A investigação sociológica e as prioridades de pesquisa na Amazônia

Sônia Barbosa Magalhães
CNPq / Museu Paraense Emílio Goeldi

O aspecto mais recorrente que se encontra na literatura que trata sobre a sociedade na Amazônia é a referência à diversidade. Sob diversos ângulos, o que se destaca - desde os relatos de viajantes, ao se reportarem aos encontros com várias "tribos" indígenas, até as análises sociológicas mais atuais - é a existência de uma pluralidade cultural e étnica que está na raiz da formação social e que coexiste no presente. O que se pode acrescentar é que falar sobre "a pesquisa social na Amazônia", tal como nos propusemos neste Seminário, ou a base para o conhecimento da própria Amazônia, passa não só pelo conhecimento das distintas sociedades mas, especialmente, pelo seu reconhecimento. Reconhecimento de que as culturas, as formas como as sociedades se organizam, se concebem e se reproduzem, constituem um patrimônio de respostas à sobrevivência da própria humanidade.

Ao falar em reconhecimento, é evidente, estou falando sobre o reconhecimento político e social destas sociedades, e estou querendo me reportar ao lugar que ocupa a produção do conhecimento que trata especificamente sobre elas. Em outras palvras, como se colocam a diversidade social e a investigação sociológica no contexto de prioridades de pesquisa na Amazônia; um contexto onde é prevalecente a preocupação com a questão ambiental.

Nos últimos dez anos, observa-se no panorama intelectual da Amazônia, e no Brasil como um todo, o uso cada vez mais crescente de termos como, desenvolvimento sustentável, biodiversidade, ecodesenvolvimento, etc., que, sob formas diversas, apontam para a preocupação com o meio-ambiente e, especialmente, para a relação dos homems com o meio ambiente. Nas Ciências Sociais, a preocupação com a incorporação da dimensão ambiental[1] é cada vez mais crescente e há autores que chegam a sugerir a constituição das Ciências Sociais do Ambiente[2]. Pari passu, aumentam os financiamentos e financiadores de pesquisas que, sob formas também diversas, incluem a dimensão ambiental e a sua análise como pré-requisitos na formulação dos objetos de pesquisas a serem financiados. No âmbito da mesma preocupação, tem sido acalorada a discussão sobre a interdisciplinaridade da pesquisa, sobre uma possível oposição entre pesquisa básica e pesquisa aplicada, sobre a chamada "demanda local/regional" de pesquisa, enfim, discussões que acabam por remeter à questão da adequabilidade das pesquisas em ciências sociais para a viabilização ou promoção do chamado desenvolvimento sustentável.

Na Amazônia, especialmente em seus centros de pesquisa e universidades, esta preocupação é recorrente e pode ser atribúída às próprias características ambientais da região. A existência da floresta, os valores simbólico e econômico que lhe são atribuídos parecem ser auto-explicativos; mas, é evidente, esta não é uma preocupação restrita à Amazônia. E, no âmbito das discussões sobre a globalização, pode-se ver como o tema está, a rigor, generalizado[3].

Nesta comunicação[4], pretendo refletir sobre as condições sociais em que se deu o fortalecimento desta dimensão ambiental, sobre as problemáticas que esta expressão recobre ou encobre, e indicar alguns dos efeitos desse fortalecimento sobre a investigação sociológica. A minha reflexão está centrada no contexto amazônico e se apóia na análise do documento Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras - Subprograma de Ciência e Tecnologia, elaborado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, em 1994. Vale dizer que não se trata de uma investigação exaustiva sobre o tema, mas apenas de algumas reflexões sobre esta questão, a partir da minha experiência de pesquisa, que certamente levam a marca da minha inserção profissional[5].

A escolha do Subprograma de Ciência e Tecnologia do PP-G7 não foi aleatória. Embora se trate de um programa específico, ele se destaca não apenas por ser o primeiro grande programa coordenado, de amplo investimento de pesquisa na Amazônia, mas também por seu efeito multiplicador.

Assim é que postulados semelhantes vão ser encontrados no documento Prioridades em Ciência e Tecnologia na Amazônia, elaborado pela SUDAM [1994]. A rigor, este documento da SUDAM foi elaborado com a colaboração técnica da Comissão de Assessoramento do Plano Estratégico do INPA e do Museu Paraense Emílio Goeldi, criada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia no âmbito do "componente Centros de Excelência", que integra o Subprograma de Ciência e Tecnologia, conforme será visto posteriormente.

