Carta do achamento do Brasil,
de PERO VAZ DE CAMINHA, dirigida a D. MANUEL

(Porto Seguro, da Ilha de Vera Cruz, 1 de maio de 1500)

Versão em linguagem mais recente, pelo Dr. António Baião  

(Reprodução da primeira página do original)


Senhor:

 

Pôsto que o capitão-mor desta vossa frota e assim os outros capitães escrevam a V.A. a nova da descoberta desta vossa terra nova, que ora se encontrou nesta expedição, não deixarei também de dar conta dela a V.A. como melhor puder, embora seja o menos competente de todos para isso. Desculpe V.A. a minha ignorância pela minha boa vontade e creia que não escrevo mais nem menos do que vi e me pareceu, não aumentando assim nem diminuindo.

 

Da derrota do caminho nada direi a V.A., pois o não saberei fazer e os pilotos terão certamente esse cuidado e, pôsto isto, começarei:

 

Digo que a partida de Belém, como V.A. sabe, foi na segunda-feira, 9 de Março; e sábado, 14 do dito mês, entre as oito e nove horas, nos achámos entre as Canárias, mais perto da grande Canária e ali andámos todo aquele dia em calma, à vista delas obra de três ou quatro léguas e domingo, 22 do dito mês, às dez horas pouco mais ou menos, houvémos vista das ilhas do Cabo Verde, isto é, da ilha de S. Nicolau, segundo parecer do piloto Pêro Escolar. E, na noite seguinte à segunda-feira, ao amanhecer, se perdeu da frota Vasco de Ataíde, sem haver tempo forte ou contrário, que o pudesse explicar; para o encontrar fêz suas diligências o capitão, mas não mais apareceu.

 

Assim seguimos nosso caminho por êste mar além até terça-feira de oitavas da Páscoa, que foram vinte e um dias de abril, em que topámos alguns sinais de terra, como muita quantidade de ervas compridas a que os mareantes chamam botelho e assim outras a que também chamam rabo de asno. Segundo os pilotos estavamos da dita ilha a obra de 660 ou 700 léguas.

 

Na quarta-feira seguinte, pela manhã, topámos aves conhecidas por fura-buchos, e nêste dia, a horas de véspera, houvémos vista de terra, primeiramente dum grande monte mui alto e redondo e de outras serras mais baixas ao sul dêle e de terra chã com grandes arvoredos; ao monte pôs o capitão o nome de Pascoal e à terra, Terra da Vera Cruz. Mandou lançar o prumo, acharam vinte e cinco braças e ao sol pôsto, obra de seis léguas de terra, surgimos em dezanove braças, ancoragem limpa, onde permanecemos tôda aquela noite e, na quinta-feira de manhã, fizémos vela e seguimos direitos à terra, os navios pequenos adiante, indo por dezasete, dezaseis, quinze, quatorze, treze, doze, dez e nove braças até meia légua de terra, onde todos ancorámos na direcção da foz dum rio. Chegaríamos a esta ancoragem às dez horas pouco mais ou menos e dali avistámos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito, segundo os navios pequenos disseram por chegaram primeiro.

 

Ali lançámos os bateis e esquifes fora e vieram logo todos os capitães das naus à do capitão-mor, com quem conferenciaram, mandando no batel a terra Nicolau Coelho para observar o rio. Tanto que êle para lá se dirigiu acudiram pela praia homens, em grupos de dois ou três, de maneira que quando o batel chegou à boca do rio estavam lá dezoito ou vinte homens pardos, completamente nus. Traziam arcos nas mãos e suas setas e, em ar agressivo se dirigiam para o batel, mas Nicolau Coelho lhes fêz sinal que se acalmassem e assim depuzeram os arcos. Ali não pôde ir à fala com êles nem com êles por isso ter entendimento útil, por o mar quebrar na costa, sòmente lhes deu um barrete vermelho, uma carapuça de linho que levava na cabeça e um sombreiro preto. E um dêles lhe deu um sombreiro de penas de aves compridas com uma pequena copa de penas vermelhas e pardas, como de papagaio e outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas, meúdas, peças que, segundo creio o capitão envia a V.A. e com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder dêles haver mais fala, por causa do mar.

 

Na noite seguinte ventou tanto sueste como choviscos que fêz caçar as naus e especialmente a capitania e na sexta-feira pela manhã, às oito horas pouco mais ou menos, por conselho dos pilotos, mandou o capitão levantar âncoras e fazer vela e fomos ao longo da costa com os batéis e esquifes amarrados pela pôpa contra o norte, para ver se achavamos alguma abrigada e bom pouso onde permanecessemos a tomar água e lenha, não por nos faltar mas por nos acoitarmos aqui e quando fizemos vela estariam já na praia, sentados junto ao rio uns sessenta ou setenta homens que se juntaram ali, pouco a pouco. Continuámos a derrota e o capitão mandou aos navios pequenos que fôssem mais chegados à terra e que, se achassem pouso seguro para as naus, amainassem. E, estando nós pela costa obra de dez léguas donde nos levantámos, acharam os ditos navios pequenos um recife com um pôrto dentro, muito bom e seguro, com uma mui larga estrada e meteram-se dentro e amainaram e as naus arribaram sôbre êles e, um pouco antes do sol pôsto; amainaram obra de uma légua do recife a ancoraram em onze braças. E, sendo Afonso Lopes, nosso pilôto, em um daqueles navios pequenos, por mandado do capitão, por ser homem vivo e destro para isso, meteu-se logo no esquife a sondar o pôrto e tomou em uma almadia dois daqueles homens da terra, mancebos e de bons corpos e um dêles trazia um arco e seis ou sete setas e na praia andavam muitos com seus arcos e setas e não lhe aproveitaram. Trouxe-os logo, já de noite, ao capitão, onde foram recebidos com muito prazer e festa.

