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Na foto ao lado Capiba aos dois anos de idade,
com os tios maternos Agripino e João Maciel. |
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nunca soubemos da existência do finório Teopompo Moreira".
A minha primeira vitória como compositor se deu em 1928.
Eu vi em uma revista que se editava no Rio de Janeiro,
Vida Doméstica. o anúncio de um concurso de música que
abrangia uma infinidade de gêneros populares, como fox-trot,
valsa, samba, one-step, tango, maxixe, toada, marcha, rag-time,
charleston, batuque e o diabo a quatro.
Por essa época eu era estudante do Liceu Paraibano e pianista
do cinema Rio Branco, na capital da Paraíba.
Como todo jovem, tinha vontade danada de mostrar um
pouco do que seria capaz, mas, por aqueles dias não havia as
oportunidades que existem hoje no terreno da música. Era tudo
fechado. Não havia rádios.
As gravações eram poucas e ruins e, assim mesmo, só para quem
morava no Rio de Janeiro. Televisão, nem se falava. Os únicos
meios de comunicaçâo eram o telégrafo sem fio e os Itas, sem falar
no deficiente correio postal, o cavalo, o jumento, etc., etc.
O Norte e o Nordeste não tinham direito a nada.
Os compositores do Recife eram muitos e todos bons, mas
Isso acontecia com os bambas da música, quanto mais comigo,
que era apenas um aprendiz de ,compositor. Vale ressaltar que
todos eram músicos, ou melhor, conheciam música. Mas, quando
o sujeito quer vencer, em qualquer atividade, tem conhecimentos
e muita força de vontade, nada é difícil.
Com relação ao concurso, não p ensei duas
vezes. Meti um tango chamado Flor das Ingratas (l)
dentro de um envelope e remeti à revista Vida Doméstica.
Dentro de alguns meses' recebi uma carta,
datada de 14/05/1929, assinada pelo seu Diretor,
Jesus Gonçalves Fidalgo, anunciando que o meu tango,
Flor das Ingratas, havia conquistado o primeiro lugar no gênero.
É escusado dizer o quanto fiquei satisfeito, principalmente
porque as músicas eram examinadas e classificadas por
professores do Conservatório Nacional de Música e não por l
eigos, como se vê hoje, levantando-se um pedaço de madeira,
onde se lê a nota do dito Juiz, que varia de l a 10. A notícia ecoou
pela redondeza, e o meu nome foi se firmando cada vez mais como
compositor popular.
Depois de passado algum tempo, me surgiu outra oportunidade,
desta feita em outra revista, chamada O Malho, também do Rio de
Janeiro, que falava de um concurso de músicas de carnaval, para 1930.
Consultei o meu companheiro de futebol, João dos Santos Coelho
Filho, meu parceiro como letrista de outras músicas minhas e
fizemos um samba, ao qual denominamos de Não Quero Mais 2.
Feito o samba, o difícil foi encontrar os pseudônimos para substituir
os nossos nomes, conforme exigência do concurso. Afinal, botamos:
Música de Pé de Pato (eu) e Letra de Joca da Beleza
(João dos Santos Coelho Filho).
Metemos o samba dentro de um envelope e o remetemos para o endereço
que era a redação da revista O Malho. O concurso era promovido pela
citada revista e a conhecidíssima Casa Édison, produtora dos discos
Odeon, ainda hoje em circulação em todo o Brasil, e ficamos de
olho na revista para ver em que dava.
O tempo foi passando e a gente sem notícia nenhuma.
Como já disse, a coisa mais difícil do mundo era o Norte ter noticias
do Sul - Os dois mundos viviam completamente isolados um do outro.
Não é como hoje que o cara toma café aqui, almoça no Rio ou São
Paulo e janta no Recife. E se quiser, vai até mais longe.
Eu nem me lembrava mais do concurso de O Malho com a
Casa Édison, até que uma manhã chegando à loja de disco dos Srs.
Schuler & Cia., na Rua Maciel Pinheiro, n.0 88,
capital da Paraíba, cujo gerente, Joaquim Machado, muito nosso
amigo e que sabia que nós havíamos mandado um samba para o
tal concurso, botou na vitrola uma música que, pelas primeiras
notas ouvidas, só podia ser minha. E era. Imediatamente,
lembrei-me da introdução do nosso
samba: Não Quero Mais!
Não me contive de alegria e dirigi-me para onde se encontrava
o Joaquim Machado e me certifiquei do que estava ouvindo: era
mesmo Não Quero Mais!
Essas alegrias sempre acontecem quando o fato ocorre pela
primeira vez. Depois não há mais razão para tantas alegrias uma
vez que os degraus vão surgindo todos os dias e o sujeito vai
vencendo-os e se acostumando com os mesmos, sem se aperceber.
Essa gravação tinha uma particularidade muito importante.
Diziam as bases do concurso que as músicas, em número de cinco,
seriam cantadas por Francisco Alves, acompanhado da Orquestra
Pan-Americana, de Simão Boutman, dois fatores de sucesso na
década de 20 e outras décadas.
Quando tirei o disco da vitrola e li o que estava escrito no selo:
Música de Pé de Pato e Letra de Joca da Beleza, a decepção
foi enorme para mim, um principiante que perdia a oportunidade
de ver seu nome estampado naquele disco ao lado de Francisco
Alves e da Orquestra Pan-Americana. Creio que todo iniciante
ficaria triste como eu fiquei. Mas não havia de ser nada, porque
nós iríamos saber o porquê daquela sabotagem, uma vez que a
revista dizia que o pseudônimo era unicamente para haver sigilo
quanto ao autor ou autores da obra, durante o concurso.
Fizemos várias cartas aos promotores do concurso e eles,
então, nos disseram que por ocasião de abrirem os envelopes
extraviaram o referente ao 40 lugar, restando
uma vaga lembrança de que o samba tinha vindo da Paraíba do
Norte, pelo carimbo do correio. Neste momento, apareceu um
senhor que se dizia chamar Teopompo Moreira, afirmando ser
o autor do samba em questão e que só queria o prêmiode 600$000
(seiscentos mil réis), e que podiam considerar os autores com os
pseudônimos.
Por causa de um vivaldino e tanta ingenuidade da parte dos
promotores do concurso, eu e meu companheiro deixamos de
figurar ao lado de Ary Barroso, que foi o 1.0 lugar no referido
concurso, com a marcha: Dá Nela!, que todo o Brasil conhece.
O valor de 600$000 que mais tarde nós recebemos, depois de
provar a autoria do samba em questão, não nos faria nem mais
ricos nem mais pobres. O importante mesmo era a vitória e a
audácia de enfrentarmos, com um samba, os sambistas em seu
próprio terreiro.
O samba teve grande aceitação, principalmente no Estado da
Paraíba, onde nós gozávamos de relativo prestígio, e, por mais que
indagássemos, nunca soubemos da existência do finório Teopompo
Moreira, que certamente usava costeletas, chapéu coco, polainas
e uma bengala de cabo de chapéu de sol, provando ser um autêntico
vigarista da época.
1 Flor das'Ingratas. Tango. Primeiro lugar no Concurso da revista Vida
Doméstica, do Rio de Janeiro e publicado na mesma revista na edição
de 28/04/1929 - Não gravado. |
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