Encontram-se também as mesmas formulações no Plano de Ciência e Tecnologia da Comissão Coordenadora Regional de Pesquisas da Amazônia (CORPAM). A CORPAM, criada em julho de 1989, assessora o MCT no próprio Programa Piloto para a Conservação das Florestas - PP-G7 - , e pretende fazer a integração entre este sub-programa e outras atividades em Ciência e Tecnologia em curso na Amazônia, a exemplo das executadas pela CAPES, CNPq, FINEP/FNDCT, CNPq-Programas do Trópico Úmido, CAPES/Projeto Norte, IBAMA/PNMA e FNMA, além das executadas pela própria SUDAM e pelos governos estaduais da Amazônia.

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Esta comunicação está dividida em duas partes: na primeira, eu apresento o contexto de criação das prioridades em ciência e tecnologia na Amazônia. E, na segunda, eu discorro sobre o documento em análise, acima citado, procurando evidenciar a concepção de pesquisa sociológica que estes documentos parecem pressupor; e como, nesta concepção, são desconsiderados temas tradicionais da sociologia e da antropologia, a exemplo de espaço e relações sociais, relações de poder, territorialidade, etc, temas que, por sua vez, desnaturalizam a dimensão ambiental.

O contexto de criação
das
"prioridades em
ciência e tecnologia
na Amazônia".

Embora haja controvérsias quanto à época do surgimento dos termos desenvolvimento sustentável e ecodesenvolvimento, não parece haver dúvida, por um lado, de que é a partir dos anos 70 que a preocupação com o meio-ambiente se explicita e que é a partir do final dos anos 80 que a discussão ganha maior amplitude. E, por outro lado, que são o movimento ambientalista e/ou as organizações não-governamentais os principais propagadores desta preocupação. É em decorrência do movimento destes atores e da forma como a sociedade o legitimou, que as agências governamentais e as agências multilaterais de financiamento, sob diversas modalidades, incorporam a preocupação e a legitimam. O auge da visibilidade desta discussão foi, sem dúvida, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro, e o Fórum Global realizado na mesma data.

Em busca dos antecedentes, há quem afirme, por exemplo, que a expressão desenvolvimento sustentável é oriunda das Conferências - Biosfera e Os Aspectos Ecológicos do Desenvolvimento Internacional -, realizadas em 1968, em Paris e Washington, respectivamente, cf. COELHO [1994:382]. Já outros atribuem esta origem à Conferência da ONU, em Estocolmo, em 1972 e a sua efetiva propagação ao Relatório Brundtland, de 1987, cf. RIBEIRO [1994:14]. Mas, seja depois da Conferência Biosfera seja depois de Estocolmo, ou ,mesmo mais tardiamente, após o Relatório Brundtland, o fato é que a priorização do meio ambiente, e especialmente do meio ambiente na sociologia, é resultado de uma discussão que se trava no campo político, e que tem como origem e alvo principais os chamados grandes projetos, largamente financiados na década de 70, por agências multilaterais. Na Amazônia, as grandes hidrelétricas, como Tucuruí e Balbina, os Projetos Carajás e Albrás, apenas para citar os mais célebres, são a expressão mais evidente deste cenário.

É, pois, sem dúvida, como problema político que a discussão e os termos que nela são utilizados se impõem à sociedade e à academia e/ou à ciência[6].

No Brasil, e na Amazônia em particular, talvez se possa afirmar que é o Programa Nossa Natureza a primeira expressão mais evidente não só desta discussão, mas principalmente do estatuto político que ela possui. O PNN foi criado em 1988, logo após o Relatório Brundtland, em uma conjuntura em que o Estado Brasileiro era alvo de graves denúncias, ou seja, de praticar políticas destruidoras do meio-ambiente e de desagregação das culturas indígenas; denúncias que, por sua vez, repercutiam na liberação dos recursos internacionais destinados aos chamados projetos de desenvolvimento, dentre os quais se destacavam as grandes hidrelétricas[7].

É nesta conjuntura, pois, que o PNN surge como o apelido do Programa de Defesa do Complexo da Amazônia Legal, coordenado pela então Secretaria de Assessoramento da Defesa Nacional (SADEN), que substituiu o extinto Conselho de Segurança Nacional, após a Constituição de 1988.

Além do que o próprio nome e a autoria do Programa sugerem, isto é, defesa da Amazônia e política de segurança nacional, pode-se constatar, também, como os objetivos do PNN são extraordinariamente reveladores no que diz respeito aos fundamentos de sua preocupação com o meio-ambiente: o ordenamento do espaço e, por consequência, da apropriação do espaço; em outros termos, a definição de um direcionamento para o uso e gestão do território, entre diversas alternativas possíveis.