 

A feição dêles é serem pardos, um tanto avermelhados, bons rostos e narizes bem feitos; andam nus, sem nenhuma cobertura, não se importam de nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas e estão, acêrca disso, com tanta inocência como têm ao mostrar o rosto. Ambos traziam os lábios de baixo furados e metidos por êles ossos brancos do comprimento de uma mão travessa e da grossura de um fuso de algodão e agudo na ponta como furador; metem-nos pela parte de dentro do lábio e, o que lhe fica entre êle e os dentes é feito como roque de xadrez e de tal maneira o trazem encaixado que os não incomoda, nem lhes perturba a fala, nem o comer, nem o beber. Os seus cabelos são corredios e andavam tosquiados de tosquia alta, mais que de sôbre pente de bom tamanho e rapados até por cima das orelhas. Um dêles trazia por baixo da solapa (a), de fonte a fonte, para detrás, uma espécie de cabeleira de penas de ave amarela que seria do comprimento dum conto, mui basta e cerrada, que lhe cobria o toutiço e orelhas, a qual andava pegada nos cabelos pena a pena com uma confeição branda como cera e não era, de maneira que andava a cabeleira mui redonda, basta e igual, que não fazia falta mais lavagem para a levantar.

 

O capitão, quando êles vieram, estava sentado em uma cadeira, com uma alcatifa aos pés por estrado, bem vestido e com um colar de ouro muito grande ao pescoço; Sancho de Toar, Simão de Miranda, Nicolau Coelho, Aires Correia e nós outros que com êle imos, sentados no chão, sôbre a alcatifa. Acenderam tochas, entraram e não fizeram menção alguma de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém, mas um dêles, fixando o colar do capitão, começou de acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizendo que havia em terra, ouro; também viu um catiçal de prata e assim mesmo acenava para a terra e então para o castiçal como que havia também prata. Mostraram-lhes um papagaio pardo que trás aqui o capitão, tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra como que os havia ali; mostraram-lhes um carneiro, não fizeram dêles caso, mostraram-lhes uma galinha, quási tinham mêdo dela e não lhe queriam pôr as mãos e depois a tomaram, espantados.

 

Deram-lhes ali de comer pão e pescado cosido, confeitos, fartéis, mel e figo passados, não quiseram comer daquilo quási nada e, se alguma coisa provavam, lançavam-na logo fora. Trouxeram-les vinho numa taça, mal lhes puseram a bôca não gostaram dêle nada, nem mais o quiseram. Trouxeram-lhes água por uma albarada, tomaram dela alguns goles e não beberam, sòmente lavaram as bocas e lançaram fora.

 

Viu um dêles umas contas de rozário brancas, acenou que lhas dessem e folgou muito com elas e lançou-as ao pescoço e depois tirou-as e embrulhou-as no braço e acenava para terra e então para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo.

 

Isto tomavamos nós por assim o desejarmos, mas se êle queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isto não queriamos nós entender, porque lho não havíamos de dar; depois tornou as contas a quem lhas deu e então estiraram-se assim de costas na alcatifa a dormir, sem ter nenhuma maneira de cobrirem as suas vergonhas, as quais não eram fanadas e as cabeleiras delasbem rapadas e preparadas.

 

O capitão lhes mandou pôr às cabeças um coxim para cada um e o da cabeleira procurava não a desmanchar e lançaram-lhes por cima um manto, no que êles consentiram, e deitaram-se e dormiram.

 

No sábado de manhã mandou o capitão fazerem-se à vela, e fomos demandar a entrada, que era mui larga e da altura de seis e sete braças e entraram tôdas as naus dentro e ancoraram-se em cinco e seis braças, ancoragem tão grande, formosa e segura, que dentro dela podem caber mais de duzentos navios e naus.

 

Tanto que as naus ancoraram vieram todos os capitães a esta do capitão-mor e daqui mandou o capitão a Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias que fôssem a terra e levassem aqueles dois homens e os deixassem ir com seu arco e setas; a cada um dêles mandou dar camisas novas, carapuças vermelhas e dois rozários de contas brancas de osso, que êles levavam nos braços e cascaveis e campaínhas e mandou com êles, para lá ficar, um mancebo degredado, criado de D. João Telo, chamado Afonso Ribeiro, para andar lá com êles e saber do seu viver e a mim mandou com Nicolau Coelho.

 

Fomos assim de frecha, direitos à praia, ali acudiram logo obra de duzentos homens, todos nus e com arcos e setas nas mãos. Os que nós levavamos acenaram-lhes que se afastassem, e depusessem os arcos e êles os depuseram e não se afastaram muito.

