. Esta maneira de pensar o real resulta, muitas vezes, em abordagens descritivas, necessárias mas não suficientes para explicar as diversidades amazônicas. Há que se ter presente o que já foi dito "O local e o global determinam-se reciprocamente" (Janni, 1994). As respostas adaptadoras aos ecossistemas amazônicos, entretanto, requerem com profundo conhecimento da relação homem/natureza.
O nível dessa relação, muitas vezes, permanece ensaístico, aquém das necessidades prementes de explicação tanto no plano teórico, quanto no de intervenção social e política. O diagnóstico dos impactos ambientais contrastam, ainda hoje, com uma pequena desponibilidade de trabalho que demonstrem a viabilidade de estratégias alternativas de desenvolvimento da Amazônia. Tais diagnósticos suscitam sempre a indagação:
- Quais ações alternativas poderiam se tornar realidade?
Há lacunas de investigação de conhecimento teórico e metodológico para se definir orientações gerais pertinentes para um planejamento do desenvolvimento, que leve em conta, as dimensões de sustentabilidade, que vem sendo propostas como, por exemplo, Sachs (1993).
É um fato que as culturas locais, regionais, nacionais sofrem transformações, algumas estão se reestruturando, se globalizando. Globalização, aqui entendida, conforme Grddens (1991) - Intensificação das relações sociais em escala mundial, que ligam localidades distantes de tal maneira que acontecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a muitas milhas de distância e vice-versa. Na mudialização das relações, é necessário não se perder de vista o que se pensa da Amazônia - grande espaço econômico para a acumulação do capital nacional e internacional, espaço de coexistência de diferentes - diferentes ecossistemas com diferentes espécies, diferentes sistemas sociais com diferentes culturas. Mas se a Amazônia precisa ser vista como um todo, precisa ser compreendida também como região. A região é uma importante categoria de análise, revela relações, formas, funções, organizações, estruturas com seus distintos níveis de interação e contradição (Nilton Santos, 1994).
Para contribuir na reflexão do tema, restrinjo minhas observações à área rural e nesta área as regiões de florestas inundadas, conhecidas como várzeas e igapós, que representam 5 a 10% da bacia amazônica (Pires, 1973).
Desde a época colonial, as várzeas do rio Amazonas tem ocupado um papel central na economia regional, devido seus solos enriquecidos, periodicamente, pelas enchentes e vazantes anuais permitem uma cultura agrícola e uma pecuária de baixo custo e também pelas alta concentração de peixes e de outros vertebrados aquuáticos.
É também nessa região que se encontram uma grande concentração populacional que utilizam de várias maneiras os recursos naturais. Hoje este processo está ameaçado. Apontam-se para isso a extensão da pecuária bovina e bubalina que invadem as plantações, o que desistimula a agricultura varzeira. Por outro lado, há intensificação da pesca comercial, desestruturando as formas de interagir cultura e natureza na conformação de usos dos recursos, o que exige aumentar as buscas adaptativas, o estudo de formas alternativas de relação com a natureza. Essas alternativas têm sido pensada por alguns centros de pesquisas, e outras organizações governamentais e não-governamentais como, por exemplo, a reserva de lagos (a exemplo das reservas extrativistas) na perspectiva de se desenvolver modelo para a reserva de lagos, baseado numa legislação pesqueira e fundiária, avaliando os professores impactos sociais, econômicos e ambientais para a implementação desse modelo.
Essas preocupações, a discussão dessas questões estão presente em duas atividades do Núcleo de Altos Estudo Amazônicos - NAEA. A primeira, é uma linha de pesquisa intitulada - Tendências da Ocupação Humana nas Várzeas do Rio Amazônias.
A segunda, é um curso Ciência e Tencologia e Políticas Pesqueira nos Países da PAN-AMAZÔNIA. Este curso partiu da análise das concepções que se têm da Amazônia discutindo-se explicações tanto no plano teórico, quanto no de intervenção social e política depois, (e agora estamos nessa faze), uma análise profunda dos aspectos hidrológicos, diferentes ecossistemas com as diferentes espécies que vivem na Amazônia. Aqui está sendo rico a presença de alunos de vários países da PAN-AMAZÔNIA: Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela. Estamos socializando os problemas amazônicos e alternatovas criadas em decorrência das especificidades de espaços diferentes.
Finalmente este curso (que está com término previsto para dezembro) se voltará para a análise de projetos de políticas pesqueiras nos diferentes países, na perspectiva de se discutir a tramitação e os entraves para viabilizar tais projetos.