De acordo com a Exposição de Motivos 001-1988, elaborada pela SADEN, que argumenta sobre a criação do PNN, são elencados como seus objetivos principais:

"eleição de módulos na Amazônia Legal para implantação de Projetos de Proteção do Meio-Ambiente, das Comunidades Indígenas e das populações envolvidas no processo extrativista, a integração da conservação do meio ambiente na atividade de planejamento econômico, através de metodologia apropriada, em especial, no que respeita ao ordenamento territorial e à adaptação da metodologia desenvolvida pelo Instituto de Planejamento Econômico e Social (IPES), da Secretaria de Planejamento e Coordenação da Presidência da República visando à ocupação racional da Amazônia Legal, à proteção das comunidades indígenas e das populações envolvidas no processo de extrativismo" [grifos meus][8].

Desta perspectiva, parece evidente, conforme já observou LEITÃO [1990], que as ações do Estado Brasileiro referentes ao meio-ambiente, particularmente na Amazônia, estão coladas aos conceitos de segurança nacional, objetivos nacionais permanentes e estratégia de desenvolvimento nacional.

É, pois, a partir deste estatuto político, que se coloca no âmbito da dimensão ambiental a questão das "populações"e a questão das pesquisas. As "populações" - seringueiros, castanheiros, pescadores, agricultores e os povos indígenas - são, geralmente, tratadas como populações tradicionais, ou populações nativas. As pesquisas são qualificadas como sócio-culturais.

Podemos ver, a seguir, como, através de uma paradoxal inversão, a dimensão ambiental, cuja importância tem origem política, é despolitizada. Por um lado, as populações tradicionais são desterritorializadas e homogeneizadas. E, por outro, a pesquisa sociológica é metamorfoseada em pesquisa do "setor social" ou "sócio-cultural".

As prioridades em ciência e tecnologia na Amazônia

Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras

Subprograma de Ciência e Tecnologia

Os antecedentes do Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras - PP-G7 - podem ser encontrados em um contexto de desdobramento das preocupações políticas acima mencionadas, e de crescimento do debate internacional sobre mudanças climáticas e conservação da biodiversidade. Há uma literatura de boa qualidade que analisa as interrelações e interesses que estão em jogo nesta discussão, e que chamam a atenção, especialmente, para a correlação de forças entre os interesses nacionais, os interesses da população amazônica e dos detentores da técnica e do capital[9]. A rigor, chamam a atenção para o fato de que na "polêmica ecológica" tem lugar em uma conjuntura específica que articula os direitos históricos e constitucionalmente reconhecidos dos índios, as reivindicações dos seringueiros e de outros grupos sociais, e os interesses tecnológicos e geopolíticos.

Como Programa, o PP-G7 foi criado em 8 de junho de 1992, após negociações de pelo menos dois anos com o Governo Brasileiro[10], e somente em 1995 começa a ser efetivamente implantado[11]. Em seus objetivos gerais destaca-se o binômio preservação da biodiversidade e melhoria do padrão de vida da população amazônica, cf.MCT[1994][12]. A preservação da biodiversidade, neste caso, é vista como decorrente da proteção de parques, reservas e áreas indígenas; e da geração de conhecimento científico e de tecnologias voltadas para a sustentabilidade dos recursos naturais. O conhecimento científico e a geração de novas tecnologias, por sua vez, teriam como um dos objetivos assegurar a melhoria do padrão de vida da população. Há um Sub-Programa específico para o atendimento deste objetivo - o Subprograma de Ciência e Tecnologia.

A rigor, o PP-G7, como um todo, é composto de quatro subprogramas:

- Políticas de Recursos Naturais;

- Projetos Demonstrativos;

- Manejo de Recursos Naturais e Unidades de Conservação;

- Ciência e Tecnologia.

O Subprograma de Ciência e Tecnologia é, portanto, apenas um dos quatro sub-programas que compõem o PP-G7; é coordenado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, tendo como agente financeiro e excutor a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP).

De acordo com o que já vimos, o Subprograma de Ciência e Tecnologia tem como objetivo "promover a geração e disseminação de conhecimentos científicos e tecnológicos relevantes para a conservação e desenvolvimento sustentável na região amazônica", e está estruturado em dois "componentes":

- Estabelecimento de Centros de Excelência (CE)

- Pesquisa Dirigida ao Desenvolvimento Sustentável (PPD) [13]

O "componente Centro de Excelência"[14] visa o "fortalecimento das atividades administrativas, gerenciais, de infra-estrutura e de capacitação de recursos humanos, que servem de base ao desenvolvimento de programa de pesquisa e de disseminação de conhecimentos científicos e tecnológicos de duas insttiuições da Amazônia, o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG)", cf. MCT[1994:2].

