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Acima, Capiba e os amigos da pensão de Dona Berta |
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Eu tinha uma mala, que por sua vez, tinha uma fechadura e uma chave.
Aliás, era praxe por aquela época, ou melhor, rio começo do século em que vivemos,
todo sujeito que vinha do interior para a capital trazer com ele a sua mala, se fosse mais
ou menos abonado. Fui rim desses no inicio dos anos 30. Havia também aqueles que, em
vez de mala, traziam um embrulho com seus pertences, cuja fechadura era um cordão.
Para esses não havia o problema de, vez por outra, se perder a chave.
Era só desatar o nó e meter o cordão no bolso e estava resolvida a questão.
O forasteiro, tinhoso, sempre se hospedava em pensões familiares, isto é,
em pensões de toda a confiança onde, tanto fazia o cara ter mala para guardar os seus teréns,
como depositar seus cacarecos num canto de parede. É necessário que eu
diga que, por aquele dias, nem toda pensão tinha guarda-roupas, onde o sujeito pudesse
pendurar os ternos, se os possuísse.
Feita a camaradagem entre os hóspedes, a promiscuidade era tanta que, por vezes,
uns usavam os objetos dos outros sem a menor cerimônia.
Como exemplo, posso citar o caso da gravata do meu amigo e de todos de
nossa pensão, João Suassuna.
Quanto "seu" Salomão Nutels, pai do nosso querido Noel,
morreu, da gravata que estava no pescoço do Noel foi cortado um
pedaço para seguir com
o falecido, segundo o cerimonial judeu.
Mas, sucede que a gravata que se achava com Noel era do nosso
amigo João Suassuna, que assistiu àquela operação com a rnaior calma possível.
Se era norma da religião deles, nada havia a reclamar.
Havia também, na pensão de Dona Berta, mãe de Noel, na famosa 234 da Rua dos
Pires, um cara que morava conosco que era metido a comunista com as coisas dos outros.
E era comunista mesmo .
Esse cara ia dormir depois de todo mundo e acordava também depois
que os outros já haviam ido para seus afazeres, inclusive eu.
Até aí, tudo bem. Mas, o diabo é que ele sabia
que a cozinheira Chiquinha gos tava muito de mim e que havia manjado
a safadeza do bicho e, me disse: "Seu Capiba, o comunista que mora com
vocês, lá em cima, todos os dias ele desce metido no seu roupão, com a sua saboneteira, a
pasta de dentes e até a sua escova de dentes, e vai para o banheiro com a maior cara de pau
do mundo, tomar banho. O senhor deu essa liberdade àquele safado para tanto?" Eu disse-lhe:
Não". Ela continuou: "Pois é isso seu Capiba. Amanhã eu tomo tudo daquele safado se o senhor
me der ordens para eu tomar, quando ele passar para o banheiro". E tomava mesmo, porque a
Chiquinha era paraibana, portanto, mulher macho, sim senhor. Mas disse para ela:
"Não precisa, não, Chiquinha, deixa pra lá".
Voltando à vaca fria, isto é, à história da minha mala que, foi não foi, eu estava
mandando arrombá-la por ter perdido mais uma vez a chave da mesma.
Botava outra fechadura e continuava o drama - Perdia novamente a chave e
haja fechadura quebrada. Para que eu pudesse ter as minhas coisas bem
guardadas, mandava botar nova fechadura. A última vez que mandei mudar a
fechadura, lembrei-me de mandar fazer 12 chaves de reserva, para não ter mais
preocupação com a minha tão sacrificada malinha, toda vez que perdesse a chave.
Mas, sucede que perdi pela décima ou vigésima vez a tão querida chave, num domingo,
no campo de futebol. E, mais uma vez tive que rebentar a nova fechadura, porque
as 12 chaves de reserva estavam bem guardadinhas dentro da infeliz mala.
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