 

Então saíram os que nós levavamos e o mancebo degredado, com êles, os quais, assim que saíram não pararam mais, nem um esperava pelo outro senão quem mais correria e passaram um rio, que por aí corre, de muita água doce, que lhes dava pela brilha, e outros muitos com êles e foram assim correndo além do rio, entre umas moitas de palmas, onde estavam outros e ali pararam. Naquilo foi o degredado com um homem que, logo ao saír do batel, o agasalhou e levou-o até lá e logo tornaram a nós e com êle vieram os outros que nós levámos, os quais vinham já nus e sem carapuças. E então começaram de chegar muitos e entravam pela beira do mar para os batéis até que mais não podiam e traziam cabaças de água e tomavam alguns barris que nós levavamos e enchiam-nos de água e traziam-nos aos batéis. Não que êles de todo chegassem a bordo do batel, mas perto dêle lançavam-nos da mão e nós os tomavamos e pediam que lhes dessem alguma coisa. Nicolau Coelho levava cascaveis e manilhas, a uns dava uma coisa, a outros outra, de maneira que com aquêle engôdo quási nos queriam dar a mão. Davam-nos daqueles arcos e setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer coisa que se lhes queria dar. Dali se partiram os outros dois mancebos, que não mais os vimos.

 

Andavam por ali muitos ou quási a maior parte, que todos traziam aqueles bicos de osso nos beiços e alguns, que andavam sem êles traziam-nos furados e nos buracos uns espelhos de pau que pareciam espelhos de borracha. Alguns dêles traziam três daqueles bicos, isto é, um no meio e os dois nos extremos; andavam outros pintados: metade com a sua côr natural e a outra metade de tinta negra, como que azulada e outros de escaques.

 

Entre êles andavam três ou quatro moças, bem jovens e bem gentis, com os cabelos muito pretos e compridos pelos ombros e as suas vergonhas tão altas e cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de a nós muito bem olharmos, não nos envergonhavamos.

 

Ali , por então não houve mais fala nem entendimento com êles por a sua algazarra ser tamanha que se não entendia nem ouvia ninguém.

 

Acenamos-lhe que se fôssem e assim o fizeram e passaram-se além do rio e saíram três ou quatro homens nossos dos batéis e encheram não sei quantos barris de água que nós levávamos e tornámos às naus e, em nos assim vindo, acenaram-nos que tornassemos; tornámos e êles mandaram o degredado, que não quiseram que com êles ficasse. Levava êste uma bacia pequena e duas ou três carapuças vermelhas para lá dar ao senhor, se o houvesse: não curaram de lhe tomar nada e assim o mandaram com tudo. Então Bartolomeu Dias o fêz outra vez tornar para lhes dar aquilo e êle tornou e deu à nossa vista àquele que da primeira vez o agasalhou e então voltou e trouxemo-lo. Àquele que o agasalhou era já de idade e andava todo enfeitado, cheio de penas, pegadas pelo corpo que parecia aseteado como S. Sebastião.

 

Outros traziam carapuças de penas amarelas, vermelhas e verdes.

 

Uma daquelas moças era toda pintada de alto a baixo com aquela tintura e tão bem feita e tão redonda em suas formas, tão graciosas, que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, causaria pena não terem as suas como ela.

 

Nenhum dêles era fanado, mas todos assim como nós e com isso nos tornámos e êles retiraram-se.

 

À tarde saíu o capitão-mor a folgar em seu batel com todos nós e os outros capitães das naus também em seus; foram pela baía em frente da praia, mas ninguém saíu em terra por o capitão o não querer, sem embargo de ninguém estar nela. Sòmente saíu êle, com todos, em um ilhéu grande que está na baía, o qual na baixa-mar fica muito vasio, mas cercado de água de todos os lados a ponto de ninguém a êle poder ir sem barco, ou a nado. Ali folgou êle e todos nós bem hora e meia e pescaram aí, andando marinheiros com um chinchorro e mataram não muito pescado meúdo e volvemos às naus já bem de noite.

 

No Domingo de pascoela pela manhã determinou o capitão ir ouvir missa e prègação naquele ilhéu e mandou a todos os capitães que se embarcassem nos batéis e fôssem com êle e assim foi feito. Naquele ilhéu mandou armar um pavilhão e dentro um altar mui bem preparado e ali, com todos nós outros, fez dizer missa. Disse-a fr. Henrique, em voz entoada e oficiada com aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes, que ali todos estavam. Segundo me pareceu foi ouvida por todos, com muito prazer e devoção. Ali estava com o capitão a bandeira de Cristo com que saíu de Belém, erguida ao alto na parte do Evangelho.

 

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e pôs-se numa cadeira alta e nós todos por essa areia e prégou uma solene e proveitosa prégação da história do Evangelho e no fim dela tratou da nossa vinda e da descoberta desta terra, conformando-se com o sinal da cruz sob cuja obediência vimos; veiu muito a propósito e fez muita devoção.

 

Em quanto estivemos à missa e à prégação estaria na praia outra tanta gente como a de ontem, com seus arcos e setas; andavam folgando e olhando-nos se assentaram. Acabada a missa, assentados nós à prégação, levantaram-se muitos dêles e tangeram buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço e alguns dêles se metiam em almadias, duas ou três que aí tinham, e não são feitas como as que eu já vi, sómente são três traves atadas juntas e ali se metiam quatro ou cinco ou êsses que queriam, não se afastando quási nada da terra senão emquanto podiam tomar pé.