É no PPD que se encontram mais evidentes as questões relativas à investigação sociológica e é sobre ele, portanto, que eu deterei a minha atenção

O PPD é pensado como um conjunto de pesquisas que propiciará os conhecimentos necessários à implementação dos demais Subprogramas. Os seus objetivos estão estruturados em quatro áreas prioritárias de pesquisa, às quais correspondem quatro tipos de pesquisa, conforme pode-se observar no Quadro I a seguir.

Quadro I
Áreas Prioritárias
e
Tipos de Pesquisa

Programa Piloto para a
Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras
Subprograma de Ciência e Tecnologia

Áreas Prioritárias Tipos de Pesquisa
Ecossistemas amazônicos

"estabelecimento de uma sólida base de conhecimentos sobre os ecossistemas amazônicos de forma a permitir o estudo de suas evoluções no tempo; monitoramento ambiental; e as interações entre os componentes biológico, físico e humano do ambiente e suas implicações em nível global, regional e nacional"
pesquisas sobre problemas bióticos, abióticos e sócio-econômicos, tais como:
1 - impacto potencial das amplas mudanças do padrão de uso da terra nos ciclos hidrológicos e no carreio de nutrientes da floresta úmida para os oceanos;
2 - alterações potenciais do ambiente regional e global resultante das alterações na bacia amazônica;
3 - estratégias para a conservação da biodiversidade em ambientes aquáticos e florestais; metodologias para monitoramento dos efeitos da ação antrópica sobre ecossistemas ao longo do tempo, incluindo deflorestamento;
4 - interações entre os componentes biótico e abiótico e as populações humanas
Uso Sustentável dos Recursos da Amazônia

"pesquisas que tornem possível o uso sustentável dos recursos da Amazônia mediante a melhoria da produção e da produtividade dos seus ecossistemas terrestres e aquáticos; atividades que visem ao processamento local e à agregação de valor aos produtos amazônicos; recuperação de áreas degradadas; tecnologias ambientalmente compatíveis para os setores agropecuário, industrial e mineral; e políticas necessárias para adoção de tecnologias econômico e ambientalmente sustentáveis"
1 - pesquisas sobre o uso e exploração dos recursos dos ecossistemas terrestres e aquáticos da Amazônia (pequenas propriedades, extrativismo, pecuária e agricultura extensivas, pesca, mineração e exploração madeireira);
2 -modelagem e avaliação dos impactos potenciais resultantes das intervenções nesses ecossistemas, através de novas e tradicionais tecnologias; estudos sobre as possibilidades de valorização no mercado nacional e internacional, de novos produtos ou de produtos tradicionalmente explorados (técnicas de manejo, de produção e processamento; controle de qualidade; mercados, etc.);
3 - estudos sobre a capacidade de regeneração natural de ambientes alterados e de tecnologias que propiciem o aumento da velociadde de recuperação de áreas degradadas
Infra- estrutura

"desenvolvimento ou adaptação de tecnologias necessárias para apoiar a implantação de infra-estrutura social, econômica e ambientalmente adequada para os espaços urbanos e rurais, com ênfase em : energias renováveis, redes de transporte; e, oferta de serviços básicos - água, esgoto, dentre outros".
1 - pesquisas sobre fontes de energia renováveis para uso direto pelas populações amazônicas e as alternativas em termos de atividades econômicas associadas à produção e comercialização de produtos regionais;
2 - meios de transportes necessários para uso das comunidades e para escoamento de sua produção;
3 - tecnologias apropriadas para suprimento e distribuição de água e para saneamento das comunidades;
4 -desenvolvimento de infra-estrutura apropriada para a região; e,
5 - melhoramento de metodologias para avaliação de impacto ambiental de projetos alternativos ou de infra-estrutura
Melhoria da qualidade de vida

"estudos de variáveis sociais e culturais relevantes para a melhoria da qualidade de vida das populações amazônicas e o uso sustentável da floresta tropical e suas relações com as questões sociais e econômicas do País, as quais afetam direta ou indiretamente o processo de ocupação da Amazônia."
1 - estudos demográficos e fatores estimuladores da imigração e emigração; distribuição espacial como função de práticas de subsistência;
2 - interação entre políticas econômicas (macro e setorial) e a colonização da Amazônia;
3 - absorção de mão de obra e atividades econômicas em relação às tendências de urbanização;
4 - estabilidade econômica e social de comunidades em relação à sustentabilidade de novos sistemas de produção;
5 - base cultural e social do uso sustentado do ambiente amazônico;
6 - interações humanas e ambientais em relação à poluição (ex:.causadas pela mineração de ouro);
7 - doenças epidêmicas e outras;
8 - causas nutricionais e ambientais de `stress';
9 - pesquisa operacional e econômica na provisão de serviços de saúde;
10 - estudos de cenários possíveis para o futuro da Amazônia no contexto do desenvolvimento global do Brasil
Fonte: MCT [1994:3-6]grifos no original.

