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Acima, foto de Capiba. |
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Em 1937 2 eu e Fernando Lobo projetamos uma viagem
ao Rio de Janeiro, Capital Federal, naquela época.
Tirei uma licença no Banco do Brasil S/A de 30 dias,
para tratamento de saúde, juntei com umas férias atrasadas
e nos mandamos para a Capital que já era maravilhosa.
Passados uns dias de viagem, cinco ou seis, não me lembro mais,
todos de cantoria à bordo até tarde da noite (eu era pianista e
Fernando o cantor). desembarcamos no cais Mauá.
Fernando, mais atirado do que eu e foi logo tomando as
providências que o caso exigia, isto é, livrar-se da alfândega
e arranjar uma pensão ou um hotel, contanto que o preço fosse
camarada.
Depois de tudo resolvido, partimos com as
nossas maletas na mão e tomamos um bonde em
direção ao Catete, rua de muitas pensões e hotéis e que era,
no dizer de todos, refúgio dos nortistas e mineiros que apontavam no Rio.
Chegamos ao Catete e arranjamos logo uma pensão ou hotel, não
sei, na Rua Correia Dutra, n.o 72, que não era muito
barata,
mas que servia muito bem por ser perto do centro da cidade.
O assunto desta História prende-se à minha alta burrice (hoje se
diz desligado), com referência ao que passei na noite do dia de
minha chegada ao Rio de Janeiro já contada em prosa e verso
por todos os intelectuais da época, que me conheceram e me
conhecem ou não. Vivos e mortos.
É uma história que. serve muito bem para mostrar o que é um
sujeito despreparado para enfrentar as grandes cidades.
O vexame se deu mais ou menos assim. Eu e Fernando, logo
que chegamos à cidade, tomamos banho, trocamos de roupas
e zarpamos para os cabarés chiques da época.
Entramos, de início, num tal, Dancing Avenida e aí foi que
começou a minha perdição. As mulheres ficavam sentadas e
os marmanjos rodeando-as, se bem me lembro, como se nós
fôssemos os urubus e elas a carniça. Um olhar aqui, outro acolá,
como quem está escolhendo algo diferente, eu e Fernando íamos
tomando a massaranduba do tempo. A orquestra estava a todo
vapor despejando som no meio do salão e a gente cubando ...
Era maxixe, bolero, valsa, tango, samba, ragtime, o diabo a quatro
e a gente lá ouvindo o ponto.
De repente Fernando, que era mais atirado do que eu, chamou
uma das taxi-girls para uma mesa que estava vazia junto a nós e
começamos a beber alguma coisa com aquela jovem. Nem eu nem
Fernando éramos de beber muito - Bebíamos o suficiente para não
ficarmos de cara limpa. Às horas tantas, Fernando sai maxixando
com a mulher que ele escolhera e eu, para não ficar atrás, saí
também, dançando aquilo, que para mim já era a primeira
vergonha que passava na Capital Federal.
Nunca fui muito de dançar, quanto mais dançar maxixe, que era
o ritmo que fazia gosto a gente ver o carioca dançando.
É como o frevo só presta mesmo dançado por pernambucano.
Outro cara qualquer vai dançar e o fato é que resulta em barulho,
porque começa dar pontapé a torto e a direito. O frevo não é isso.
O frevo é para se dançar, ou melhor, se fazer o passo,
religiosamente.
A orquestra, de momento a momento, mudava o ritmo da música
e eu achando bom, não sabendo que mais tarde o negócio ia
engrossar - Quando a orquestra parou, apareceu junto de nós
(eu e a mulher) um sujeito com uma máquina de picotar,
como aquelas dos antigos condutores dos trens da Great Western e,
segurando o cartão que a mulher havia tirado do seu decote,
danou-se a picotar o referido cartão, que eu só ouvia era aquele
barulho no meio do salão: teque, teque, teque, teque, que não
acabava mais.
Muito admirado com aquele estrago, perguntei à mulher o que era
aquilo e ela me respondeu que era para eu pagar dez tostões
(l. 000 réis) por furinho. Botei as mãos na cabeça e vi que
estava sendo roubado em plena Avenida Rio Branco.
Contei a safadeza a Fernando Lobo e ele me disse que
era assim mesmo e que eu devia pagar logo porque senão
dava um bode dos diabos.
Imediatamente, eu disse: "Fernando, vamos embora senão esses
caras alisam a gente" . Fernando ficou enganchado com a
mulherzinha e eu desci e fui logo dizendo: "Táxi".