 

Acabada a prégação dirigiu-se o capitão e todos para os batéis com a nossa bandeira erguida, embarcámos e fomos assim todos contra a terra para passarmos ao longo por onde êles estavam, indo Bartolomeu Dias no seu esquife por mandado do capitão diante com um pau duma almadia, que o mar lhes lavava, para lho dar e nós todos obra de tiro de pedra detrás dêle.

 

Como viram o esquife de Bartolomeu Dias chegaram-se logo todos à água metendo-se nela até onde mais podiam.

 

Acenaram-lhes que depuzessem os arcos e muitos dêles os iam logo pôr a terra e outros os não depunham. Andava aí um que falava muito aos outros que se afastassem, mas não me pareceu que lhe tinham acatamento nem mêdo. Êste, que assim os estava afastando, trazia seu arco e setas e andava pintado de tintura vermelha pelos peitos e costas e pelos quadris, côxas e pernas até abaixo e os vazios com a barriga e estomago eram da sua côr própria e a tintura era tão vermelha, que a água lha não comia nem desfazia, antes, quando saía da água, era mais vermelha.

 

Saíu um homem do esquife de Bartolomeu Dias e andava entre êles, sem êles contenderem com êle para lhe fazerem mal, senão lhe davam cabaças de água e acenavam aos do esquife que saíssem em terra.

 

Com isto de volveu Bartolomeu Dias ao capitão e viemo-nos às náus a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem lhes dar mais opressão e êles tornaram-se a assentar na praia e assim por então ficaram.

 

Nêste ilhéu, onde fomos ouvir missa e prégação, espraia muito a água e descobre muita areia e muito cascalho; quando aí estavamos foram alguns buscar marisco e não o acharam, mas sim alguns camarões grossos e curtos, entre os quais um tão grande, que nunca vi tamanho. Também acharam cascas de berbigões e de ameijoas, mas nenhum inteiro.

 

Tanto que comemos vieram logo todos os capitães a esta náu por mandado do capitão-mor, com os quais êle se apartou e eu com êles, e preguntou assim a todos se nos parecia bem mandar a nova da descoberta desta terra a V.A. pelo navio dos mantimentos para melhor a mandar descobrir e saber dela mais do que agora nós podíamos saber por irmos de nossa viagem e, entre muitas falas, que no caso se fizeram, foi por todos ou pela maior parte dito que seria muito bem e assim concordaram.

 

Tanto que foi tomado o acôrdo preguntou mais se seria bom tomar aqui por fôrça um par dêstes homens para os mandar a V.A. e deixar aqui por êles outros dois dêstes degredados.

 

A tal respeito acordaram que não era necessário tomar à fôrça homens, porque era geral costume dos que assim levavam à fôrça para alguma parte dizerem que há aí tudo o que lhe preguntam. E melhor e muito melhor informação da terra dariam dois homens dêstes degredados que aqui deixassem do que êles davam se os levassem, por ser gente que ninguém entende. Nem êles tão cêdo aprenderiam a falar para o saberem também dizer que muito melhor a estroutos não digam quando V.A. cá mandar e que portanto não curassem aqui de tomar alguém à fôrça, nem fazer escândalo para os de todo mais amansar e pacificar, senão sómente deixar aqui os dois degredados quando daqui partissemos e assim ficou determinado por melhor parecer a todos.

 

Acabado isto disse o capitão que fôssemos nos bateis a terra e ver-se-í bem como era o rio etambém para folgarmos.

 

Fomos todos nos bateis a terra armados e a bandeira connosco; êles andavam ali na praia, na foz do rio, onde nós íamos e, antes de chegássemos, da lição que tinham tido, depuzeram todos os arcos e acenavam que saíssemos e tanto que os bateis puseram as proas em terra passaram-se logo todos além do rio, o qual não é mais largo que um jogo de mancal e tanto que desembarcámos, alguns dos nossos passaram logo o rio e foram entre êles. E alguns aguardavam e outros se afastavam, mas de maneira que todos andavam misturados. Êles trocavam êsses arcos com suas setas por sombreiros e carapuças de linho e por qualquer cousa que lhes davam.

 

Passaram além tantos dos nossos e andavam assim misturados com êles, que êles se esquivavam e afastavam e iam para cima, onde outros estavam e então o capitão fêz-se tomar ao colo por dois homens e passou o rio e fêz tornar a todos. A gente que lai estava não seria mais que a costumada e tanto que o capitão fêz tornar todos vieram alguns a êle, não para o reconhecerem por senhor, porque me parece que não entendem nem tomavam disso conhecimento, mas porque a nossa gente passava já para áquem do rio.

 

Ali falavam e traziam muitos arcos e continhas das já ditas que por qualquer cousa resgatavam de tal maneira que trouxeram dali para as náus muitos arcos e setas e contas e então tornou-se o capitão áquem do rio e logo acudiram muitos à beira dêle.

 

Ali verieis galante pintados de preto e vermelho e quartejados assim pelos corpos como pelas pernas, que de-certo assim pareciam bem.

 

Também andavam entre êles quatro ou cinco mulheres moças, assim nuas, que não pareciam mal, entre as quais andava uma com uma côxa, do joelho até o quadril e a nadega tôda tinta daquela tintura preto e o resto todo da sua própria côr.