Na proposta do PPD, estas áreas e tipos de pesquisa são transformadas em "chamadas" específicas, que direcionarão a elaboração de projetos de pesquisa interinstitucionais e interdisciplinares. As "chamadas", por sua vez, são decodificadas em "escopos" e "núcleos temáticos". São, portanto, nestes escopos e núcleos temáticos que melhor se pode visualizar o lugar e a concepção de investigação sociológica que esta comunicação pretende evidenciar.

Tomando o Quadro I e, especialmente, a coluna de áreas prioritárias, vejamos no Quadro II como se enquadra a pesquisa sociológica, que aparece nas colunas "Núcleos Temáticos" e "Escopo", correspondentes à "Área - Melhoria da Qualidade de Vida".

Quadro II
Áreas Prioritárias
e
Núcleos Temáticos

Programa Piloto para a
Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras
Subprograma de Ciência e Tecnologia

Áreas Prioritárias Escopo Núcleos Temáticos
Ecossistemas amazônicos Geração de conhecimentos científicos e tecnológicos voltados à compreensão da estrutura e funcionamento dos ecossistemas amazônicos e dos efeitos da ação antrópica sobre os processos ecossistêmicos Impactos das principais atividades regionais e globais sobre a dinâmica de processos ecossistêmicos.
1 - efeitos sobre o ciclo biogeoquímico;
2 - efeitos sobre o ciclo da água;
3 - efeitos sobre a biodiversidade;
4- efeitos sobre o fluxo de energia e dinâmica das trocas gasosas
Estudos sobre estrutura e funcionamento dos ecossistemas amazônicos no que diz respeito a:
1 - ciclo biogeoquímico;
2 - ciclo da água;
3 - biodiversidade;
4 - fluxo de energia e dinâmica das trocas gasosas
Uso Sustentável dos Recursos da Amazônia Geração de conhecimentos científicos e de desenvolvimento tecnológicos voltada para a utilização sustentada dos ecossistemas amazônicos
Aproveitamento e/ou Recuperação de áreas degradadas:
desenvolvimento e avaliação de tecnologias para monitoramento, recuperação, manejo e utlilização industrial de áres degradadas, incluindo a identificação de parâmetros sócio-econômicos ambientais e políticos condicionantes das tecnologias desenvolvidas.
Manejo de Florestas Naturais e Sistemas Agroflorestais
desenvolvimento de tecnologias voltadas para o manejo de florestas visando a sua utilização econômica e sustentável. Compreende recursos madeireiros e não madeireiros, fauna silvestre e aquática, bem como tecnologias para o desenvolvimento de sistemas agropecuários/florestais
Utilização econômica da biodiversidade
avaliação do potencial econômico dos produtos da biodiversidade para obtenção de substâncias bioativas de interesse farmacológico e industrial. Ação concreta e participação interativa multi-disciplinar e multi-institucional para identificação botânica, identificação de substâncias bioativas, isolamento químico, otimização da produção, avaliação farmacológica, utilização extrativa e metodologias de exploração comercial das espécies de plantas e microorganismos da região amazônica que servem de base para obtenção desses produtos.
Infra- estrutura ambientalmente saudável
Melhoria da qualidade de vida Geração de conhecimentos em nível sócio-cultural que permitam a melhoria da qualidade de vida na Amazônia, integrando sua população ao esforço de desenvolvimento sustentável da região. [grifos meus]
Bio-Sociodiversidade
avaliação do patrimônio étnico-cultural, compreendendo a recuperação do conhecimento detido pelas populações nativas sobre a diversidade biótica e abiótica, sobre o uso dos recursos da floresta, bem como identificação e avaliação das interações das sociedades humanas e o ambiente natural para a sustentabilidade dos sistemas de produção.
Saúde
desenvolvimento de alternativas, isentas ou que minimizem riscos ambientais, para controle de endemias e epidemias em nível individual e coletivo.
Fonte: MCT [1994 e 1995]

É evidente que, a partir do tipo de material que estou trabalhando, pode-se argumentar que há insuficiência de dados para observações mais conclusivas. Afinal, trata-se de um "Edital" e de um "Documento Básico" que, por definição, são parcimoniosos nos enunciados. Entretanto, creio que o recorte que é dado para a construção, especialmente dos "Núcleos Temáticos", pode nos conduzir a algumas observações, mais especificamente no que diz respeito

- ao afunilamento que existe na passagem entre as "Áreas prioritárias" e os "Núcleos Temáticos";

- aos termos utilizados;

- a uma espécie de naturalização do meio-ambiente e do seu uso, que parece perpassar todos os enunciados do PPD.