Apresentou-se um e eu disse, como quem estava muito seguro:
"Para o Catete". Felizmente o chofer foi mesmo para o Catete
porque se ele tivesse emburacado para a Ilha do Governador,
para mim era a mesma coisa - Eu não conhecia nada no Rio,
como até hoje não conheço.
"Aqui está bom?", disse o chofer para mim e eu confirmei:
"Está bom, sim senhor". Paguei o táxi e agora é que começa a
história. Fui ao primeiro hotel e perguntei: "Aqui está hospedado
o senhor Lourenço da Fonseca Barbosa?"
O porteiro consultou o seu livro de presença e disse secamente:
"Não". Em seguida me dirigi a uma pensão e, depois de apertar
a cigarra apareceu um sujeito com cara de sono.
Fiz-lhe a mesma pergunta e ele me disse: "Um momento".
Foi lá dentro, mexeu numa caixinha e voltou me dizendo que:
"Não estava ali, não senhor". Parti para outras.
A mesma pergunta e mesma resposta. Confesso que, por
essas alturas as minhas visitas já passavam das três da madrugada.
Meu cabeção começou a endoidar. Já estava sem saber o que
fazer, perdido naquele deserto de cimento armado.
Apertei outra campainha e, de lá do pé da escada,
saiu outro indivíduo me perguntando o que eu queria -
Fazia-lhe a clássica pergunta: "Aqui está hospedado o
Senhor Lourenço da Fonseca Barbosa, que veio do Norte,
num Ita, com Fernando Lobo?" O porteiro ia lá dentro
verificava uns cartões e voltava. Era nova esperança
mas, qual o quê. Ele me dizia secamente: "Não".
O meu desespero já não tinha mais limite Estava doido que
Fernando aparecesse porque assim eu poderia dormir um pouco.
Mas, Fernando não podia aparecer àquelas horas, porque o
Dancing Avenida ainda não tinha fechado as suas portas, e as
mulheres só saíam do salão quando a função terminava.
Eu estava com medo daquela rua deserta. Deserta de tudo,
não, porque vez por outra passava, lá longe, numa esquina,
também deserta, um bêbado qualquer, que por sorte minha não
passava junto a mim.
Continuava batendo e apertando as cigarras das pensões e
recebendo, depois da verificação competente, o mesmo NÃO.
O pânico já havia se apoderado de mim quando toquei em uma
cigarra e ela
f e z: QUEMMMMMMMMMMMMMMMMMMM.
Apareceu um porteiro que estava dormindo numa cama de lona debaixo
da escada e fez-me a pergunta
costumeira: "0 que deseja?" Respondi um tanto
cabreiro: "É aqui que está hospedado Lourenço da Fonseca Barbosa,
que veio do Norte esta tarde, com Fernando Lobo?" O porteiro consultou
o sei, fichário e depois me disse: "É, sim senhor, mas, no momento, não
se acha na pensão!"
Eu, radiante de alegria, puxei a minha carteira de identidade e
mostrando ao cara, fui dizendo: "Sou eu mesmo". Pra que eu lhe
disse isso ... O cara arretou-se dentro das calças e, olhando para
mim com o focinho de poucos amigos, foi dizendo, com ar de quem
não gostou da brincadeira: "0 senhor não tem o que fazer, não?
Me acordar a estas horas da madrugada para perguntar se o
senhor está hospedado aqui, com o maior cinismo do mundo?
" Ai, eu procurei me justificar antes que ele partisse para a
ignorância e ele continuou: "0 senhor ou é doido ou está bêbado,
e eu não estou aqui para tolerar conversa de quem não tem o que
fazer, não"
Pelo seu vocabulário notei que se tratava de um nortista e então
procurei justificar a minha presença ali, dizendo: "Tenha calma
meu camarada! As casas daqui se parecem muito umas com as
outras. Não é como no Recife que são bem diferentes". Eu
carreguei bem no "RÉcife", para ele ver que eu era lá do Recife.
Na verdade, era um caso para se estudar,
esse troço de o sujeito estar procurando por si mesmo
mas, não foi bem esse o caso. Eu apenas queria me certificar s
e tinha me hospedado naquela espelunca igual a tantas outras espalhadas
pelo bairro do Catete. Ele então foi dizendo: "Que é isso meu chapa.
' eu estou aqui para isso mesmo, para atender aos hóspedes"
e foi me entregando a chave do quarto e dizendo: "Passe bem a noite"
- Ora, passe bem a noite. Deitei-me com o dia amanhecendo e logo
em seguida chega Fernando Lobo querendo contar suas aventuras com
a tal mulherzinha: "Vai te danar, Fernando".
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