 

Outra trazia ambos os joelhos com as curvas assim pintados e também os colos dos pés e as suas vergonhas tão nuas e com tanta inocência descobertas que não havia nisso vergonha alguma. Também andava aí outra mulher moça com um menino ou menina ao colo, atado com um pano não sei de quê, aos peitos, que lhe não aparecia senão as perninhas, mas as pernas da mãi e o resto não trazia nenhum pano.

 

Depois o capitão dirigiu-se para cima, ao longo do rio, que corre rente à praia e ali esperou um velho que trazia na mão uma pá de almadia; êste falou com o capitão, perante nós todos, sem ninguém o perceber, nem êle a nós, quanto à pregunta que lhe fazíamos, se havia ouro na terra.

 

Trazia êste velho o beiço tão furado que pelo furo caberia um grande dêdo polgar e trazia metida nêsse furado uma pedra verde ruim, que cerrava por fora aquêle buraco e o capitão lha fêz tirar e êle não sei que diabo dizia e ia com ela para a bôca do capitão para lha meter.

 

Estivemos sôbre isso rindo um pouco e então o capitão enfadou-se e deixou-o e um dos nossos deu-lhe pela pedra um sombreiro velho, não por ela valer alguma cousa, mas por mostra e depois a houve o capitão, creio que para com as outras cousa mandar a V.A.

 

Andámos por aí, vendo a ribeira, que é de muita água e muito boa; ao lomgo dela há muitas palmas, não muito altas, em que há muito bons palmitos, dos quais colhemos e comemos muitos.

 

Então tornou-se o capitão pra baixo, para a foz do rio, onde desembarcámos e além do rio andavam muitos dêles, dançando e folgando, uns ante os outros, sem se tomarem pelas mãos e faziam-no bem. Passou-se então além do rio Diogo Dias, almozarife que foi, de Sacavém, que é homem gracioso e amigo de se divertir e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita e meteu-se com êles a dançar, pehando-lhes nas mãos e êles folgavam e riam e andavam com êle mui bem, ao som da gaita. Depois de dançarem fêz-lhe ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras e salto real, do que êles se espantavam, riam e folgavam muito e, comquanto com aquilo muito os segurasse e afagasse, tomavam logo uma estranhêsa, como montanheses e foram-se para cima.

 

Então o capitão passou o rio com todos nós e fomos ao longo da praia, indo os bateis assim rente à terra e fomos até uma lagoa grande de água dôce, que está junto da praia, porque tôda aquela ribeira do mar é apaúlada por cima e sai a água por muitos logares e, depois de passarmos o rio, foram uns sete ou oito dêles andar entre os marinheiros que se recolhiam aos bateis e levaram dali um tubarão que Bartolomeu Dias matou levavam-lho e lançou-o na praia.

 

Até aqui, como quer que êles em alguma parte se amansassem, logo duma mão para a outra se esquivavam como pardais do cavadouro e ninguém lhes ousa falar rijo para mais esquivos se não tronarem e tudo se passa como êles querem para os bem amansar. Ao velho, com quem falou o capitão, deu uma carapuça vermelha e, com tôda a fala que com êle passou e com a carapuça que lhe deu, tanto que se despediu e começou a passar o rio, foi-se logo recatando e não quis mais tornar do rio para cá. Os outros dois que o capitão teve nas náus e a que deu o que dito é nunca mais apareceram do que tiro ser gente bárbara e ignorante e por isso são assim esquivos.

 

Contudo andam muito bem tratados e muito limpos e naquilo me parece ainda mais que são como aves ou alimarias monteses, que lhes faz o ar melhor pena e melhor cabêlo que às mansas, porque os seus corpos são tão limpos e tão gordos e tão formosos, que não pode mais ser e isto me faz presumir que não têm casas nem moradas em que se recolham e o ar a que se criam os faz tais, nem nós vimos até agora nenhumas casas, nem maneira delas.

 

O capitão mandou áquele degredado, Afonso Ribeiro, que se fôsse outra vez com êles; assim fez e andou por lá um bom pedaço e à tarde tornou-se, que o fizeram êles vir e não o quiseram lá consentir e deram-lhe arcos e setas e não lhe tomaram cousa alguma do seu, antes, disse êle, que lhe tomara um dêles umas continhas amarelas que êle levava e fugia com elas; queixou-se êle e os outros foram logo após, tomaram-lhes e tornaram-lhas a dar e então mandaram-no vir. Disse que não vira lá, entre êles, senão umas choupaninhas de rama verde e de fetos muito grandes como as de Entre-Douro-e-Minho e assim tornámos às náus já quási noite, a dormir.

 

Na segunda-feira, depois de comer, saímos todos em terra a tomar água. Ali vieram então muitos, mas não tantos como das outras vezes e traziam já poucos arcos e estiveram assim um pouco afastados de nós e depois a pouco e pouco se misturaram connôsco e abraçavam-nos e folgavam e alguns dêles se esquivavam logo. Ali davam alguns arcos por fôlhas de papel e por alguma carapucinha velha ou qualquer outra coisa e de tal maneira que bem vinte ou trinta, dos nossos se foram com êles, onde muitos estavam om moças e mulheres e trouxeram de lá muitos arcos e barretes de penas de aves, uns verdes e outros amarelos, do que, segundo creio, o capitão mandará amostras a V.A. e, segundo diziam os que lá foram, folgavam com êles.