Na própria elaboração do Quadro II, evidenciam-se dois elementos: o primeiro é o vazio que se observa para as pesquisas sobre infra-estrutura ambientalmente saudável; e o segundo é a extrema economia e/ou síntese na elaboração dos "Núcleos Temáticos"que dizem respeito ao sócio-cultural. A rigor, observa-se um afunilamento na passagem entre o elenco de "tipos de pesquisa", contido nas "Áreas prioritárias" - Quadro I - e o conteúdo do "núcleo temático". Conforme pode ser observado, do total de nove ítens que compõem a "Melhoria da Qualidade de Vida", são pinçados dois ítens - os ítens de números 5 e 7 , a saber:

Seria necessária uma investigação mais detida para se entender as razões do afunilamento ou mesmo da seleção de tais temas e não de outros. De todo modo, uma hipótese que pode ser levantada é que na estruturação dos "tipos de pesquisa" são contemplados enunciados que dizem respeito, em sua maioria, à problemática social resultante da forma como se deu a intervenção do Estado e do modo como se concretizou o modelo de desenvolvimento nacional, nos últimos vinte anos, na Amazônia.

Construir "núcleos temáticos" que encampassem aquela problemática redundaria em deslocar o eixo de análise, reconhecendo o estatuto político das questões. Especialmente porque as questões a serem postas teriam necessariamente que reconhecer quem são os atores para os quais estas problemáticas têm consequências. E, neste sentido, não se trataria apenas de "escopo sócio-cultural", mas de interesses, conflitos, intervenção do Estado, enfim, de evidenciar quem são os nossos "negros de Waltham" e quem incorpora a "ideologia Whig", como o fez THOMPSON [1987] para a Inglaterra do século XVIII.

Em consequência, não se trataria apenas de populações nativas ou populações tradicionais, mas de Yanomami, Kayapó, seringueiros, Conselho Nacional de Seringueiros, trabalhadores rurais e seus sindicatos, organizações não-governamentais, empresas estatais, multinacionais, etc. Nesta direção, é preciso reconhecer que se a construção das categorias populações nativas/populações tradicionais, hoje incorporadas ao jargão tecnocrático, teve o mérito, na arena política, de unificar interesses diversos e de fazer impor determinados grupos sociais como atores políticos, do ponto de vista da pesquisa corresponde à homogeneização da diversidade; e, neste sentido, mais obscurece do que revela.

O segundo elemento que pode ser perseguido diz respeito aos termos que estão em uso nos "Núcleos Temáticos"do "Escopo Sócio-Cultural", a saber:

- patrimônio étnico cultural;

- populações nativas;

- interações das sociedades humanas e o ambiente natural.

Uma primeira leitura que pode ser feita da formulação apresentada aponta para uma espécie de utilização econômica da diversidade cultural. Assim, as populações nativas são vistas como portadoras de um conhecimento específico que lhes permite uma forma determinada de preservação do ambiente natural. No limite, é este conhecimento utilitarista que parece ser buscado. A diversidade cultural como conceito e as implicações que decorrem de tomá-lo como referencial analítico, isto é, o conhecimento da cosmologia, das relações sociais, das formas sociais de apropriação e de uso do território, das relações inter-étnicas, das estruturas de poder, que estão na raiz da forma como os grupos sociais se relacionam com o meio-ambiente, restam obscurecidos.

O terceiro elemento que parece estar oculto na forma como estão estruturados os núcleos temáticos diz respeito à relação entre a proteção do meio ambiente e as necessidades das sociedades. E, desta perspectiva, não estou me remetendo à discussão filosófica, mas às necessidades historicamente construídas e socialmente reconhecidas. Refiro-me mais especificamente à geração de tecnologias. Cabe perguntar: - quem determina quais e para que são as tecnologias a serem geradas?; - qual a relação entre necessidades sociais e a geração de tecnologias? - qual o significado da introdução de tecnologias para uma sociedade ou grupo social específico, especialmente no que se refere à distribuição do poder político e econômico?

