Acima, Capiba e Abelardo Barbosa · Chacrinha.
Acervo iconográfico da Fundação Joaquim Nabuco


NÃO ENTRE EM MEIO DE CONVERSA

"E o que foi que houve por eu ter dito aquela besteira?"

Não entre em meio de conversa, é uma frase que me tem acompanhado desde que entrei no Banco do Brasil S/A, em 1930. É uma frase que bem representa a irreverência da mocidade no trato com as coisas sérias da vida. Eu bem que poderia, naquele momento, ter ficado calado, mas quis ser engraçado, e resultou numa indelicadeza e numa falta de respeito sem limite.

Todos os dias quando a gente assinava o livro de ponto que ficava sob a guarda do Dr. Lindolfo Pereira, subcontador da agência, nos reunamos em grupinhos aqui, grupinhos ali, a discutir o que estava certo e o que estava errado. Ficávamos apreciando, também, de longe, a pose do Dr. Lindolfo Pereira sempre a olhar para o relógio que ficava bem em cima, ou melhor, uns dois metros acima da mesa onde ficava o livro de ponto. E, quando os ponteiros iam se aproximando da hora do encerramento do ponto, o Dr. Lindolfo ia ficando nervoso até que se aproximava do livro e ficava mais atento ao relógio a fim de que ninguém assinasse o ponto depois de passado nem um segundo, quanto mais um minuto, da hora do encerramento. E, quando chegava a hora, a fila podia estar no meio da rua, ele fechava o livro e desaparecia com o mesmo, entrando na caixa forte para que ninguém alegasse que estava dentro do Banco, etc.,etc. Não havia pedido. Quem estivesse dentro do Banco e não tivesse assinado o tal livro, trabalhava de graça, sem chiar.

O porteiro, Severino Gregório dos Santos, por sua vez, tinha ordem de fechar o portão de ferro, da entrada do prédio, quando chegasse aquela hora fatídica que, a princípio, era às 8 horas, mas, depois, passou a ser às 9 horas. Fechado o portão, quem estivesse dentro, mesmo sem assinar o livro de ponto, ia logo tirando o paletó para trabalhar.

Isso que eu estou dizendo não é brincadeira, não. É a pura verdade e quem os das não quiser acreditar pergunte aos velhos funcionários décadas de 20 e 30 para ver se eles não dizem a mesma coisa .

A falta não era justificada e o cara não podia abandonar o estabelecimento sob pena de outras complicações. Era melhor engolir o sapo como ele vinha e não estrilar porque a revanche não seria deste mundo .

Os Gerentes, por essa época, casavam e batizavam.

Eram uns deuses do Olimpo, porém, sem aquelas coroas de louro enfeitando-lhes as cabeças. Talvez eles não as usassem por considerar um tanto fora de moda, mas, muitos deles até que gostariam de ostentá-las afim de se apresentarem diferentes dos infelizes funcionários, principalmente daqueles que se esforçavam para chegar ao augusto posto de Gerente.

Comigo não, a coisa era diferente. Eu só estava ali no meio daquela tourada porque não tinha outro meio de vida. Ia lá me aventurar a querer ser um todo poderoso Gerente? Deus me livre. Isso ficava para aqueles que nasceram predestinados para tal ofício.

Chegando ao Banco logo cedo, como era costume de todos os funcionários, divisei no meio do salão um agrupamento que, se não estava alegre, pelo menos não tinha ninguém com cara de choro. Dirigi-me para o grupo e tentei fazer parte do mesmo, ora forçando uma entrada aqui, ora me imprensando acolá, sem muito resultado nos primeiros instantes.

A roda estava tão compacta, que eu corria para um lado e para o outro a fim de ver se me infiltrava, e nada. Estava mais duro do que a rigidez do Dr. Lindolfo Pereira com relação ao livro de ponto.

Lutei, lutei, com obstinada perseverança, até que consegui, para infelicidade minha, penetrar no meio do grupo com ares de triunfador, quando ouvi alguém dizer com a voz um pouco abafada: - Já tomou tudo... Eu sem saber do que se tratava, completei a frase com: SÓ falta tomar no c ...

Com essas palavras a roda se desfez em um segundo e eu fiquei feito um bestalhão, ali no meio dos colegas, sem saber do que se tratava. Minutos depois fui para minha carteira e sentei-me pensando porque os colegas me deixaram sozinho ao dizer aquelas palavras.

Será que eu não estava agradando? Teria sido inconveniente? Passado algum tempo, um colega veio a mim e disse: "Companheiro, você quando entrar no meio de uma conversa, veja primeiro do que se trata, para não cometer a gafe que cometeu, quando disse aquilo". Ai, eu perguntei ao colega: "E o que foi que houve por eu ter dito aquela besteira?"

O colega me disse: "Olha, o chefe estava contando que a sua senhora está doente e que já havia tomado tudo quanto é remédio e não tinha tido resultado - Ai entra você e diz aquilo- nós ficamos com a cara no chão". "E agora, que devo fazer?" disse-lhe eu. Ele me disse: "É melhor deixar como está porque o conserto vai ser muito pior".

É... De lá para cá, nunca mais entrei no meio de conversa e todas as gerações, depois de mim, que passaram pelo Banco do Brasil S/A sabem muito bem que não se deve entrar no meio de conversas ...

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Textos de "Histórias que a vida me ensinou" de Capiba
Editora Massangana, da Fundação Joaquim Nabuco