 

Nêste dia os vimos de mais perto e mais à nossa vontade por andarmos todos quási misturados; alguns andavam quartejados daquelas tinturas, outros por metade e outros de feição como se fôssem panos de armar e todos com os beiços furados e muitos com os ossos nêles e outros sem ossos.

 

Traziam alguns uns ouriços verdes de árvores que na côr queriam parecer castanheiros, mas cheios duns grãos vermelhos pequenos que, esmagando-se entre os dedos, faziam tinta muito vermelha, com que se tingiam e quanto mais se molhavam mais vermelhos ficavam. Todos andavam rapados até cima das orelhas e assim as sobrancelhas e pestanas e também trazem as testas de fonte a fonte, tintas de preto e parece uma fita preta, da largura de dois dedos.

 

O capitão mandou áquele degredado, Afonso Ribeiro, e a outros dois degredados que fôssem andar lá entre êles e assim a Diogo Dias, por ser homem alegre, com quem êles folgavam e aos degredados mandou que ficassem lá esta noite. Assim fizeram e, segundo êles diziam, foram bem légua e meia a uma povoação em que haveria nove ou dez casas as quais diziam serem tão compridas, cada uma como esta náu capitânia e eram de madeira e das ilhargas de tábuas e cobertas de palha de razoável altura e tôdas sem nenhum repartimento; tinham dentro muitos esteios e de esteio a esteio uma rêde atada pelos extremos, em que dormiam, e debaixo, para se aquentarem faziam seus fogos. Tinha cada casa duas portas pequenas, uma numa extremidade e outra noutra, e diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas e que assim os acharam. Davam-lhes de comer do que tinham, isto é, muito inhame e outras sementes que na terra há e de que êles comem. Como foi tarde fizeram-nos tornar e não quiseram que lá ficasse nenhum e, ainda, segundo êles diziam, queriam vir com êles.

 

Resgataram por lá cacaveis e outras coisinhas de pouco valor que levavam, papagáios vermelhos muito grandes e formosos e dois verdes e um pano de pênas de muitas côres, à maneira de tecido, bastante formoso, como V.A. tôdas estas cousas verá, porque o capitão vo-las há-de mandar, segundo êle disse, e com isto vieram e nós tornámos-nos às náus.

 

Na terça-feira, depois de comer, fomos a terra dar guarda de lenha e lavar roupa. Quando chegámos estavam na praia obra de sessenta ou setenta, sem arcos e sem nada e vieram logo para nós, sem se esquivarem, e depois acudiram muitos, que seriam bem duzentos, todos sem arcos e misturaram-se tanto connosco que alguns nos ajudavam a carretar a lenha e meter nos bateis. Para isso lutavam com os nossos e tinham muito prazer.

 

Enquanto nós fazíamos a lenha, faziam dois carpinteiros uma grande cruz dum páu que para isso ontem se cortou. Muitos dêles vinham então estar com os carpinteiros e calculo que o faziam, mais por verem a ferramenta com que trabalhavam, que por verem a cruz, pois êles não têm cousa que de ferro seja e cortam a sua madeira e páus com pedras talhadas como cunhas, metidas em um páu, entre duas talas mui bem atadas e por tal maneira que ficam fortes, segundo os homens que lhas viram ontem em suas casas.

 

Era já tanta a conversação dêles connosco que quási nos pertubavam no havíamos de fazer.

 

O capitão mandou a dois degredados e a Diogo Dias, que fôssem lá à aldeia e a outras, se delas tivessem novas, e que, de toda maneira, não viessem dormir às náus, ainda que êles os mandassem e assim se foram.

 

Enquanto andavamos nessa mata a cortar lenha atravessavam alguns papagáios por essas árvores, uns verdes e outros pardos, grandes e pequenos, de maneira que me parece que haverá nesta terra muitos, mas eu não veria mais que até nove ou dez. Outras aves não vimos então, sómente algumas pombas seixeiras e pareceram-me maiores do que em Portugal. Alguns diziam que viram rôlas, mas eu não as vi; por serem muitos os arvoredos e grandes, não duvido que por êste sertão haja muitas aves.

 

Perto da noite nos volvemos para as náus com a nossa lenha.

 

Creio, Senhor, que ainda aqui não dei conta a V.A. da feição dos seus arcos e setas. Os arcos são pretos e compridos e as setas compridas e os seus ferros de canas, aparadas, segundo V.A. verá por alguns que, creio, o capitão lhe enviará.

 

Na quarta-feira não fomos a terra porque o capitão andou todo o dia no navio dos mantimentos a despejá-lo e a fazer levar às náus o que cada um podiam levar.

 

Então acudiram à praia muitos, segundo das náus vimos, que seriam obra de trezentos como disse Sancho de Toar, que lá foi.

 

Diogo Dias e Afonso Ribeiro, o degredado a quem o capitão ontem mandou, que de tôda a maneira lá dormissem, voltaram já de noite, por êles o não consentirem e trouxeram papagáios verdes e outras aves pretas, quási como pêgas, com o bico branco e os rabos curtos.