No âmbito das questões que me foram suscitadas ao longo da leitura das "áreas prioritárias"de pesquisa, poderia ainda assinalar várias outras indagações, como por exemplo, por que o ítem saúde não explicita e/ou não privilegia ou não inclui os estudos sobre a medicina tradicional, os rituais de cura e os rituais xamânicos, particularmente efervescentes entre as sociedades indígenas da Amazônia? Ou, em outros termos, por que a exclusividade dos estudos a partir da lógica da medicina ocidental, se há evidências clássicas na literatura de que a questão da saúde não se explica apenas por esta lógica?

Caberia registrar, ainda, o pequeno aporte financeiro, comparativamente às outras áreas prioritárias, das pesquisas de cunho socológico. Tomando a previsão orçamentária contida no Edital 01/95, pode-se visualizar, no gráfico abaixo, que o orçamento a elas destinado corresponde a pouco mais da metade daquele que se destina individualmente às demais "áreas prioritárias". Excetuando os dez por cento destinados à reserva técnica do Programa, temos:

Por último, gostaria de ressaltar um outro elemento além da lógica utilitarista, que parece estar na raiz das formulações aqui analisadas: a relação entre natureza e cultura. E, refiro-me não apenas ao par de opostos tal como consagrado na Antropologia por LÉVI-STRAUSS [1967], mas principalmente ao fato de que há uma espécie de naturalização da natureza, quando se sabe que é pressuposto antropológico básico reconhecer que aquilo que é recortado como natureza varia de uma sociedade para outra, assim como variam os elementos da natureza que podem ser transformados em objetos de apropriação pelo homem.


Considerações finais

Meu objetivo, nessa comunicação, foi mostrar a necessidade de transportar para dentro da formulação dos "núcleos temáticos"o princípio de que a preservação do meio ambiente passa por outras dimensões que não apenas a natureza em si, como nós, indivíduos letrados, da sociedade ocidental, por vêzes, a percebemos. Mostrar a necessidade de transportar, enfim, para dentro da formulação dos "núcleos temáticos" o pressuposto antropológico de que a percepção social que os grupos sociais têm sobre as atividades em que estão envolvidos e de que os significados que lhes atribuem não são meras subjetividades; ao contrário, têm consequências efetivas sobre as ações.

Para finalizar, cabe ressaltar que ao chamar a atenção para as formulações do Programa - Pesquisa Dirigida ao Desenvolvimento Sustentável (PPD), não visei desqualificá-las ou mesmo promover uma distinção maniqueísta entre pesquisa aplicada e pesquisa básica, que a eleição de prioridades em geral tende a conduzir. O que me parece estar em jogo e que eu procurei salientar é, por um lado, a necessidade de desnaturalizar o meio ambiente e especialmente das relações do homem com o meio-ambiente. Nesse sentido, é fundamental atentar para o fato de que, conforme observou CARNEIRO DA CUNHA [1994:134],

"as culturas constiuem para a humanidade um patrimônio de diversidade, no sentido de apresentarem soluções de organização do pensamento e de exploração de um meio que é, ao mesmo tempo, social e natural" [grifos meus].

E, por outro, o reconhecimento de que a preservação do meio-ambiente é o produto da interação e dos conflitos entre distintos grupos sociais. Por consequência, a sustentabilidade não é apenas o resultado do conhecimento dos ecossistemas e do uso de tecnologias apropriadas, mas da forma como se organizam as relações sociais, do modo como os sociedades percebem a natureza e das contendas políticas que subjazem ao processo de gestão do território.

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1994 - Prioridadesem Ciência e Tecnologia na Amazônia,Belém.

THOMPSON, E.P.

1987 - Senhores e Caçadores, Rio de Janeiro, Paz e Terra.

VIEIRA, P.F.

1992 - "A problemática ambiental e as Ciências Sociais no Brasil (1980-1990). Mapeamento Preliminar e Avaliação Crítica da Produção Acadêmica",.BIB, 33, ANPOCS, pp.3-32.

Notas:

1 Estou utilizando a expressão dimensão ambiental como recurso para unificar todas as referências ao meio-ambiente, que aparecem sob as mais diversas formas, como desenvolvimento sustentável, biodiversidade, ecodesenvolvimento, manejo ambiental, etc.

2 VIEIRA, P.F [1992:3], por exemplo, utiliza este termo para designar "a integração de todas as disciplinas especializadas das ciências sociais e humanas envolvidas na investigação das interrelações entre grupos sociais e comunidades e seu meio ambiente biofísico e construído".