 

Quando Sancho de Toar se recolheu à náu queriam vir com êle alguns, mas êle não quis senão dois mancebos bem dispostos e dos principais. Mandou-os nessa noite muito bem tratar e comeram quanto lhes deram e mandou-lhes fazer cama de lençóes, segundo êle disse, e dormiram e folgaram naquela noite e assim não houve mais nêste dia que para escrever seja.

 

Na quinta-feira, último de Abril, comemos logo quási de manhã e fomos a terra por mais lenha e água e, quando o capitão queria saír desta náu, chegou Sancho de Toar com seus dois hóspedes e, por êle ainda não ter comido, puzeram-lhe toalhas e veiu-lhe comida e comeu. Os hóspedes sentaram-se em cadeiras e de tudo lhe deram; comeram muito bem, especialmente presunto cosido frio e arroz. Não lhes deram vinho por Sancho de Toar dizer que o não bebiam bem.

 

Acabado o comer metêmo-nos todos no batel e êles connosco. Um grumete deu a um dêles uma armadura grande de poroc montês, bem retorcida e, tanto que a tomou, meteu-a logo no beiço e, porque se lhe não podia segurar, deram-lhe uma pouca de cêra vermelha e êle aproveitou-se dela para a segurar e assim meteu no beiço e vinha tão contente com ela, como se tivera uma grande jóia e, logo que saímos em terra, foi-se com ela, que não mais apareceu.

 

Andariam na praia, quando saímos, oito ou dez dêles e daí a pouco começaram a vir, e parece-me que seriam quatro centos ou quatro centos e cincoenta. Alguns traziam arcos e setas e tudo deram por carapuças e por qualquer cousa. Comiam connosco do que lhes davamos e bebiam alguns dêles vinho e outros o não podiam beber, mas parece-me que, se a êle se acostumarem, o beberão de boa vontade. Todos andavam tão bem dispostos e galantes com as suas pinturas que agradavam assim. Acarretavam quanta lenha podiam com muito boa vontade e levavam-na os bateis e andavam mais mansos e confiados entre nós que nós entre êles.

 

O capitão foi com alguns de nós um pedaço por êste arvoredo até uma ribeira grande e de muita água, que nos parece ser a mesma que vem ter à praia em que tomámos água. Ali estivémos algum tempo, bebendo e folgando ao longo dela, entre o arvoredo, tão frondoso e basto, que mal se pode imaginar e do qual colhemos muitos e bons palmitos.

 

Quando saímos do batel disse o capitão que seria bom irmos direitos à cruz, que estava encostada a uma árvore junto com o rio para se colocar àmanhã de manhã, sexta-feira, e ali, todos de joelhos, a beijassemos para êles verem o acatamento que lhe tínhamos e assim fizémos. Êstes dez ou doze, que aí estavam, acenaram-lhes que assim o fizessem e foram logo todos beijá-la.

 

Parece-me gente de tanta inocência que, se nos fizessemos compreender, seriam logo cristãos porque êles não têm crença alguma, segundo parece.

 

E portanto se os degredados, que aqui hão-de ficar, aprenderem bem a sua língua e os entenderem, não duvido, segundo a santa intenção de V.A., que se façam cristãos e creiam na nossa santa fé, à qual praza a N.S. que os traga, porque de certo esta gente é boa e simples e fácil de levar para onde se quizer e logo N.S. lhes deu bons corpos e rostos como a bons homens e êle, que nos para aqui trouxe, creio que não foi sem causa.

 

Portanto, pois V.A. tanto deseja o acrescentamento da nossa santa fé católica, deve providenciar para a sua salvação e praza a Deus que, com pouco trabalho, assim seja.

 

Êles não lavram, nem criam, nem há aqui boi, nem vaca, nem cabra, nem ovelha, nem galinha, nem outra alguma alimaria costumada ao viver dos homens. Não comem senão do inhame, que aqui há muito, e das sementes e produtos, que as árvores de si lançam e com isto andam tais, tão rijos e nedios, que o não somos nós tanto, conquanto comamos trigo e legumes.

 

Nêste dia, enquanto ali estiveram, andaram sempre ao som dum tamboril, dançando e bailando com os nossos, de maneira que são muitos mais nossos amigos, que nós, seus.

 

Se alguém lhes acenava se queriam vir às naus, faziam-se logo prontos, de tal maneira que se quisessemos convidar todos, todos viriam. Nesta noite porém não trouxémos senão quatro ou cinco, isto é, o capitão-mor trouxe dois, Simão de Miranda um como pagem e Aires Gomes outro, também pagem. Dos que o capitão trouxe, um dêles era um dos hóspedes, que lhe trouxeram da primeira vez e vinha vestido com a sua camisa e com êle um seu irmão; foram esta noite muito bem agasalhados, quer de comida, quer de cama com colchões e lençóes para os mais atraír.

 

Hoje, sexta-feira, primeiro de Maio, pela manhã saltámos em terra com a nossa bandeira e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul, onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz para ser melhor vista e ali, para êsse efeito, assinou o capitão a cova. E, enquanto a ficaram fazendo, êle, com todos nós, fomos pela cruz, abaixo do rio, onde ela estava. Trouxémo-la dali com êsses religiosos e sacerdotes diante, cantando, como em procissão. Eram já aí alguns dêles, obra de setenta ou oitenta e, quando assim nos viram vir, alguns se foram meter debaixo a ajudar-nos.

 

Passámos o rio ao longo da praia e fomo-la pôr onde havia de ficar, que será do rio obra de dois tiros de bésta, o que foi presenciado por uns cento e cincoenta.

 

Arvorada a cruz com as armas e divisa de V.A., que primeiro lhe pregaram, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre fr. Henrique, cantada e oficiada por êsses já ditos e a ela assitiram, connosco, obra de cincoenta ou sessenta dêles, sentados ou de joelhos como nós e, quando chegou ao evangelho, que nos erguemos todos, com as mãos levantadas, êles se levantaram connosco e alçaram as mãos, estando assim até ser acabada e então tornaram a sentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusémos de joelhos, êles se puseram todos assim como nós estavamos, com as mãos levantadas e de tal maneira sossegados, que certifico a V.A. que nos fez muita devoção.

 

Estiveram assim connosco até acabada a comunhão e, depois da comunhão, comungaram êstes religiosos e sacerdotes e o capitão com alguns de nós.

 

Alguns dêles, por o sol ser muito quando estavamos comungando, levantaram-se e outros estiveram e ficaram. Um homem de cincoenta ou cincoenta e cinco anos, ficou ali com os que ficaram, aos quais agrupava. Outro, andando entre êles, lhes acenou com o dedo para o altar e depois apontou para o céu, como que dizendo alguma coisa de bem e disso nos convencemos.

 

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta e ficou na alva e assim, numa cadeira sentado, nos prègou do evangelho e dos apóstolos do dia, tratanto, no final da prègação, desta vossa emprêsa tão santa e virtuosa, o que nos causou mais devoção, e para êle todos olhavamos bem como os indígenas, que iam e vinham. Terninada a prègação trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos que lhe ficaram ainda da outra viagem e houveram por bem lançar a cada um a sua. Para isso se assentou o padre fr. Henrique ao pé da cruz e ali, a um e um, lançava a sua atada em um fio ao pescoço, fazendo-lhe primeiro beijar e levantar as mãos. Lançou-as assim a uns quarenta ou cincoenta. Acabado isto, era já uma hora depois do meio dia, viemos às náus a comer e o capitão trouxe consigo aquêle que acenou com a mão para o altar e para o céu e um seu irmão, a quem fez muita honra e deu uma camisa mourisca e ao outro uma camisa das outras e, segundo o que a mim e a todos pareceu. Esta gente, para ser cristã, só falta entenderem-nos, porque assim praticavam o que nos viam fazer, por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria, nem adoração têm.

 

Creio bem que se V.A. mandar quem mais entre êles de vagar ande, que todos serão tornados ao desejo de V.A. e para isso, se alguém vier, não deixe de vir clérigo para os baptizar porque já então terão mais conhecimento da nossa santa fé pelos dois degredados que aqui entre êles ficam, os quais hoje também comungaram.

 

Entre todos êstes, que hoje vieram, não veio mais que uma mulher moça, que esteve sempre à missa e à qual deram um pano com que se cobrisse e puseram-lho derredor, mas ela, quando se sentava, não fazia caso de o muito estender.

 

A inocência desta gente, Senhor, é tal que a de Adão não seria maior quanto ao pudor. Veja V.A. que quem em tal inocência vive, ensinando-lhe o que é dado para sua salvação, se se converterão ou não.

 

Acabado isto fomos perante êles beijar a cruz, despedimo-nos e viemos comer.

 

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficam mais dois grumetes, que esta noite fugiram para terra, os quais não voltaram e cremos que ficarão porque de manhà, prazendo a Deus, faremos daqui nossa viagem.

 

Esta terra, Senhor, me parece que, da ponta que vimos mais para o sul até à outra que vimos mais para o norte, será tamanha que haverá nela vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Ao longo do mar, tem grandes barreira, umas vermelhas e outras brancas, e a terra por cima tôda chã e povoada de grandes arvoredos. De ponta a ponta é tôda praia muito chã e muito formosa e do mar nos pareceu ser o sertão tão extenso que com a vista o não podíamos alcançar. Não pudémos averiguar da existência de ouro, nem prata, nem ferro, nem qualquer outro metal. Mas a terra é de muitos bons ares, frios e temperados como os de Entre-Douro-e-Minha e abundante de águas.

 

De tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-seá nela tudo em virtude das suas boas águas; mas o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente e tal deve ser a principal semente que V.A. nela deve lançar. E que não houvesse mais que ter aqui esta paragem para navegação de Calicut isso bastaria, quanto mais disposição para nela cumprir e fazer o que V.A. tanto deseja, isto é, a crescentamento da nossa santa fé.

 

Desta maneira, Senhro, dou aqui parte a V.A. do que nesta terra vi e, se me alonguei, seja-me perdoado, porque o desejo que tinha de tudo vos dizer mo fez escrever pelo meúdo. E pois que é certo, Senhor, que assim neste cargo que levo, como em qualquer outra cousa que de nosso serviço fôr, V.A. há-de ser de mim mui bem servida, a ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de S. Tomé, Jorge de Osório, meu genro, no que receberei muita mercê.

 

Beijo as mãos de V.A. Dêste Pôrto Seguro da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro de maio de 1500.

 

 

PERO VAZ DE CAMINHA