3 Pode-se perceber o alcance desta discussão, por exemplo, no GT 04 - Ecologia e Sociedade -, que se reuniu na ANPOCS, 1994. V. ANPOCS, Programas e Resumos, pp. 161, 109, 104, 103, 91, 83 e 75.

4 Uma primeira versão desse texto foi apresentada durante o VII Encontro de Ciências Sociais do Norte e Nordeste/ANPOCS, João pessoa, 24 a 26 de maio de 1995. Esta versão, revista, beneficiou-se dos comentários de colegas presentes ao evento, aos quais, naturalmente, não cabe qualquer responsabilidade por eventuais equívocos ou imprecisões.

5 A minha formação é de antropóloga e ao utilizar as expressões investigação sociológica/pesquisa sociológica, ao longo do texto, estou recorrendo a um termo mais genérico para me referir à investigação dos processos sociais.

6 É revelador do estatuto político da discussão sobre a dimensão ambiental que a CNUMAD, como conferência dos Chefes de Estado, tenha prescindido da presença dos cientistas e dos demais cidadãos, que organizaram o Fórum de Ciência e Cultura e o Fórum Global, respectivamente.

7 O Encontro de Altamira [fevereiro de 1989], mais especificamente a cena em que a índia Kayapó - Tuíra - ergueu o facão frente a um dos diretores da ELETRONORTE, à época em que o Governo brasileiro negociava o projeto das barragens do Xingu, talvez possa ser considerado um símbolo deste período.

8 As informações sobre o PNN estão contidas em LEITÃO [1990:109-116], que chama a atenção para a presença dos militares nas questões referentes aos índios, ao meio ambiente, etc., consideradas de segurança nacional.

9 Ver a este repeito, por exemplo, BECKER,.[1990, 1994]; RIBEIRO [1990, 1994]; SINGER [1994].

10 O G7 ou Crupo dos 7 é formado pelos sete países mais industrializados do mundo - Estados Unidos, Grã-Bretanha, Japão, França, Alemanha, Canadá e Itália.

De acordo com ROS FILHO [1994:53ss] o PP-G7 foi decidido em uma reunião do G7 em julho de 1990, em Houston-E.U. Nesta data, foi previsto um orçamento de um bilhão e seiscentos milhões de dólares [MMA, 1994:5]. O acordo com o Governo Brasileiro foi oficializado em Genebra, em dezembro de 1991, com a participação da Comunidade Européia e do Banco Mundial. No acordo, foi decidido que na primeira fase seriam aportados duzentos e cinquenta milhões de dólares, dos quais vinte milhões de dólares seriam destinados a Ciência e Tecnologia, cf. MMA, 1994:5-6; 20-21].

11 De 1992 a 1994, foram gastos dois milhões de dólares com os chamados "estudos de pré-investimento destinados ao detalhamento dos projetos", estando previsto o desembolso para a execução dos Subprogramas para este primeiro semestre de 1995, cf. MMA [1994:19].

12 Todas as informações referentes ao Sub-Programa Ciência e Tecnologia, contidas neste texto, são extraídas de:

a - MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras. SubPrograma de Ciência e Tecnologia. Documento Básico, janeiro de 1994. [versão preliminar]

Há duas versões anteriores deste documento, datadas de junho de 1993 e agosto de 1993 e uma comparação entre as tres versões não indica alterações importantes para o que está proposto nesta comunicação.

b - MINISTÉRIO DA CIÊNCIA E TECNOLOGIA. Programa Piloto para a Conservação das Florestas Tropicais Brasileiras. SubPrograma de Ciência e Tecnologia, Edital 01/95, abril de 1995.

c - MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE E DA AMAZÔNIA LEGAL. Relatório de Atividades. 1992 - 1994, dezembro de 1994.

13 Na primeira fase deste Subprograma está previsto um orçamento de aproximadamente vinte milhões de dólares, sendo 5,4 milhões destinados à pesquisa dirigida (PPD) e o restante ao fortalecimento do Museu Paraense Emílio Goeldi e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, institutos vinculados ao Ministério de Ciência e Tecnologia (MMA, 1994:20-21).

14 Em 1994, iniciou-se a implantação da Etapa 1 do CE, que consistiu na elaboração do denominado "Plano Estratégico" das duas Instituições, acima mencionadas. Estão previstas mais tres etapas: recuperação e melhoria de infra-estrutura e de equipamentos; fortalecimento da base de recursos humanos; melhoria da disseminação e informação científica. Ver a este respeito MCT [1994:6] e MPEG [1993].